Por Marinilda Mandu
A experiência vivida no nordeste brasileiro no período de novembro de 2000 a fevereiro de 2003, no processo de construção do Movimento dos Pequenos Agricultores-MPA nessa região, me trouxe algo incrível sobre o respeito e compreensão das águas, chuvas, solo.
Passei e vivenciei cenas que não saem das minhas memórias, e me trazem uma forma específica de valorizar e cuidar das águas da chuva e querer preservar nascentes e outras fontes de águas.
Em Caruaru-PE, fomos convidados para uma festa da conquista da terra, uma área de Reforma Agrária. Me surpreendi ao ver os festejos. Olhava para o solo seco, estarrecido, sem um sinal de vegetação, e as famílias se abraçam, brindavam, sorriam, choravam, soltavam fogos de artifícios. Fui para um cantinho e as lágrimas escorriam em meu rosto ao observar a felicidade daquele povo e refleti sobre o contraste a lembrar da nossa realidade em Rondônia, região Amazônica, a diversidade de plantas e a abundância das águas e que para muitos que se fartam desses recursos o fazem de forma inconsciente.
Em Gravatá-PE, viajando de moto em estado precário, entre morros, pedregulhos e uma terra árida, para chegar as comunidades rurais e anunciar aos camponeses a importância do MPA naquela região numa época extremamente seca onde esse era o primeiro lamento, a falta de acesso a água. Talvez até pela tensão da viagem e do desafio que estava a enfrentar na tentativa de levar esperança aquele povo me deparei com um estado menstrual inesperado, e sem ter água sequer para lavar as mãos, higienização, pois, naquele momento essa era a realidade local.
Num povoado próximo a Floresta-PE, as pessoas andavam 30 km em busca de água para as necessidades básicas, inclusive para lavar suas roupas. O senhor de uma determinada casa de taipa, saía com uma camisa branca por vários dias, chegava e a pendurava na parede da sala para utilizar mais vezes durante a semana, pois, era impossível lavar com frequência. De branca a camisa só tinha o nome, tinha mesmo era a cor e o cheiro da terra e suor do corpo, de tanta poeira que recebia no vai e vem em busca da sobrevivência familiar.
Em Salgueiro-PE, estava em uma gestação de 5 (cinco) meses, em breve chegaria a minha menina Maíra. As casas eram próximas, sem janelas laterais, muito abafadas. Recordava as moradias de Rondônia, maiores, com mais espaços nos terreiros, cheias das portas e janelas, e me abanava para suportar o calor e dificuldades de respirar que sentia principalmente à noite na hora de repousar, uma inquietude sem tamanho, acentuada em função da gravidez. Há 7 (sete) meses seguidos não chovia naquela região. Os apelos sertanejos para que ela surgisse e salvasse lavouras, pessoas e criações era grande e diversa.
Num belo dia ela chegou, a majestosa chuva, fininha no início, “acanhada”, e foi engrossando, a ponto de me convidar a pegar uma vassoura e ir para a calçada da casa, lavar por uma tarde inteira aquele local, como se nunca tivesse sido feito antes, movida no desejo de permanecer naquela chuva, curtir cada gota d´água que caía, e me molhar por completo com aquela água límpida e abençoada, curtindo o contorno do meu corpo, que se avolumava, aquele barrigão de um Ser que estaria por chegar e que assim como meu filho Raul que já nos acompanhava nessas jornadas, eram partes de mim.
Vi o constante vai e vem de pessoas, famílias inteiras, nas estradas e vilarejos em busca da água, com auxílio de animais de carga, jegues. Pessoas com trajes simples, rostos e traços marcados por sofrimentos, mas ao mesmo tempo resilientes, confiantes na espera de que com a chegada das chuvas teriam dias melhores, no qual depositam as suas crenças, místicas e festejos. São tantas as memórias registradas e associadas à minha história de vida, sendo eu filha e neta de nordestinos, oriundos de Alagoas, que como milhares e milhares de famílias sertanejas em tempos de estiagem e escassez de alimentos, se tornaram retirantes, migrando para outros estados e regiões em busca de oportunidades. Nessa busca incessante são lançados a sorte e passam por outras privações, violências, sofrimentos e humilhações na lida diária pela sobrevivência familiar.
Embora, nem todos os processos migratórios do Nordeste para outras regiões do país não ocorrem simplesmente pela SECA, mas sim, por causa das CERCAS. Já dizia o Bispo Dom Pedro Casaldáliga, “Maldita sejam todas as cercas (…) que nos impedem de viver e amar”.
As chuvas me inspiram, me faz dobrar o joelho frente a natureza e a vida. Me fascina, me encanta, me seduz. Me faz querer ser mais pela humanidade. Me move. Estando em casa quando ela me visita quero aproveitar cada gota d´água que cai. Capto água do telhado, via calhas, lavo muitas roupas, limpo a casa com um prazer imensurável, reservo água para necessidades posteriores. E olha que estamos na Amazônia! Onde a chuva ainda cai de forma generosa, transbordando rios, encharcando o solo, renovando a paisagem, trazendo todas as formas, cores e vida à natureza.
Muitos estranham as minhas atitudes, mas só quem passa por essas experiências compreende o quão prazeroso essa prática nos traz, e a certeza de que assim, também se faz o uso consciente dos recursos naturais, e ajuda, mesmo que de “forma simples, limitada” salvar o Planeta Terra.
Às águas são fontes de vidas. É preciso cuidar.
Marinilda Maria Mandu
Camponesa. Professora graduação Pedagogia da Terra. Letras Português/Inglês
Serei sempre MPA. Serei sempre MST. Serei sempre Resistência.

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