O ato promovido por Jair Bolsonaro (PL) neste domingo (6), na Avenida Paulista, foi interpretado por especialistas como um movimento estratégico para o ex-presidente se apresentar como vítima de perseguição política, pressionar os demais poderes da República e iniciar a articulação de uma possível sucessão presidencial para 2026.

Segundo Beto Vasquez, professor de Comunicação Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), o evento foi mais do que uma simples manifestação: tratou-se de uma tentativa organizada de reescrever a narrativa em torno dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

“Foi um esforço articulado de Bolsonaro e seus apoiadores para construir uma narrativa de injustiça histórica, humanizar os golpistas e pressionar os poderes da República para reverem suas posturas”, avaliou.

Vasquez vê no ato também uma movimentação concreta do ex-presidente em busca de alternativas para escapar de possíveis condenações.

“Mais do que um plano para 2026, Bolsonaro parece jogar todas as suas fichas no presente: evitar condenações, se possível, receber o perdão antes mesmo da sentença final ou, ao menos, conseguir um asilo político para escapar da cadeia”, disse o professor.

Durante o evento, sete governadores de diferentes estados desfilaram no palanque montado para Bolsonaro, como se tivessem se oferecendo para que um seja escolhido para ser sucessor político do “mito”.

A lista inclui Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ronaldo Caiado (União-GO), Romeu Zema (Novo-MG), Ratinho Júnior (PSD-PR), Jorginho Mello (PL-SC), Wilson Lima (União-AM) e Mauro Mendes (União-MT).

Para Aldo Fornazieri, diretor acadêmico da FESPSP, o jogo político em torno da anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro ainda está em aberto — e promete se estender nos próximos meses.

“Os que defendem a prisão saíram em vantagem. Mas o jogo não se restringe ao Congresso. Ele está sendo jogado também nas redes e nas ruas”, afirmou.

Fornazieri lembra que, de acordo com pesquisa recente da Quaest, 56% dos entrevistados acreditam que os condenados devem permanecer presos, enquanto 36% defendem que sejam soltos.

No Legislativo, a proposta de anistia enfrenta resistência, mas o cenário pode mudar diante de pressões externas.

O professor alerta ainda para a vantagem atual da extrema direita nas ruas: o ato bolsonarista deste domingo reuniu cerca de 45 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político da USP — cinco vezes mais que a manifestação organizada por forças progressistas uma semana antes, que atraiu aproximadamente 9 mil participantes.

“Consideradas as duas variáveis — 36% em favor da anistia e maior capacidade de mobilização dos que a defendem —, a questão parece ainda estar em aberto”, afirma Fornazieri.

“As esquerdas e os democratas não podem pressupor que ganharão esse jogo jogando parados. Precisam aumentar sua capacidade de mobilização nas ruas, nas redes e no Congresso, lembrando que o Congresso é sensível às pressões da opinião pública”, alerta o especialista.

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Foto: Reprodução/YouTube

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