Um novo capítulo da polarização entre as forças políticas da extrema-direita e da centro-esquerda pode estar em curso no Brasil.

A partir da denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao Supremo Tribunal Federal (STF) na última terça-feira (18), o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras 33 pessoas são acusadas de estimular e organizar atos contra os Três Poderes e o Estado Democrático de Direito.

Para especialistas da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), a denúncia não apenas reforça a gravidade dos eventos de 8 de janeiro de 2023, mas também se apresenta como uma oportunidade histórica para avançar na reparação democrática.

O cientista político e diretor acadêmico da FESPSP, Aldo Fornazieri, destaca a robustez das provas apresentadas pelo PGR.

“A denúncia prova fartamente que o 8 de janeiro foi estimulado, diferentemente do que afirmou o presidente da Câmara, Hugo Motta. Há uma vasta documentação que sustenta a acusação e gera grande repercussão no cenário político nacional”, afirma.

Fornazieri vê no julgamento uma oportunidade de “dar um basta ao golpismo”, alertando que a falta de punição adequada abre espaço para novas tentativas de ruptura institucional.

“Não podemos deixar passar em branco o que aconteceu. Sem responsabilização, corremos o risco de retrocessos institucionais que comprometem nosso desenvolvimento como nação democrática e soberana”, conclui.

As repercussões do processo devem se desenrolar em duas frentes, segundo Fornazieri: a jurídica, com a defesa de Bolsonaro tentando dissociá-lo da tentativa de golpe, e a política, com propostas de anistia e redução da inelegibilidade para condenados pela Lei da Ficha Limpa.

Nesse contexto, o bolsonarismo deve intensificar sua ofensiva, convocando manifestações e pressionando o Congresso.

“A extrema direita não costuma ficar na defensiva, mesmo quando acuada. A esquerda, por outro lado, se continuar passiva, pode ser politicamente derrotada”, alerta Fornazieri, citando a recente campanha contra a regra do Pix lançada pela Receita Federal.

Beto Vasques, especialista pela Escola de Governo da USP e coordenador do Laboratório de Opinião Pública da FESPSP, aponta o impacto midiático do julgamento.

“A transmissão pela TV Justiça garantirá visibilidade nacional ao processo, influenciando a agenda política de 2026”, afirma.

Segundo ele, a extrema direita enfrentará um dilema: “Haverá uma mobilização para defender Bolsonaro, mas também uma disputa interna pelo protagonismo político, com nomes como Eduardo Bolsonaro, Michele Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Pablo Marçal ganhando destaque”.

Vasques ainda sugere que o julgamento pode beneficiar o governo Lula. “Essa pode ser a oportunidade para reorganizar a coordenação política, realizar entregas sociais planejadas e afinar a comunicação com o eleitorado, recuperando a iniciativa política”, explica.

Em contrapartida, ele acredita que o Centrão deve continuar seu pragmatismo, aumentando o preço de seu apoio a ambos os lados.

Para Tathiana Chicarino, cientista política e coordenadora da graduação em Sociologia e Ciência Política da FESPSP, o julgamento representa uma chance de avançar na justiça de transição.

“Diferentemente de países como Argentina e Chile, o Brasil não responsabilizou adequadamente os crimes cometidos durante a ditadura. A punição dos militares e civis envolvidos nos atos antidemocráticos é essencial para evitar novos ataques”, argumenta.

Chicarino também destaca o impacto do julgamento nas eleições de 2026.

“Vivemos uma campanha permanente, intensificada pelas redes sociais. É impossível isolar o processo eleitoral desse escândalo político. A disputa pela opinião pública será intensa, e as forças democráticas precisarão mobilizar narrativas potentes em defesa da democracia”, acrescenta.

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Fotos: Mauro Cid (Lula Marques/Agência Brasil); Lula (Ricardo Stuckert/PR); Jair Bolsonaro (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

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