Em um momento em que a crise climática escancara suas consequências na Amazônia, surge o Atlas da Amazônia Brasileira, uma publicação – lançada na última segunda-feira (5) – que reúne um conteúdo inédito com reflexões críticas, dados atualizados e saberes territoriais sobre a maior floresta tropical do planeta.

Com 32 artigos assinados por mais de 50 autores da Amazônia – entre eles 19 indígenas, 5 quilombolas e 2 ribeirinhos – o Atlas traça um panorama amplo e crítico sobre as múltiplas dimensões do território amazônico: da devastação ambiental às alternativas sustentáveis, dos saberes ancestrais à violência política, passando pela crise climática e pelas disputas geopolíticas que colocam a região no centro das atenções globais, especialmente com a aproximação da COP30, que acontecerá em 2025, em Belém (PA).

A obra marca os 25 anos de atuação da organização política alemã Fundação Heinrich Böll no Brasil e se apresenta como uma ferramenta essencial para compreender os desafios atuais da região — e, principalmente, para amplificar as vozes de quem vive, defende e pensa a floresta amazônica.

De acordo com a entidade, o Atlas é a primeira coletânea formada exclusivamente por textos de autores da Amazônia e busca fortalecer o protagonismo dos povos da floresta.

Para Marcelo Montenegro, coordenador da área de Justiça Socioambiental e co-organizador da obra, essa escolha é estratégica: “Queremos estimular diálogos e inspirar soluções diante das adversidades enfrentadas pela Amazônia. A crise climática não pode ser enfrentada sem ouvir quem habita e conhece esse território”, afirma.

Dados alarmantes

Os dados reunidos no Atlas da Amazônia Brasileira são alarmantes: entre 2019 e 2022, o desmatamento bateu recordes — motivado principalmente pela expansão da pecuária —, o garimpo ilegal cresceu 90%, e o número de pessoas com registro de armas na Amazônia Ocidental aumentou mais de 1.000%.

Em 2022, 39 defensores do meio ambiente foram assassinados na região, o que representa mais de um quinto de todos os casos registrados no mundo.

Em 2023, o mundo teve acesso às angustiantes cenas da crise humanitária vivida pelo povo indígena Yanomami, cujo território, nos anos anteriores, foi tomado pela atividade garimpeira ilegal.

No mesmo ano, a Amazônia foi assolada por uma intensa crise climática, com secas extremas e rios alcançando os mais baixos níveis já registrados, o que, além da morte de animais, impactou sua extensa infraestrutura fluvial, levando à escassez de água potável e alimentos, além da dificuldade de acesso a aparelhos públicos.

Os danos não foram totalmente superados e outra seca atingiu a região em 2024. No mesmo ano, o bioma amazônico concentrou o maior número de focos de incêndio dos 17 anos anteriores, e o impacto da fumaça na qualidade do ar prejudicou a saúde de milhares de pessoas – sendo transportada pela atmosfera para outros estados das regiões Centro Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Outros biomas que compõem a Amazônia Legal, como o Pantanal e o Cerrado, também atingiram recordes de queimadas.

Assim, os últimos anos parecem ter desenhado um futuro sombrio para a Amazônia e sua população, seja pelos impactos do colapso climático na região, seja pelas disputas políticas que ditam não apenas o ritmo da intensificação de crimes ambientais (cada vez mais organizados pelas facções do tráfico de drogas nos territórios), mas os interesses econômicos que orientam grandes projetos para a região.

Em contrapartida, a Amazônia é território de uma efervescente mobilização de movimentos sociais, coletivos e organizações socioambientais que têm se tornado linha de frente das discussões envolvendo tanto a gestão territorial regional, quanto a agenda climática global.

Essa mobilização envolve a valorização dos modelos de pensamento dos povos e comunidades, que constroem relações com o território e seus seres bastante distintas daquelas que guiam os setores responsáveis pelo iminente colapso climático.

Chamado à ação

Diante desse cenário, o Atlas da Amazônia Brasileira propõe mais do que diagnósticos. A publicação também critica práticas de greenwashing, denuncia a violência contra os povos tradicionais e oferece caminhos para um modelo de desenvolvimento justo e compatível com a floresta em pé.

“É uma Amazônia viva, que resiste em meio às contradições do desenvolvimento”, define o pesquisador e membro do Conselho Editorial Aiala Colares.

Com tradução prevista para outros idiomas, a publicação busca ampliar seu impacto global. Regine Schönenberg, diretora da Fundação no Brasil, reforça que o Atlas é um chamado à ação

“Reconhecer e defender o papel central dos povos amazônidas é essencial para qualquer solução real para a crise climática. O futuro da Amazônia é também o futuro do planeta”, enfatiza.

Como ter acesso ao Atlas da Amazônia Brasileira?

O Atlas da Amazônia Brasileira pode ser baixado gratuitamente no site da Fundação Heinrich Böll. É possível solicitar gratuitamente – de qualquer parte do Brasil – uma versão impressa da obra através do e-mail info@br.boell.org

*****

Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Instagram

Facebook

X

Deixe um comentário