Por Claudio Sandos
É comum discutirmos sobre determinados bens de consumo quando sua escassez eleva seus preços. No capitalismo, essa dinâmica é frequentemente explicada pela “lei da oferta e da procura”, conforme postulada por Adam Smith.
No entanto, a realidade brasileira nos últimos anos desafia essa teoria, revelando um sistema especulativo que exacerba as dificuldades da população.
Durante os governos Temer e Bolsonaro, enfrentamos aumentos significativos nos preços de bens essenciais como gasolina, óleo de soja e arroz. As justificativas variavam desde eventos climáticos, aumento na demanda até a pandemia.
Importante lembrar que, enquanto os preços subiam, o salário mínimo permanecia estagnado. Todos lembram dos carros parados nas rodovias por falta de gasolina e das filas para conseguir ossos, uma alternativa desesperada para obter proteína.
Com o fim desses governos, observamos uma estabilização nos preços de alguns produtos, como gasolina, carne e arroz. No entanto, os trabalhadores assalariados ainda enfrentam dificuldades, mesmo com o reajuste do salário mínimo. Isso ressalta a importância da intervenção estatal para regular os excessos dos capitalistas e garantir um equilíbrio no poder de compra.
A recente tragédia no Rio Grande do Sul expôs a verdadeira face do capitalismo brasileiro, que opera mais pela especulação do que pela lei da oferta e da procura. Quando a tragédia afetou a principal região produtora de arroz no país, surgiram previsões de aumento nos preços. Isso fazia sentido, já que 80% do arroz consumido no Brasil vem do Rio Grande do Sul.
Em resposta, o Governo Federal iniciou tratativas para importar arroz de outros países, visando evitar uma alta nos preços. Inicialmente, parecia que haveria mais procura do que oferta, mas a realidade revelou que 80% do arroz já havia sido colhido e estava guardado, aguardando a oportunidade de ser vendido a preços inflacionados. Esta descoberta foi trazida à luz pela Globo, mostrando que a tragédia estava sendo utilizada para especulação de preços.

A ação do governo federal foi bem vista por parte da sociedade, mas enfrentou oposição de partidos ligados à extrema direita. O partido NOVO, por exemplo, entrou com um pedido judicial para proibir a importação de arroz.
Esta atitude demonstra que, para a classe dominante, não existe solidariedade ou compaixão, nem mesmo em momentos trágicos. O único objetivo é aproveitar a situação para aumentar os lucros.
A situação do arroz é apenas um exemplo da essência especulativa do capitalismo, onde o lucro é colocado acima de tudo, até mesmo de valores como Deus, Pátria e Família. A intervenção estatal se mostra crucial para evitar que tragédias sejam usadas como pretexto para a exploração da população.
O caso do arroz revela a necessidade de um sistema mais justo e solidário, onde a prioridade seja garantir o bem-estar de todos, especialmente em tempos de crise.
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SOBRE CLAUDIO SANDOS: Formado em Pedagogia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e especializado em Agroecologia e Educação do Campo (UFP), Claudio Sandos é dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e militante da luta camponesa.

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