Entre as vozes silenciadas pela Ditadura Militar em Porto Velho está o nome de um jornalista que ousou sonhar — e lutar — por um país mais justo.

Neste 7 de abril, Dia do Jornalista, resgatamos a história de Inácio Mendes da Silva, jornalista e militante político natural de Belém (PA).

Ele chegou a Porto Velho no final dos anos 1940, quando o então Território Federal do Guaporé ainda dava os primeiros passos rumo à sua constituição política e social.

Ainda jovem, Inácio Mendes ingressou na legenda no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Getúlio Vargas, Leonel Brizola e João Goulart.

Jornalista aguerrido e autodidata, fez da palavra sua principal arma contra as injustiças, enfrentando as oligarquias locais com sua escrita irreverente e altamente crítica.

Escreveu em diversos jornais da época — Folha do Guaporé, Correio de Rondônia, Folha de Rondônia — e fundou O Combate e O Combatente.

Suas colunas atacavam diretamente os poderosos da época, os coronéis da política e os militares, que passaram a ver no jornalista uma ameaça à ordem imposta.

Essa ousadia lhe custou caro. Foi preso cinco vezes ao longo de sua vida. Todas as prisões aconteceram em solo rondoniense.

A primeira aconteceu em fevereiro de 1950, após ele denunciar desvios de conduta dos dirigentes do PTB do antigo Território do Guaporé, o que o levou a fundar o “PTB Vermelho”. Ele foi preso acusado de abrigar comunistas na legenda dissidente.

Na segunda vez em que foi preso, em 1957, o jornalista ficou encarcerado em condições precárias por ordem do governador do Território de Rondônia – o general Jayme Araújo dos Santos – sem culpa formalizada.

Ao receber a denúncia da prisão, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediu providências e exigiu a imediata soltura do jornalista.

Em sua justificativa, o general alegou que Inácio Mendes estava distribuindo panfletos, subvertendo a ordem pública e  fazendo ameaças ao coronel Aluízio Ferreira, figura política local que representava os interesses das classes dominantes.

Além disso, em uma tentativa de descredibilizar seu trabalho, o governador afirmou que Inácio Mendes da Silva não era jornalista.

Na campanha eleitoral de 1958 o jornalista seria preso pela terceira vez por criticar os candidatos Aluízio Ferreira e Paulo Nunes Leal em um comício do PSP (Partido Social Progressista) em Guajará-Mirim. A fala foi considerada uma afronta as autoridades.

No ano de 1962, na última eleição antes do Golpe Militar, Inácio Mendes trabalhou ao lado das forças progressistas. Aquela seria a mais trágica disputa eleitoral do antigo Território de Rondônia, que ficaria marcada pelo atentado político que aconteceu no encerramento do comício da Frente Popular, que foi abrigada pelo PSP.

O episódio ficaria conhecido como Caçambada Cutuba, em uma referência ao caminhão basculante da prefeitura municipal que foi usado para atingir propositalmente o público presente no ato político, resultando em duas mortes e dezenas de feridos.

Um ano após o atentado, Inácio Mendes usou sua coluna na Folha de Rondônia para uma divulgar uma campanha de arrecadação para construção dos túmulos das vítimas do atentado político.

Em 1964, após o Golpe Militar, o jornalista enfrentou sua quarta prisão. As forças da repressão política em Porto Velho invadiram sua residência, quebraram portas e janelas, e o arrastaram até as dependências do quartel da 3° Companhia de Fronteira, onde ficou incomunicável, em condições desumanas, sendo torturado para assinar um depoimento desmentindo notícias verídicas publicadas no jornal O Combate.

Diversas denúncias foram enviada aos jornais do Rio de Janeiro e, em uma delas, a esposa de Inácio relatou o ocorrido ao jornal Última Hora.

Inácio Mendes voltou à vida pública em 1969, quando foi eleito vereador para compor a primeira Câmara Municipal de Porto Velho, sendo o candidato mais votado do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), com 312 votos.

Ele seguiu resistindo no parlamento local às tentativas de cassação e a perseguição de seus opositores.

Em 1972, Inácio seria preso pela quinta e última vez, enquadrado na Lei de Segurança Nacional – LSN,  condenado a três anos de reclusão e recolhido ao cárcere em Belém (PA), por publicar críticas ao prefeito de Porto Velho e outras autoridades do antigo Território de Rondônia.

O livro Brasil: Nunca Mais, organizado pela Arquidiocese de São Paulo, colocou o nome do jornalista entre os perseguidos políticos do Regime Militar, destacando a repressão sofrida por seus jornais e as prisões arbitrárias que enfrentou.

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Esta matéria foi redigida com informações do artigo de Zola Xavier da Silveira “Inácio Mendes da Silva – Jornalista, Preso e Torturado em Porto Velho-RO durante a ditadura militar de 1964”, publicado no blog Guaporé Cultural

Foto: Inácio Mendes em pé de paletó preto (Crédito: Arquivo pessoal)

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