Por Claudio Sandos

Nossa geração, nascida entre os anos 1970 e 1980, ainda guarda as cicatrizes de dois períodos brutais da história brasileira: a escravidão e a ditadura militar.

Esses mais de 300 anos de exploração e repressão ainda ecoam em nossa sociedade, apesar dos avanços trazidos pela Constituição de 1988, que prometeu mais democracia e inclusão.

Entretanto, os resquícios desses traumas permanecem, e hoje vemos uma ideologia elitista se perpetuar em nosso cenário político, camuflada em discursos que incentivam o povo a defender sua própria exploração.

A extrema direita e a centro-direita têm se aproveitado dessa desilusão, criando uma narrativa onde o sofrimento se justifica como “prova” de perseverança ou um caminho espiritual para a prosperidade.

Isso distancia o povo das ferramentas de libertação humana – racionalidade, respeito, amor ao próximo – que promovem uma sociedade mais justa.

Vemos, no Brasil e em diversas partes do mundo, pessoas desalmadas que têm alimentado guerras entre nações e intensificado massacres, como o do agronegócio contra povos indígenas e sem-terra, além da violência praticada por policiais ligados a milícias contra moradores de favelas.

Esse ciclo brutal é impulsionado pela negação e pela exclusão sistemática de diferentes grupos de pessoas.

Estamos em um ponto crítico, onde o conhecimento e as reflexões profundas, antes valorizados, são atacados ou desprezados.

Pastores e “coaches” passam a oferecer interpretações superficiais que distorcem a Bíblia e demonizam pensadores como Karl Marx, Paulo Freire e Marilena Chauí.

As mobilizações e o pensamento crítico são abafados, e muitos, descrentes na política, votam na direita simplesmente porque ela “dá mais favores” através de artimanhas como o orçamento secreto. Mas isso é o suficiente para explicar o retrocesso?

No meu estado (Rondônia), nos últimos 15 anos, temos visto nosso povo se tornar um povo sem poesia e cada vez mais próximo da extrema direita, apesar da nossa população ser pobre em sua maioria.

Temos visto que argumentos racionais – baseados na Ciência – ou espirituais – com base na Bíblia mostrando os exemplos de Jesus – parecem não alcançar mais as pessoas.

Talvez esteja aí uma resposta: Falta poesia – essa flecha de esperança que arrebenta os corações endurecidos.

Poemas e músicas que falam ao coração e cultivam a empatia podem ser a chave para reverter esse cenário.

Imaginar um povo rondoniense que conheça um poema de Vinicius de Moraes, de Cecília Meireles, ou mesmo uma rima de Patativa do Assaré, é sonhar com uma Rondônia mais humana. Seria talvez pedir demais?

Quem sabe, ouvir Bráulio Bessa falando sobre diversidade ou versos do poeta pernambucano Antônio Marinho:

“Bem-vinda, democracia
Seja bem-vindo o Brasil
Hoje o teu povo é mais povo
O teu céu está mais anil
Mais verde é tua floresta
Tua fauna canta em festa
Teu mar dança mais feliz
Teus rios correm te abraçando
Nossa terra está voltando
Este é o nosso País”.

Que a poesia se torne mais presente em nossa cultura, como uma flecha que perfura o ódio e planta a semente da esperança.

Relembremos o nosso hino, onde diz que ” nos orgulhamos de tanta beleza “, para que nossa terra não se torne árida, e nos faça sentir saudade, como Gonçalves Dias descreve em sua “Canção do Exílio”.

SOBRE CLAUDIO SANDOS – Formado em Pedagogia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e especializado em Agroecologia e Educação do Campo (UFP), Claudio Sandos é dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e militante da luta camponesa.

*****

Imagem gerada com inteligência artificial

*****

Dê uma força para o nosso trabalho! Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Instagram

Facebook

X

Deixe um comentário