De acordo com levantamento da Repórter Brasil, a deputada federal conservadora Cristiane Lopes (União Brasil-RO) está entre os 51 dos 56 parlamentares “pró-vida” que assinaram o PL 1904/24 – conhecido como PL do Estupro – e também foram favoráveis ao PL do Veneno, que deu origem a nova Lei dos Agrotóxicos.
Pesquisas recentes comprovam que existe uma relação entre o uso de agrotóxicos e aumento de abortos espontâneos em regiões de produção agrícola em nosso país.
O aborto espontâneo é a interrupção da gestação que ocorre sem nenhuma intervenção externa e pode ser causado por doenças maternas, por alterações genéticas, malformações no embrião, por traumas físicos ou psíquicos e por exposições a produtos químicos, que afetam a saúde da mulher e o desenvolvimento fetal.
No que se refere à exposição a produtos químicos, estudos apontam que a exposição
materna a substâncias que causam desregulações endócrinas pode levar a deformidades
no desenvolvimento embriofetal.
Dentre eles, os agrotóxicos são capazes de alterar a formação do zigoto, causar malformações no feto, e podem provocar, além do nascimento de um feto com anomalias genéticas, a ocorrência de um aborto espontâneo
Um estudo publicado no livro Desastres Sócio-Sanitário-Ambientais do Agronegócio e Resistências Agroecológicas no Brasil, produzido por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais, em Saúde e Trabalho, da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/UFMT), identificou, com base em dados públicos, que nas regiões com maior uso de agrotóxicos e área plantada, as taxas de internação por aborto espontâneo são maiores.
Segundo a pesquisa, o Mato Grosso registrou 10.073 internações hospitalares por aborto, sendo 2.700 por abortos espontâneos, com média anual de 900 abortos. Quase metade das mulheres que foram internadas por sofrerem aborto espontâneo (47,5%) tinha entre 20 a 29 anos.
A taxa média de aborto variou de 0,8 a 36,2 abortos/10.000 mulheres em idade fértil, com a maior taxa correspondente ao município de Nova Lacerda. A coleta das informações ocorreu entre 2016 e 2018.
Os dez municípios com os maiores coeficientes de aborto foram: Nova Lacerda, Nova Olímpia, Pontes e Lacerda, Alto Taquari, Campo Verde, Nova Santa Helena, Alta Floresta, Barra do Garças, Rondonópolis e Matupá. Apenas Alta Floresta não é considerado um município de grande produção agrícola.
Mais detalhes sobre este estudo estão em reportagem publicada em 2022 no site de jornalismo investigativo O Joio e o Trigo.
Um estudo da Universidade Federal do Piauí, realizado entre 28 de novembro de 2016 e 13 de fevereiro de 2017 pelo sanitarista Inácio Pereira de Lima, aponta que o município de Uruçuí, no interior do Piauí, viveu uma epidemia de intoxicação causada pelo agrotóxico Glifosato com reflexo severo em mães e bebês.
De acordo com reportagem sobre o estudo publicada pelo The Intercept Brasil, estima-se que uma em cada quatro grávidas de Uruçuí sofreu aborto causado pelo agrotóxico Glifosato, 14% dos bebês nasceram abaixo do peso e 83% das mães tiveram o leite materno contaminado.
As mulheres que participaram do estudo sequer trabalham nas lavouras: foram intoxicadas porque fizeram limpeza, cozinharam nas fazendas ou porque comeram o herbicida nos alimentos. Segundo o autor do estudo, o organismo pode ser contaminado pela pele, vias respiratórias e oral.
Além do aborto espontâneo, o relatório Saúde Reprodutiva e a Nocividade dos Agrotóxicos, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), cita pesquisas que apontam como os agrotóxicos podem causar infertilidade, baixo peso no nascimento, prematuridade, malformação congênita, atrasos no desenvolvimento neurológico e cognitivo da criança e até câncer.
Apesar de não existirem dados específicos que relacionem o uso de agrotóxicos com abortos espontâneos em Rondônia, existem outros dados preocupantes que reforçam que essa pode ser uma realidade em nosso estado.
Segundo dados da Vigilância em Saúde das Populações Expostas a Agrotóxicos (Vspea), divulgados em junho de 2023, Rondônia está entre os quatro estados com o maior número de casos de intoxicação exógena por agrotóxicos no Brasil.
Em 16 anos, Rondônia registrou 2.583 notificações de casos de intoxicação por agrotóxicos, mantendo uma média de 13,11 casos por mês, conforme aponta o levantamento.
Um estudo da Universidade Federal do Acre, publicado no Caderno de Ciência e Tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), se dedicou a avaliar o grau de exposição da população de comunidades rurais dos estados do Acre e Rondônia aos efeitos dos agrotóxicos.
De acordo com a pesquisa, no período entre 2007 e 2017, foram registrados 1270 notificações de casos de intoxicação em Rondônia. Entre os casos registrados, 756 das vítimas são homens e 514 mulheres.
Ainda segundo o levantamento, 235 dos casos de intoxicação aconteceram em crianças com idades entre 1 a 9 anos. A faixa etária mais atingida é entre 20 a 59 anos, com 771 casos registrados.
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