Por Walisson Rodrigues

O avanço da extrema direita em Rondônia não é um fenômeno isolado, mas resultado de um processo de construção ideológica que se reflete nas urnas e nas políticas públicas. O pensador Antonio Gramsci nos ajuda a compreender essa dinâmica ao apontar que a hegemonia política não se impõe apenas pela força, mas também pela formação de um consenso que permeia a cultura, a economia e as instituições. No caso de Rondônia, essa hegemonia se manifesta no alinhamento expressivo ao bolsonarismo, sustentado por uma base conservadora, pelo peso do agronegócio e por um discurso que relativiza questões ambientais.

Um estudo conduzido pelos cientistas políticos João Paulo Saraiva Leão Viana e Márcio Carlomagno revela como esse cenário se consolidou no estado. Desde 2018, Rondônia tem se destacado como um dos territórios mais alinhados ao bolsonarismo, com Jair Bolsonaro vencendo em todos os municípios nas eleições presidenciais. Mas essa força política não se limita ao voto: ela está profundamente enraizada na cultura política local, nos interesses econômicos e na forma como a população percebe temas como desenvolvimento, segurança e meio ambiente.

O estudo mostra que em 2018, Bolsonaro obteve 62,24% dos votos no primeiro turno e 72,18% no segundo. Em 2022, esses números foram semelhantes: 64,36% e 70,66%, respectivamente. Em 40% dos municípios do estado, o ex-presidente venceu em todas as seções eleitorais analisadas nos dois pleitos. Apenas dois municípios — Costa Marques e Parecis — registraram derrotas do bolsonarismo em mais de 10% das seções. Em Costa Marques, por exemplo, onde há uma significativa população indígena e quilombola, Bolsonaro perdeu em 28,1% das seções em 2018, mas mesmo assim manteve a vitória no município.  

A formação política de Rondônia está marcada por traços autoritários e conservadores. Criado como Território Federal em 1943, durante o Estado Novo de Vargas, e elevado a estado em 1982, ainda sob influência do regime militar, Rondônia desenvolveu uma cultura política peculiar. Fatores como a forte presença militar, a economia baseada no agronegócio e um eleitorado evangélico numeroso moldaram um terreno fértil para o bolsonarismo.  

O estudo mostra que a eleição municipal de 2016 em Porto Velho, vencida pelo outsider Hildon Chaves (PSDB), antecipou a guinada à direita. Chaves, um ex-promotor que se apresentava como “antipolítico”, surfou na onda do antipetismo e do discurso anticorrupção, ecoando o que ocorria em outras capitais brasileiras.  

A partir de 2018, a radicalização política em Rondônia atingiu níveis sem precedentes. O coronel Marcos Rocha (PSL), outro outsider, foi eleito governador com 66,34% dos votos no segundo turno, consolidando o domínio bolsonarista. Em 2022, mesmo com a derrota nacional de Bolsonaro, Rondônia manteve sua adesão maciça ao projeto da extrema direita.  

A Assembleia Legislativa do estado reflete essa hegemonia: partidos de centro-esquerda ocupam menos de 10% das cadeiras, e em muitas câmaras municipais, como a de Porto Velho, a oposição é praticamente inexistente.  

O estudo dos cientistas políticos João Paulo Saraiva Leão Viana e Márcio Carlomagno  publicado na revista Teoria e Cultura corrobora com o estudo publicado na revista Campo-Território: Revista de Geografia Agrária no ano passado, que demonstra que a política da extrema direita está contribuindo para o aumento do desmatamento.  

O estudo indicou uma relação entre o apoio a políticos de extrema direita e o avanço do desmatamento. No sul da Amazônia, região conhecida como “Arco do Desmatamento”, Bolsonaro recebeu grande parte dos votos. Em contrapartida, nas regiões mais preservadas da floresta, a centro-esquerda teve melhor desempenho eleitoral.

Os dados apresentados no estudo  mostram que, em municípios onde Bolsonaro venceu, a média de vegetação desmatada foi de 19,9%, três vezes maior que a média de 6,3% observada onde Lula teve mais votos. Durante o governo Bolsonaro (2019-2022), a taxa anual de desmatamento na Amazônia ultrapassou os 10 mil km², algo que não ocorria desde 2008. A flexibilização das regras ambientais e o incentivo à exploração econômica da floresta contribuíram para esse avanço.

Atividades como grilagem de terras, mineração ilegal e extração de madeira aumentaram, causando impactos diretos sobre comunidades tradicionais e sobre o equilíbrio do ecossistema amazônico. Além disso, a concentração de poder político na extrema direita enfraqueceu órgãos fiscalizadores, reduzindo o combate a crimes ambientais.

A Polícia Federal e o IBAMA registraram uma queda drástica no número de operações de fiscalização ambiental, e agentes que atuavam contra crimes ambientais sofreram perseguições políticas. O corte de recursos destinados à proteção ambiental resultou na diminuição de apreensões de madeira ilegal e na redução da aplicação de multas a infratores.

Os efeitos desse avanço são alarmantes. Cientistas alertam que, se essa tendência continuar, a Amazônia poderá atingir um ponto de não retorno, onde a degradação ambiental se tornaria irreversível. Isso afetaria a biodiversidade, comprometeria os serviços ecossistêmicos e aceleraria as mudanças climáticas globais.

Além disso, estudos revelam que as mudanças na paisagem amazônica já afetam diretamente o regime de chuvas na região, prejudicando a produtividade agrícola e colocando em risco a segurança alimentar do país. A redução na capacidade de a floresta absorver carbono também acelera o aquecimento global.

As eleições municipais de 2024 mostram que a direita continua forte na região amazônica. Em cidades estratégicas para o combate ao desmatamento, apenas dois prefeitos eleitos pertencem a partidos de esquerda. A maioria das prefeituras foi conquistada por legendas que defendem agendas mais flexíveis para questões ambientais.

Além disso, o avanço da extrema direita nos municípios fortalece políticas de desenvolvimento que priorizam o agronegócio e a exploração mineral, muitas vezes sem restrições ambientais. Isso pode resultar em um crescimento ainda maior da destruição florestal nos próximos anos.

Se esse padrão continuar, há o risco de a Amazônia atingir um ponto de não retorno, onde a degradação ambiental se tornaria irreversível. A perda de floresta pode afetar o equilíbrio climático global, comprometer a produção agrícola e reduzir a disponibilidade de água.

O alinhamento político de Rondônia ao bolsonarismo não é apenas uma questão eleitoral, mas também tem impactos ambientais significativos. O fortalecimento da direita na região tem favorecido políticas que facilitam a expansão do desmatamento. Com a continuidade desse modelo, a Amazônia pode enfrentar desafios ainda maiores no futuro.

A mobilização da sociedade civil e a implementação de políticas públicas são essenciais para garantir a sustentabilidade da floresta. A escolha de lideranças comprometidas com a preservação ambiental será crucial para determinar o futuro da Amazônia e das comunidades que dela dependem.

*Wallisson Rodrigues é cientista social pela Universidade de Rondônia, especialista em Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo.

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