Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o Brasil se posicionava contra o nazifascismo, Porto Velho começou a ser ocupada por representantes de um movimento brasileiro de extrema direita: o integralismo.

Um dos capítulos do livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil”, do jornalista e escritor Zola Xavier da Silveira, revela que a formação do Território do Guaporé – origem do atual estado de Rondônia – contou com a participação ativa e estratégica de membros da Ação Integralista Brasileira (AIB), partido de inspiração fascista criado por Plínio Salgado.

De acordo com Silveira, o processo de ocupação institucional por integralistas começou nos anos 1940, quando o engenheiro Joaquim de Araújo Lima, que era abertamente adepto do movimento, foi incorporado à administração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. 

Vindo da Bahia, Lima havia acabado de receber anistia de uma prisão quando chegou a Porto Velho. Ao lado de militares, ele foi preso em 1937 apontado como único líder civil de um grupo integralista, como deixou registrado a edição 213 do jornal A Razão, que serviu como instrumento ideológico da AIB. 

Sua entrada abriu caminho para a chegada de outros, criando um núcleo fascista em plena Amazônia. A presença desse grupo chamou a atenção de professores da Universidade Federal do Amazonas, que integravam a Liga Anti-Eixo — uma frente de resistência ao fascismo, ao nazismo e ao imperialismo japonês. 

Em 1942, em plena guerra, esses acadêmicos denunciaram nos jornais do Rio de Janeiro o que chamaram de “Quinta Coluna” instalada em Porto Velho. A cidade foi comparada a Blumenau, reduto de simpatizantes do nazismo no sul do Brasil, revela o livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil”.

No ano seguinte, em 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Guaporé. Coronel Aluízio Ferreira, então superintendente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, assumiu como governador. 

Em seu lugar na ferrovia, deixou ninguém menos que o engenheiro Joaquim de Araújo Lima. O novo governo territorial logo foi preenchido por quadros da AIB, ocupando cargos na administração pública e em órgãos estratégicos como a Superintendência da Navegação do Rio Madeira.

O professor Enos Eduardo Lins, tido como um dos principais nomes do integralismo na região, assumiu o cargo de chefe de gabinete de Aluízio Ferreira. 

Essa aliança entre a oligarquia local em formação e os integralistas deu forma a uma estrutura de poder que moldaria a política rondoniense nas décadas seguintes.

“Essa malha formou uma mentalidade que perdurou por muitos anos como força hegemônica. Dessa forma, eles expandiram sua política e ampliaram seus espaços”, afirma Zola Xavier da Silveira.

Em 1948, Joaquim de Araújo Lima se tornou o primeiro governador civil do antigo Território do Guaporé, permanecendo no cargo até 1951. Ele é autor do poema “Céus do Guaporé”, que depois se tornaria “Céus de Rondônia” até – no ano de 1982 – ser adaptado para ser letra do hino oficial do Estado de Rondônia

Já o professor Enos Lins, segundo registra o jornal O Alto Madeira, entre 1949 e 1950, teve papel ativo na implantação do Curso Normal Regional Carmela Dutra, que tinha como objetivo formar professores do primário em Porto Velho.

Apesar da narrativa oficial da História de Rondônia deixar escapar esse detalhe, o capítulo de “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil” dedicado a abordar o integralismo nos mostra que é impossível entender a criação do nosso estado sem levar em conta a influência do movimento de extrema direita.

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