Nascida e criada no interior de Rondônia, Eloysa Silvestre Eloy desenvolveu desde cedo um senso crítico político ao observar as desigualdades e a negligência na saúde pública e na educação que afetavam sua comunidade.
Ao se descobrir travesti, sua luta ganhou novos contornos, enfrentando rejeições familiares e dificuldades sociais.
Hoje, Eloysa é representante oficial da Comunidade Cidadã Livre (COMCIL) em Ariquemes, atua no Fórum Estadual de Cultura e defende a inclusão de representatividade LGBTQIA+, negra, indígena e de terreiro nos espaços culturais.
Além disso, ela organiza projetos solidários e luta por políticas públicas que garantam dignidade e respeito às pessoas trans.
Por conta do Dia Internacional da Memória Trans, que celebra a memória de pessoas trans que morreram vítimas da transfobia, convidamos Eloysa para uma entrevista com o objetivo de saber um pouco mais sobre a realidade da comunidade trans em Rondônia.
Rondônia Plural: O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans. No que se diz respeito à violência, qual é a realidade da comunidade trans no estado de Rondônia? Rondônia é um estado hostil para pessoas trans?
Eloysa Silvestre Eloy: Não difere muito da situação atual no país todo. O Norte, mesmo sendo uma região majoritariamente habitada por pessoas LGBTQIA+, não oferece suporte adequado, especialmente para pessoas trans e travestis. Rondônia tem um alto número de assassinatos de pessoas trans, e a maioria desses casos nem é relatada ou devidamente investigada. Muitas dessas vítimas são profissionais do sexo, o que leva a polícia a não investigar de forma respeitosa ou correta.
Rondônia Plural: No caso de vítimas que são profissionais do sexo, você acredita que isso está ligado à dificuldade que pessoas trans têm de acessar o mercado de trabalho?
Eloysa Silvestre Eloy: Isso é muito óbvio! Desde o início da nossa luta por direitos sociais, lá na época em que o HIV começou a ser debatido, pessoas travestis enfrentam barreiras no mercado de trabalho, independentemente da formação ou estudo que tenham. Muitas profissionais do sexo são poliglotas, têm ensino superior e, em alguns casos, até estudaram fora. Mas, no Brasil, o que importa é a aparência. Se você não for homem cis ou mulher cis, muitas vezes não consegue nem cargos básicos, como o de zeladora. Falo isso por experiência própria!
Rondônia Plural: Qual deveria ser o suporte adequado para proteger a comunidade trans da violência?
Eloysa Silvestre Eloy: Um bom começo seria levar a sério as denúncias da comunidade trans. Muitas vezes, nossos relatos de abuso, roubo, agressão e transfobia não são tratados com o devido respeito. A polícia não dá suporte porque nos vê como pessoas indignas de atenção. O ideal seria aplicar as leis que já existem para nossa proteção, mas isso raramente acontece. Temos poucas leis que realmente nos defendem, e, quando são aplicadas corretamente, elas salvam vidas.
Rondônia Plural: Não relatar e contabilizar casos de violência contra pessoas trans em Rondônia é uma das negligências que a população sofre?
Eloysa Silvestre Eloy: Absurdamente! Em 2023, tivemos 375 casos de transfeminicídio no Brasil, mas apenas 112 foram relatados. O restante nem foi investigado. E quando os casos são investigados, os métodos usados beiram a Idade Média, de tão ultrapassados. Muitos processos são arquivados logo na primeira instância. Isso contribui para um nível colossal de violência.
Rondônia Plural: Esses números de transfeminicídio são nacionais ou estaduais?
Eloysa Silvestre Eloy: São números nacionais, mas eles nem são coletados pelo governo. Esses dados vêm de ONGs, como a ANTRA, que é a maior rede de informações sobre a comunidade trans no mundo. Isso mostra o descaso do Brasil para com a nossa classe. Em Rondônia, apenas em 2023, o estado foi o segundo do país em crimes contra a comunidade LGBTQIA+, com travestis representando a maior parte das vítimas.
Rondônia Plural: Existe algum ponto sobre violência contra pessoas trans que não perguntei, mas que você acha importante mencionar?
Eloysa Silvestre Eloy: A saúde mental. Pessoas trans sofrem com a violência física e mental, o que acaba gerando ódio dentro da própria comunidade. Muitas travestis se sentem indignas de ter uma família, um bom relacionamento amoroso, um emprego ou uma vida digna em geral. Eu tive o privilégio de ter apoio materno e de amigos, mas nem todas as pessoas trans têm essa realidade. O suporte psicológico adequado é uma necessidade urgente.
Rondônia Plural: Esse suporte psicológico deve ser oferecido através de políticas públicas?
Eloysa Silvestre Eloy: O que deve ser feito é a capacitação dos profissionais da área, existe suporte em sistemas gratuitos como o SUS, CAPS, entre outros, os quais não tem capacitação adequada dos profissionais para atender travestis. Existem casos em que o Sistema Único de Saúde, alega que não tem adequação para atender nossa classe. O reconhecimento dessa situação e permanência do mesmo, nos mostra a negligência para com pessoas trans em TODOS os aspectos sociais.
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