Por Adrian Jhonnson

Quando o assunto é infância e juventude, parece que tudo deve ser revestido por uma lógica utilitarista do aprendizado. Esse pensamento justifica a proliferação de inúmeras instituições que prometem ensinar inglês, melhorar a leitura, preparar para vestibulares, oferecer aulas de administração doméstica e uma infinidade de outros cursos.

Não há dúvidas de que o aprendizado é importante, mas ele não é — e não pode ser — tudo o que compõe uma vida humana plena, afinal de contas, uma simples brincadeira ou um jogo pode ensinar muito mais sobre respeito, empatia e convivência do que um curso intitulado “como respeitar os colegas”.

A infância e a juventude são fases fundamentais para o desenvolvimento não apenas cognitivo, mas também emocional e social, por isso, reduzir essas etapas a uma corrida por acumular conhecimentos e habilidades é negligenciar a importância da expressão livre, do afeto e da construção da subjetividade.

É nesse contexto que espaços como o Fada Inad se tornam tão essenciais, oferecendo um refúgio onde as crianças podem simplesmente SER, sem a pressão constante de “aprender” de maneira formal e estruturada.

O Espaço Cultural Fada Inad se destaca como um ambiente não convencional, que rompe
com os moldes tradicionais das instituições conhecidas usualmente como de contraturno, porque, enquanto muitos espaços voltados para crianças focam em atividades estruturadas e resultados imediatos, a Fada Inad prioriza a expressão livre, o afeto e o desenvolvimento da subjetividade infantil. Trabalhar nesse espaço é uma experiência profissional enriquecedora, que desafia e expande a visão sobre o que significa educar e cuidar de crianças.

Na Fada Inad, o profissional não assume um papel diretivo, como um “pintor” que impõe suas cores e formas sobre uma tela em branco, em vez disso, atua como um facilitador, semelhante ao “escultor” da metáfora freudiana, que remove camadas para revelar a forma que já existe.

Essa abordagem permite que as crianças explorem suas próprias potencialidades, expressem suas angústias, medos e desejos, e construam suas identidades de maneira autêntica, já que o foco não está em “corrigir” ou “moldar” comportamentos, mas em criar um ambiente seguro onde a subjetividade de cada criança possa florescer.

A experiência profissional na Fada Inad é marcada pela escuta atenta e pelo respeito à
singularidade de cada criança. Não se trata de aplicar técnicas prontas ou seguir um roteiro
rígido, mas de estar presente, acolher e permitir que as crianças se expressem em seu próprio tempo e de sua própria maneira.

Esse processo exige paciência, sensibilidade e disposição para lidar com o imprevisível, mas os resultados são profundamente gratificantes, como ver uma criança que antes se sentia reprimida ou insegura começar a se expressar com confiança e criatividade é uma preciosidade prática e teórica.

É comum ouvir que a culpa dos problemas infantis é dos pais, que a culpa dos traumas são
gerados pela institucionalização, no entanto, é também na instituição que criança se
desenvolve e é no seios dos pais que se forma.

Contudo, não é sem o erro, a falha ou o fracasso que se faz a árdua tarefa da educação, mesmo Freud caracterizou a educação como impossível, não porque jamais haverá sucesso, mas porque no ponto da letra e do esfacelamento dos ideais o sucesso não importa tanto assim.

E é nesse lugar que a equipe, muito bem preparada da Fada Inad, reconhece que o erro e a falha são parte intrínseca do processo educativo, pois em vez de buscar a perfeição, o espaço valoriza a experimentação e o aprendizado que surge dos conflitos e desafios.

Valendo-se de Freud, o qual caracterizou a educação como uma tarefa impossível, não porque ela não possa ter sucesso, mas porque o sucesso nunca é total ou definitivo, enfim, há sempre falhas, erros e fracassos, que são parte intrínseca do processo educativo.

Espaço de subjetivação

É importante destacar que o conceito de espaço de subjetivação, como proposto aqui, não se confunde com uma análise ou terapia, embora possa compartilhar alguns de seus princípios.

Também não se reduz à ideia de sublimação, embora esta possa fazer parte do processo. Um espaço de subjetivação, como o Fada Inad, é um lugar onde as forças repressivas que
normalmente incidem sobre o sujeito — como as pressões da escola, do trabalho ou das
expectativas sociais — são minimizadas ou ausentes.

Isso permite que o indivíduo experimente uma liberdade singular, onde pode explorar suas potencialidades sem medo de julgamentos ou punições.

Nesses espaços, o bem-estar não é alcançado através da conformidade ou da adaptação a
normas externas, mas sim através da expressão autêntica e da construção de si mesmo, pois é um ambiente onde a criança (ou o sujeito) pode respirar, experimentar e existir sem a
constante sombra da repressão.

Isso não significa que desafios e conflitos estejam ausentes, mas sim que eles são vividos de maneira mais livre e criativa, sem a rigidez de estruturas opressivas.

Em um mundo cada vez mais acelerado e padronizado, onde as crianças são frequentemente pressionadas a se encaixar em moldes pré-estabelecidos, espaços como a Fada Inad são um refúgio necessário, porque além de oferecerem um ambiente onde a subjetividade infantil é valorizada e cultivada, permitindo que as crianças se desenvolvam de maneira integral e autêntica, oferecem a oportunidade de aprendizados complexos através de jogos, brincadeiras e artes diversas.

Por isso, ouso afirmar que a Fada Inad seria contra-pedagógica, no sentido onde atua em
contravenção com os moldes ortodoxos de educação e aprendizagem. E é nesses espaços que as crianças podem aprender a lidar com suas emoções, a expressar suas ideias e a construir relações saudáveis consigo mesmas e com os outros.

A infância é um momento crucial para a formação da identidade, e é responsabilidade
garantir que as crianças tenham acesso a ambientes que respeitem e estimulem sua
singularidade, fugindo da lógica atual de todos devem ser produtivos e uteis o tempo todo.

A Fada Inad é um exemplo brilhante de como isso pode ser feito, e sua existência é um convite para que todos nós repensemos a maneira como cuidamos e educamos nossas crianças, priorizando a subjetividade e o afeto.

*****

Adrian Jhonnson é psicólogo, psicanalista em formação, pesquisador e artista multilinguagem, atuando em produções culturais e teatro. Também se destaca como líder comunitário, com projetos para o publico infanto-juvenil e idoso, defendendo direitos da juventude, LGBTQIAPN+ e povos tradicionais

Deixe um comentário