Apresentada como uma vitrine de desenvolvimento, pesquisa e inovação do agronegócio, a 12ª edição do Rondônia Rural Show, realizada entre 26 e 31 de maio, foi marcada por discursos políticos com distorções de fatos e ataques abertos às leis ambientais.

Logo na abertura, o governador Marcos Rocha (União Brasil) falou que os estrangeiros não querem “comprar de quem destrói o meio ambiente” e destacou Rondônia como exemplo de sustentabilidade afirmando que o estado foi o que menos desmatou na Região Norte em 2024 — dado real, porém atribuído sutilmente à sua gestão.

O dado faz parte de um levantamento recente do Projeto PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e é resultado de políticas ambientais adotadas em nível federal desde 2023.

Chamada para discursar em nome de toda bancada federal de Rondônia, a deputada federal Cristiane Lopes (União Brasil) usou seu momento de fala na abertura do Rondônia Rural Show para destacar que tem atuado em Brasília para lutar contra “tantas questões ambientais”.

“Só de não atrapalhar o homem do campo, Rondônia já desenvolve”, justificou a deputada.

Ainda durante a abertura, o presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia, o deputado estadual Alex Redano (Republicanos) conseguiu fazer o discurso mais chocante.

“Hoje o ser humano é penalizado muito mais se ele cortar uma árvore de lei ou matar um animal silvestre do que matar outro ser humano. Isso engessa o progresso do nosso estado”, declarou, ignorando completamente o papel das leis ambientais na proteção dos ecossistemas e na própria sobrevivência humana.

Redano defendeu ainda que áreas de proteção como a Estação Ecológica Soldado da Borracha e a região de Rio Pardo sejam “destravadas” para atender interesses do agronegócio. “Nossa bancada federal está lutando para isso e nós vamos avançar”, destacou o deputado.

Na sexta-feira (30), um dos dias mais aguardados da feira, contou com uma “palestra” do governador de Goiás, o ruralista Ronaldo Caiado (União Brasil), que tratou as leis ambientais como um empecilho para desenvolvimento de Rondônia.

O governador afirmou que Rondônia “sofre” mais que Goiás por conta de restrições ambientais, que classificou como “ilógicas e inadmissíveis”.

Em tom alarmista e com desinformação, o governador goiano disse ainda que “não há mais produtores na Amazônia”, e que foram substituídos, segundo ele, por facções criminosas.

“Hoje temos só facções: Comando Vermelho, PCC, facções da Venezuela, México e Bolívia. Tornando essa região um território do crime onde eles são os maiores exploradores de garimpos e contrabando de madeira”, afirmou, sem apresentar qualquer dado que sustentasse a declaração.

Por conta disso, ele enfatizou que áreas preservadas estariam “condenadas” ao narcotráfico: “Se não tem ocupação com o agricultor ou o pecuarista, é ocupada pelos criminosos, facções e o narcotráfico”.

O governador de Goiás ainda defendeu a exploração mineral dentro da Amazônia. “Temos um ponto na Amazônia capaz de dar para todos os agricultores do Brasil o atendimento de 60% de consumo de potássio. E nós vamos fazer a abertura lá do tamanho de 10 campos de futebol para tirar esse minério. Está interditado por questões ambientais, enquanto compramos adubo da Rússia e da Ucrânia”, argumentou.

Enquanto o mundo inteiro busca soluções para frear a crise climática — com secas, enchentes e eventos extremos cada vez mais frequentes —, o agronegócio insiste em tratar as leis ambientais como obstáculos ao desenvolvimento.

As pressões para flexibilizar reservas legais, áreas de preservação permanente e unidades de conservação colidem diretamente com os compromissos globais de combate ao aquecimento global e proteção da Amazônia, um dos maiores reguladores climáticos do planeta.

Nesse embate, o avanço predatório sobre a floresta pode até gerar ganhos econômicos imediatos, mas compromete a resiliência dos próprios produtores rurais, que já começam a sentir os efeitos do clima desregulado sobre suas lavouras e rebanhos.

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Foto: Rafael Oliveira/SECOM/ALE-RO

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