A geopolítica — ciência que analisa o poder entre Estados a partir de seus fatores geográficos — é hoje campo decisivo para compreender os rumos do Brasil no cenário internacional.
Para Claudinei dos Santos, o Tijolão, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Rondônia, a disputa global pela terra, energia e alimentos se intensifica à medida que o capitalismo se territorializa e os Estados se desregulamentam.
No Brasil, isso se expressa em frentes diversas: da ofensiva do agronegócio à reorganização das forças de extrema direita, passando pelas tensões no governo Lula e os desafios da esquerda.
Em entrevista ao Rondônia Plural, Tijolão aponta que os próximos anos exigirão mobilização social, reforma partidária e resistência democrática diante de um cenário global marcado por guerras híbridas, financeirização e reorganização das potências ocidentais.
Rondônia Plural Entrevista – Claudinei dos Santos (Tijolão), coordenador estadual do MST/RO
Rondônia Plural — Como você avalia o cenário geopolítico internacional neste momento?
Claudinei dos Santos: A disputa global hoje gira em torno do controle da terra, da produção de alimentos, da energia e das tecnologias digitais. A velha lógica da geopolítica, que antes mirava rotas marítimas e militares, agora se amplia para campos como agricultura e tecnologia, em um processo de territorialização do capitalismo. As guerras não são mais apenas convencionais — estamos no campo das guerras híbridas, que envolvem sabotagens, fake news, lawfare e outras formas de desestabilização interna.
Rondônia Plural — E como isso afeta diretamente o Brasil?
Claudinei dos Santos: O Brasil é peça-chave nessa disputa, porque tem terras agricultáveis, biodiversidade, água e um papel estratégico no fornecimento global de alimentos e energia. Ao mesmo tempo, é alvo de ofensivas para desmontar sua soberania, por meio da desregulamentação do Estado, privatizações e captura das instituições por interesses financeiros e corporativos.
Rondônia Plural — Quais são os principais movimentos da extrema direita brasileira para 2025?
Claudinei dos Santos: A extrema direita vai apostar forte na pauta da anistia aos golpistas de 8 de janeiro, tentando livrar figuras centrais do bolsonarismo. Também usarão o julgamento de Bolsonaro no STF para reacender sua base com retórica de perseguição e mobilizações de rua. No plano internacional, vão continuar utilizando a figura de Javier Milei como inspiração para defender políticas de austeridade, destruição de direitos e militarização da política.
Rondônia Plural — E quais são os pontos centrais da ofensiva da direita econômica, em especial o chamado “mercado”?
Claudinei dos Santos: A elite financeira, representada pela “Faria Lima”, mesmo lucrando com os juros da dívida pública, nunca aceitou o projeto de reconstrução nacional do governo Lula. A sabotagem vem por dois caminhos: criar desconfiança no crescimento econômico e atacar o ministro Haddad, tentando minar sua viabilidade política. Tudo isso serve para abrir espaço a um projeto bolsonarista 2.0, com mais austeridade, privatizações e Estado mínimo.
Rondônia Plural — Há espaço para reação da esquerda diante disso?
Claudinei dos Santos: Sim, mas exige organização e clareza. A esquerda precisa disputar o imaginário popular, investir na mobilização de base, reconstruir seu vínculo com o povo e atualizar sua linguagem. A realização do plebiscito popular em setembro sobre a escala 6×1, a redução da jornada de trabalho e a taxação dos super-ricos é uma iniciativa fundamental nesse sentido. É preciso recolocar o povo como protagonista.
Rondônia Plural — Qual a sua análise sobre o governo Lula neste terceiro mandato?
Claudinei dos Santos: É um governo de alianças amplas, o que traz governabilidade, mas também muitos limites. Há tensão com o centrão e uma tentativa de reforma ministerial para acalmar essa base. Três ministérios estão no centro dessa disputa: o do Desenvolvimento Social, o do Empreendedorismo e o das Mulheres. É uma tentativa de ampliar a popularidade, mas que também revela fragilidades na articulação do governo com sua base histórica.
Rondônia Plural — Você acredita que a COP30 será um divisor de águas?
Claudinei dos Santos: A COP30 em Belém é uma grande oportunidade para o Brasil mostrar que é possível conciliar desenvolvimento com sustentabilidade. Mas há riscos. A saída dos EUA do Acordo de Paris e o redirecionamento dos recursos europeus para fins militares podem enfraquecer o financiamento climático. O Brasil corre o risco de virar vitrine sem apoio internacional.
Rondônia Plural — E quanto ao PT, há expectativa de mudança na estrutura partidária?
Claudinei dos Santos: A luta de hoje se dá em outro terreno: menos fábrica e mais redes, sindicato fortes conectados aos territórios, nas rádio, TikTok e todos os meios digitais. Mais isso precisa ser feito com profissionalismo. Fortalecendo nossos instrumentos com o Rondônia Plural, Blog da Luciana de Oliveira e o projeto de extensão REC da UNIR entre outros. Se não, cada militante vai achar que agora a saída é se transformar em um youtuber ou influenciador, e com isso corremos o risco de reforça o personalismo, o individualismo e o exibicionismo. Nesse sentido o partido precisa se adapta à realidade digital, ou perderá ainda mais espaço para a extrema direita.
Rondônia Plural — O que esperar do segundo semestre de 2025?
Claudinei dos Santos: Será um período de muita tensão. O julgamento de Bolsonaro no STF pode reacender as mobilizações da extrema direita. Devemos estar atentos aos CACs, ao agronegócio médio que financiou acampamentos golpistas, e aos sinais de tentativa de desestabilização. Para isso, as forças democráticas precisam pensar em autodefesa e proteção de suas lideranças e espaços de organização.
Rondônia Plural — E qual a saída diante desse cenário?
Claudinei dos Santos: Mobilização popular, articulação internacional e ousadia política. O povo precisa ser parte ativa do debate nacional, e a esquerda precisa parar de falar apenas para si. É hora de ir para os bairros, escolas, roças e favelas com propostas concretas — como o plebiscito popular de setembro. A disputa pelo Brasil do futuro está em curso, e ela se dará tanto nas urnas quanto nas ruas.
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