Por Wallisson Rodriguez 

Porto Velho, capital do estado de Rondônia, tem enfrentado graves crises ambientais e sociais nos últimos meses, sendo um dos municípios mais impactados pelas queimadas e pela seca que afetam a Amazônia e outras regiões do Brasil. O rápido crescimento do agronegócio na região, especialmente com a expansão da produção de soja e da pecuária, tem contribuído significativamente para o agravamento dessas crises, além de refletir uma tendência de desmonte socioambiental impulsionada pelo modelo de desenvolvimento econômico predominante na Amazônia.

Entre janeiro e setembro de 2024, Porto Velho registrou o maior número de focos de queimadas de sua história, totalizando 2.327 ocorrências, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2024). Essa situação tem gerado impactos profundos para a saúde pública, com aumento nos casos de doenças respiratórias causadas pela inalação da fumaça e pela poluição do ar.

O agravamento da crise ambiental está também relacionado à significativa redução no nível do rio Madeira, um dos principais corpos hídricos da região. Em um comparativo anual dos meses de outubro de 2020 e 2021, o nível do rio variou entre 2,39 metros e 2,19 metros, respectivamente. Já em 2023, o nível atingiu 1,10 metro, e, em outubro de 2024, foi registrado um novo recorde histórico: apenas 25 centímetros (IBGE, 2024). Esse cenário coloca milhares de ribeirinhos em uma situação de extrema vulnerabilidade, com dificuldades de acesso à água e isolamento de comunidades inteiras.

Além dos problemas ambientais, Porto Velho enfrenta sérios desafios no que diz respeito ao saneamento básico. De acordo com o Instituto Trata Brasil (2024), apenas 41,79% da população tem acesso à rede de abastecimento de água, e 77,32% da água tratada é desperdiçada durante o processo de distribuição. Esses números colocam a cidade entre as piores do país em termos de serviços de saneamento, destacando um descompasso entre o crescimento econômico impulsionado pelo agronegócio e a infraestrutura básica disponível para a população.

Porto Velho consolidou-se como a nova fronteira agrícola de Rondônia, liderando a produção de soja no estado. Na safra 2022/2023, a produção totalizou 2.131.535 toneladas, um aumento de 21,78% em relação à safra anterior, quando a produção foi de 1.750.249 toneladas (IBGE, 2024). Esse crescimento foi acompanhado por uma expansão de 20,37% na área plantada, que saltou de 489.526 hectares para 589.983 hectares (IBGE, 2024). Além disso, Porto Velho possui o maior rebanho bovino do estado, com mais de 1,7 milhão de cabeças (IBGE, 2024).

Os impactos econômicos dessa expansão são consideráveis: a produção de soja em Rondônia gerou uma receita de R$ 4,7 bilhões (IBGE, 2024). No entanto, esse avanço tem custado caro ao meio ambiente. A expansão da monocultura de soja e da pecuária resulta em desmatamento, degradação dos solos e uso intensivo de recursos hídricos, agravando a vulnerabilidade socioambiental da região.

O avanço descontrolado do agronegócio em Porto Velho tem provocado sérios impactos para as populações tradicionais e para o meio ambiente. O desmatamento e as queimadas não apenas reduzem a biodiversidade, mas também colocam em risco a subsistência de comunidades ribeirinhas, indígenas e pequenos agricultores que dependem diretamente dos recursos naturais para suas atividades de pesca, agricultura familiar e coleta de produtos florestais.

Além disso, as emissões de gases de efeito estufa provenientes das queimadas e da pecuária contribuem para o agravamento das mudanças climáticas, intensificando eventos climáticos extremos, como a seca que afeta a região. Esse cenário de crise hídrica e ambiental também amplia a insegurança alimentar, já que muitas dessas comunidades estão cada vez mais isoladas e sem acesso aos recursos necessários para sua sobrevivência.

A expansão do agronegócio em Porto Velho revela uma contradição entre o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável. Embora o aumento da produção de soja e da pecuária tenha gerado resultados econômicos expressivos, o custo socioambiental é alarmante. A falta de políticas públicas eficazes para mitigar os impactos das queimadas, do desmatamento e da crise hídrica exige uma reavaliação urgente das práticas de uso da terra e da água na região.

A situação de Porto Velho é emblemática do modelo de exploração econômica que vem sendo implementado na Amazônia, onde o lucro imediato sobrepõe-se à preservação ambiental e aos direitos das populações locais. Sem uma mudança profunda nas políticas públicas e nos modelos de desenvolvimento, a tendência é que essas crises se agravem, colocando em risco não apenas o futuro da região, mas de todo o ecossistema amazônico.

*Wallisson Rodríguez é fotógrafo, cientista social, especialista em Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo e educador popular. Rondonense beradeiro. 

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