Na última sexta-feira (23), em Rio Branco (AC), um grupo de manifestantes foi violentamente reprimido durante a realização da 15ª reunião do GCF Task Force (Força-Tarefa dos Governadores para o Clima e as Florestas), evento internacional que reuniu governadores de 38 Estados para discutirem políticas ambientais.

A manifestação aconteceu dentro de uma universidade pública e tinha como alvo principal criticar as políticas ambientais do governador Gladson Cameli (PP), que, de acordo com os manifestantes, promove uma imagem “ambiental” enquanto lidera um dos estados com maiores índices de desmatamento da Amazônia.

Kauana Condes, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e uma das integrantes do ato, relatou ao Rondônia Plural que o protesto foi articulado em conjunto com o Movimento Negro Unificado (MNU), o movimento indígena, membros da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente e do PECMA (ASIBAMA-AC) e pessoas independentes que apoiam a causa ambiental.

De acordo com Kauana, o evento, coordenado por entidades internacionais, em sua maioria ligadas aos Estados Unidos e a países do Norte Global, não contempla a participação efetiva das populações que vivem da e na floresta.

“Era um evento fechado, feito para empresas e governos. As comunidades tradicionais, camponeses, seringueiros, indígenas não estavam representados, a não ser pelas lideranças que o governo conseguiu cooptar”, denuncia Kauana.

O alvo das críticas foi o mercado de carbono, mecanismo defendido pelo governo do Acre para “compensação ambiental”, mas considerado pelos manifestantes como uma falsa solução que não enfrenta a raiz da crise climática.

“O mercado de carbono é uma proposta colonialista que transforma a floresta em ativo financeiro, sem respeitar os povos da floresta, sem respeitar os trabalhadores. Enquanto isso, o governador destrói o meio ambiente, desmonta as leis ambientais, e ainda tenta se vender como líder climático”, pontua Kauana.

Além da crítica à política de créditos de carbono, o movimento denunciou um projeto que ameaça abrir uma estrada entre Cruzeiro do Sul (AC) e Pucallpa (Peru), atravessando a Serra do Divisor, uma das regiões mais preservadas do Acre e habitat de povos indígenas isolados.

A obra, chamada pelo governo de “rodovia sustentável”, é considerada pelos manifestantes uma porta aberta para grilagem, desmatamento e avanço do agronegócio, além de integrar um projeto maior de escoamento de soja e minério pelo Pacífico, alinhado aos interesses do Governo Federal e dos governos dos estados da Amazônia Legal.

“O que eles chamam de desenvolvimento sustentável é na verdade pecuária sustentável, soja sustentável, destruição sustentável. A AMACRO, que se apresenta assim, é justamente uma das zonas com os maiores índices de desmatamento e violência no campo”, reforça a militante.

Violência dentro da universidade

O ato, que começou de forma pacífica, foi violentamente reprimido assim que os manifestantes interromperam o discurso do governador Gladson Cameli.

“Estávamos com faixas e cartazes. Assim que levantamos, os seguranças vieram para cima. Foram murros, tapas, enforcamentos. Uma pessoa saiu com a costela fraturada. Teve gente com hematomas no rosto, uma pessoa ficou com a garganta fechada de tanto ser enforcada. Uma jornalista da Gazeta do Acre que tentou intervir também foi agredida”, denuncia Kauana.

Segundo ela, o episódio foi ainda mais grave por ter ocorrido dentro de uma universidade pública, ambiente historicamente associado à livre manifestação e ao debate de ideias.

“Nem os piores governos de extrema direita, chamados de fascistas, fizeram isso dentro de uma universidade. Nem no Rio de Janeiro, onde a violência do Estado é absurda, houve algo assim. Aqui, no Acre, o governo mandou bater nos manifestantes, tirar a força”, relata.

De acordo com Kauana, os manifestante estão se organizando para formalizar uma denúncia e futuramente entrar com ações judiciais contra o governo estadual. No entanto, segundo os manifestantes, o acesso à justiça já se mostra dificultado, com delegacias fechadas no último fim de semana, quando tentaram formalizar uma denúncia.

Criminalização e fake news

Além da repressão, os manifestantes também passaram a ser alvos de campanhas de difamação. Veículos da imprensa local publicaram acusações de que participantes estariam armados com pedras e até consumindo drogas — versões que os movimentos desmentem categoricamente.

“Isso é mentira. É uma construção para nos criminalizar. Como alguém ia estar com drogas ou pedras no meio de um evento com dezenas de seguranças, policiais e até segurança internacional? As pedras que eles mostram são partes quebradas dos próprios vasos de decoração do teatro, quebrados durante a confusão provocada pelos seguranças”, rebate Kauana.

Para ela, essa narrativa atende aos interesses do governo e de uma imprensa local que, em grande parte, atua como “chapa branca”.

“Muitos jornais aqui recebem dinheiro do governo, então repercutiram fake news contra nós. Só as mídias independentes e, curiosamente, a Gazeta do Acre, onde uma jornalista foi agredida, fizeram uma cobertura honesta”, afirma.

Amazônia no limite

Para os manifestantes, a luta vai além do episódio da repressão. Eles alertam que a Amazônia vive um ponto de inflexão climático, agravado pelas falsas soluções ambientais promovidas por governos e empresas.

“A Amazônia hoje não é mais o pulmão do mundo, é o Derby do mundo. Ela emite mais carbono do que absorve. A solução não está no mercado de carbono, nem no imperialismo verde. A única saída é o povo organizado, consciente, lutando contra esse modelo de destruição”, conclui Kauana.

O movimento já se articula para novos atos, especialmente mirando a COP 30, que acontecerá em novembro no Brasil, onde devem ser fechados acordos que podem aprofundar ainda mais o modelo de mercado de carbono.

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