Por Walisson Rodrigues
Enquanto o planeta atinge recordes históricos de temperatura, florestas são destruídas e eventos extremos se tornam cada vez mais comuns, uma pergunta perturbadora precisa ser feita: por que, em plena emergência climática, discursos autoritários e negacionistas ganham força política? A resposta passa por entender o fascismo não apenas como fenômeno histórico, mas como uma lógica política que ressurge em tempos de crise — e como ele se entrelaça com os interesses que sabotam a luta ambiental.
O fascismo não emerge do nada. Ele se apresenta como resposta de setores dominantes diante de momentos de instabilidade, quando as estruturas tradicionais de poder perdem legitimidade e há um vácuo de direção social. Nessas situações, forças autoritárias tentam impor uma falsa ordem baseada na violência, na repressão e na negação da diversidade e dos processos democráticos.
Historicamente, elites econômicas e políticas recorrem a soluções autoritárias quando percebem ameaças ao seu domínio. É justamente nos momentos de crise que se multiplicam discursos prometendo restaurar a “ordem”, frequentemente culpando minorias, estrangeiros, cientistas ou ativistas. O fascismo atua também como projeto cultural: molda valores, discursos e afetos para sustentar sua lógica de dominação.
A crise climática representa hoje uma das maiores ameaças à vida no planeta. O aquecimento global já ultrapassou os 1,2°C em relação aos níveis pré-industriais, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Fenômenos como secas, enchentes, migrações forçadas e colapso de ecossistemas se tornam cada vez mais frequentes e intensos.
Mas a crise não afeta a todos igualmente. Países do Sul Global e populações vulneráveis são os que mais sofrem os impactos, mesmo sendo os que menos contribuíram para o problema. A resposta à emergência climática, portanto, é também uma disputa por justiça — econômica, social e ambiental.
Regimes autoritários e grupos de extrema-direita, que historicamente negam o pluralismo e reprimem vozes dissidentes, têm demonstrado desprezo pela agenda ambiental. O negacionismo climático, promovido por líderes como Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil, não é apenas desinformação: é uma estratégia política deliberada para proteger interesses econômicos ligados ao agronegócio, petróleo e mineração.
No caso brasileiro, os efeitos foram particularmente alarmantes. Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), o desmatamento na Amazônia Legal atingiu o maior nível desde 2008, segundo dados do INPE. Órgãos de fiscalização ambiental, como IBAMA e ICMBio, foram enfraquecidos. Simultaneamente, houve aumento na perseguição a lideranças indígenas e ambientalistas, e discursos oficiais minimizaram ou zombaram da gravidade da mudança climática.
A pauta ambiental, neste cenário, é tratada como “inimiga do progresso” — uma retórica que ecoa o desprezo autoritário por tudo o que é coletivo, solidário ou científico. Bolsonaro também repetiu discursos negacionistas sobre o aquecimento global e promoveu ministros hostis à pauta ambiental — como Ricardo Salles, que sugeriu “passar a boiada” enquanto a atenção pública estava voltada à pandemia.
O crescimento da extrema-direita no Brasil deve ser compreendido em um contexto mais amplo de desilusão política, crise institucional e ascensão de valores ultraconservadores. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito presidente com forte apoio de setores militares, religiosos e empresariais, defendendo pautas de segurança, “ordem” e liberalismo econômico, mas também promovendo ataques a minorias, à imprensa e à ciência.
Embora derrotado em 2022, Bolsonaro obteve 49,1% dos votos válidos no segundo turno, e seu campo político permanece atuante, com presença robusta no Congresso e influência nas redes sociais, polícias e Forças Armadas. Um estudo publicado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, intitulado “O avanço do neofascismo e os desafios da esquerda na América Latina”, aponta como o bolsonarismo se consolidou como um movimento de extrema-direita que incorpora elementos típicos do fascismo clássico: culto à autoridade, perseguição a adversários ideológicos. O estudo também alerta para o caráter transnacional dessas forças e para os desafios da esquerda em responder a uma ofensiva ideológica que se vale do medo, da desinformação e da religião para se legitimar.
Recentemente, o Brasil testemunhou episódios que exemplificam como o autoritarismo e o desprezo pela agenda ambiental continuam a se manifestar. Em março de 2025, durante uma audiência no Senado, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) fez uma declaração misógina contra a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, dizendo: “imagine o que é tolerar a Marina seis horas e dez minutos sem enforcá-la”. E agora em maio outros ataques ocorreram: Omar Aziz a acusou de falsidade, Marcos Rogério a mandou “se colocar em seu lugar”, e Plínio, novamente, declarou: “Porque a mulher merece respeito, a ministra, não”. Marina respondeu: “Eu sou as duas coisas”. Esses episódios não são apenas ofensas pessoais, mas expressões de um machismo estrutural e de uma tentativa de deslegitimar vozes femininas na política ambiental — sobretudo quando essas vozes confrontam interesses econômicos poderosos e o status quo patriarcal.
Além disso, a aprovação do Projeto de Lei 490/2007, apelidado de “PL da Devastação”, representa um retrocesso grave. A proposta fragiliza os direitos dos povos indígenas e abre espaço para a exploração econômica de territórios tradicionalmente protegidos. Ao beneficiar setores do agronegócio e da mineração, essa medida aprofunda a aliança entre autoritarismo político e destruição ambiental.
Um novo risco começa a despontar: o uso da pauta ecológica por regimes autoritários para justificar políticas xenófobas, militarizadas ou antidemocráticas. Esse fenômeno, que alguns analistas chamam de “ecofascismo”, instrumentaliza a crise climática para defender a repressão a migrantes, o controle populacional e a militarização de territórios — sempre contra os mais vulneráveis. Assim, em vez de promover justiça climática, esses discursos aprofundam desigualdades, negam direitos e reafirmam o poder de elites “nacionais” sob a máscara da “proteção ambiental”.
A crise climática não será resolvida apenas com tecnologia ou acordos diplomáticos. Ela exige uma mudança profunda nas estruturas de poder, nos modos de produção e nas formas de convivência social. E isso passa, necessariamente, por mais democracia — não menos.
Em tempos de transição, quando o velho ainda resiste em desaparecer e o novo luta para emergir, o combate ao autoritarismo e ao colapso ambiental deve ser compreendido como uma única e urgente batalha.
*Walisson Rodrigues é cientista social pela Universidade de Rondônia, especialista em Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo.
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