Por Adrian Jhonnson

Rondônia, estado que se destaca pela exuberância de sua floresta amazônica e pelo dinamismo de sua economia agrícola, enfrenta desafios complexos no campo político e social – e não é de hoje. Em um cenário marcado por polarizações, corrupção e uma certa apatia da população frente aos problemas estruturais, é urgente refletir sobre a relação entre o “homem cordial”, conceito cunhado por Sérgio Buarque de Holanda, e a atual situação político-administrativa do estado de Rondônia, de maneira multidisciplinar analisando seu contexto e nuances que merecem atenção.

No clássico Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda apresenta o conceito de “homem cordial” para descrever um traço cultural brasileiro profundamente enraizado: a dificuldade de lidar com as instituições públicas de forma racional e impessoal. O “cordial” aqui não se refere à gentileza ou simpatia, mas à tendência de priorizar relações pessoais e emocionais em detrimento de normas objetivas e universais.

Em Rondônia, esse fenômeno se manifesta de maneira evidente na política local. Governantes e representantes eleitos, como vereadores, prefeitos e deputados, frequentemente adotam práticas clientelistas, baseadas em favores e trocas pessoais, em vez de políticas públicas consistentes e transparentes. Esse modelo perpetua a dependência da população em relação ao poder público, alimentando ciclos de corrupção e ineficiência, ao invés de exigir soluções estruturais para questões como saúde, educação e preservação ambiental, muitos cidadãos se contentam com benefícios imediatos, como empregos temporários ou pequenas benesses.

Em detrimento de tal estrutura, Florestan Fernandes, outro grande pensador brasileiro, alertava para a necessidade de superar essa herança colonial e construir uma sociedade verdadeiramente democrática e igualitária. No entanto, em Rondônia, ainda há um longo caminho a percorrer nesse sentido, já que a ausência de uma cultura política crítica e participativa contribui para a manutenção de práticas arcaicas e prejudiciais.

Outro aspecto preocupante da realidade rondoniense é a alienação social. Apesar das constantes denúncias de irregularidades administrativas, casos e mais casos de corrupção e dos impactos devastadores do desmatamento ilegal e das queimadas, parte significativa da população permanece indiferente ou desinformada, o que, por sua vez, pode ser explicada por múltiplos fatores.

Primeiro, há uma carência crônica de educação cidadã. Muitos jovens e adultos não têm acesso a informações claras sobre seus direitos e deveres como cidadãos, assim, sem essa formação básica, torna-se difícil exigir transparência e responsabilidade dos governantes. Além disso, a mídia local, muitas vezes alinhada a interesses políticos e econômicos, falha em promover debates críticos e informados sobre os grandes temas que afetam o estado.

Segundo, a alienação também é reforçada por uma cultura de conformismo e fatalismo, como a ideia de que “não há o que fazer” ou de que “sempre foi assim”, desmotivando as pessoas a buscarem mudanças. Esse sentimento é especialmente forte entre as populações mais vulneráveis, que veem suas demandas sistematicamente ignoradas pelas autoridades. Além disso, muitos cidadãos priorizam sua própria subsistência diária, pois não veem na política uma possibilidade real de mudança. Para essas pessoas, o esforço cotidiano para garantir o sustento parece quase vão quando comparado ao poder de compra e influência de elites políticas e econômicas. Essa sensação de impotência é exacerbada pela percepção de que as decisões políticas pouco ou nada impactam positivamente suas vidas, enquanto os privilégios de poucos parecem inabaláveis.

Para compreender a situação de Rondônia, é necessário olhar para ela sob diferentes prismas. Do ponto de vista sociológico, o conceito de homem cordial ajuda a explicar por que as relações de poder no estado são tão personalizadas e pouco institucionalizadas, já a perspectiva antropológica destaca a influência da colonização e da ocupação recente do território – processos que deixaram marcas profundas na mentalidade coletiva.

Por outro lado, a ecologia política oferece uma lente essencial para analisar os conflitos em torno do uso da terra e dos recursos naturais. O avanço do agronegócio e a exploração ilegal de madeira colocam em risco a biodiversidade e as comunidades tradicionais, enquanto a fiscalização ambiental continua precária, e aqui, novamente, vemos a alienação social em ação: muitos cidadãos não percebem a gravidade dessas questões ou não se sentem responsáveis por combatê-las.

A filósofa Marilena Chaui, em suas reflexões sobre a sociedade brasileira, argumenta que não há democracia no Brasil porque a sociedade brasileira, em si, não é democrática. Para Chaui, a democracia não é apenas um sistema político, mas uma cultura que precisa ser cultivada no dia a dia. No caso de Rondônia, essa ausência de cultura democrática se manifesta na passividade diante das injustiças, na falta de participação popular nas decisões políticas e na aceitação acrítica de práticas antidemocráticas.

Chaui também destaca que a elite brasileira historicamente se beneficiou de um sistema que exclui as maiorias e concentra poder e riqueza. Essa estrutura perpetua a desigualdade e impede que a população exerça plenamente sua cidadania. Em Rondônia, isso se reflete na marginalização das vozes das comunidades tradicionais, ribeirinhas e indígenas, que são frequentemente ignoradas em favor de interesses econômicos de curto prazo, justificados por ações institucionais arbitrarias.

Diante desse cenário desafiador, nesse pequeno recorte crítico, torna-se possível afirmar que a educação de qualidade, acesso a informações confiáveis e incentivo ao engajamento político são passos indispensáveis para romper o ciclo de alienação e clientelismo.

E também, não será este breve texto que causará grande incomodo ao ponto de grandes mudanças ocorrerem, mas todavia, digo que a maior mudança que há de ser possível é que aquela que ocorre dentro de si, ao ponto que, uma pessoa que observa de forma crítica, o mundo e as pessoas ao seu redor, pode influenciar e alterar o seu ambiente de forma dialógica e sustentável. Sendo assim, para além de fortalecer as instituições democráticas, garantindo que elas atuem de forma independente e eficiente, combater a corrupção, investir em transparência são medidas urgentes para reconstruir a confiança da população no poder público.

Rondônia tem potencial para se tornar um exemplo positivo de desenvolvimento sustentável e inclusivo. Mas, isso só será possível se seus habitantes despertarem para a importância de seu papel como agentes de transformação social, como pontuado anteriormente em menção de Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Marilena Chaui, a mudança começa quando superamos nossas limitações históricas e culturais para construir um futuro mais justo e equilibrado.

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Adrian Jhonnson é psicólogo, psicanalista em formação, pesquisador e artista multilinguagem, atuando em produções culturais e teatro. Também se destaca como líder comunitário, com projetos para o publico infanto-juvenil e idoso, defendendo direitos da juventude, LGBTQIAPN+ e povos tradicionais

Uma resposta para ““Sempre foi assim”: Reflexões sobre Política e Sociedade em Rondônia”.

  1. Avatar de Gustavo Kurt
    Gustavo Kurt

    Ótimo texto!

    A população de Rondônia, já conhecendo as injustiças que ocorrem no sistema de gestão, deve criar uma cultura política combativa para que algo mude de fato.

    O artigo a cima e necessário e mais atual que nunca!

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