Em 2025, a Rondônia Rural Show Internacional serviu de palanque eleitoral para a elite rural anunciar um possível substituto para o inelegível Jair Bolsonaro: o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), que aproveitou o evento para fazer discursos eleitoreiros a pouco mais de um ano antes das eleições do ano que vem.
Durante coletiva de imprensa – ao lado do governador Marcos Rocha e do presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia, o deputado estadual Alex Redano – Caiado, que é dono de 14 fazendas em Goiás, tentou se vender como um homem simples do campo e enalteceu sua trajetória política dizendo que nos anos 1980 criou um “movimento” para representar o produtor rural.
O que Caiado não contou é que o “movimento” é a UDR (União Democrática Ruralista), criada em 1985 como uma resposta de latifundiários ao surgimento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), como revela uma reportagem do site De Olho nos Ruralistas.
Foi sob o comando da UDR que se intensificaram os conflitos agrários no país, resultando em centenas de mortes, inclusive de lideranças reconhecidas internacionalmente, como Chico Mendes, assassinado em 1988. O mandante do crime era Darly Alves, representante da UDR no Acre.
“Eu comecei minha carreira política defendendo o agro, quando ninguém tinha coragem de fazer isso. O produtor rural era retratado como alguém que não tinha sensibilidade social. Eles tentavam demonizar a figura do produtor rural”, enfatizou Caiado, tratando latifundiários como simples “produtores rurais” que são “vítimas” de movimentos sociais que lutam pela reforma agrária.
Velhaco e experiente na política, o governador goiano sabe que inverter os papéis dos vilões e das vítimas de forma desonesta e oportunista, é uma estratégia aperfeiçoada ao longo dos anos pela extrema-direita brasileira, que aposta na desinformação, na manipulação da memória coletiva e na construção de falsos inimigos para manter seus privilégios.
Entre os jornalistas presentes na coletiva de imprensa do Rondônia Rural Show Internacional 2025, um perguntou: O que mudou do discurso da UDR para atual o governador de Goiás e pré-candidato a presidência da República?
Caiado respondeu: “Não teve mudança nenhuma. São 40 anos de vida pública e eu nunca mudei de lado. Sou o mais antigo político do Brasil que faço oposição ao PT”.
O governador goiano reclamou ainda das taxas de juros e da falta de seguro rural, porém, esqueceu de mencionar que o agro, no Brasil, segue sendo o setor que menos paga impostos proporcionalmente, além de ser beneficiado por uma série de políticas públicas voltadas exclusivamente para quem já concentra terras e riquezas.
Diante de diferentes veículos da imprensa estadual, Caiado ainda se mostrou confiante com uma possível vitória nas urnas em 2026 e disparou: “Eu tenho certeza que nós vamos chegar na Presidência da República”.
Palestra ou comício?
Recebido como convidado especial da 12° Rondônia Rural Show Internacional, o governador de Goiás ministrou uma “palestra” para uma plateia composta por empresários, autoridades e diversas figuras do cenário político rondoniense.
Caiado começou a palestra defendendo que “as importações são o que sustenta o Brasil”, se referindo ao modelo agroexportador de commodities, que apesar de gerar lucros recordes para o setor, gera fome e pobreza para o povo, como vimos durante o Governo Bolsonaro, onde o agro teve incentivo do Estado para obter lucros extraordinários enquanto muitas pessoas estavam na fila do osso.
O governador não demorou para atacar o governo federal. Disse que Lula não sabe o que fazer, que o governo não deu certo e que, quando mais o Brasil precisa, o presidente fica com “preguiça” e viaja para o exterior.
Entretanto, as viagens de um Chefe de Estado ao Exterior fazem parte de sua função, que envolve objetivos específicos, como estreitar laços com outros países e até fechar acordos econômicos. Lula não viaja porque fica com preguiça, e sim porque ser presidente exige isso. Preguiça é andar de jet ski, como Bolsonaro fazia, quando o país mais precisava.
Caiado não parou por aí. Disse que no época do impeachment, quando ainda era senador, ouviu a ex-senadora Gleisi Hofmann dizer que nenhum senador tinha moral para cassar a presidenta.
Diante da plateia, ele disse que, em resposta à Gleisi, falou: “Não admito, senhor presidente, que essa assaltante de aposentado fale isso de mim”, e continuou: “agora o Brasil inteiro está vendo que eles [o PT] roubaram dinheiro dos aposentados”.
“É um governo que não tem coragem de enfrentar o crime”, disse Caiado, em tom sensacionalista. “Vocês estão vendo a PEC da Segurança? Eles querem colocar câmera no policial para beneficiar o crime”, acrescentou, mudando o tema para segurança pública.
Em relação a colocar “câmera em policiais”, nessa última terça-feira (3), as imagens de uma câmera corporal de um sargento de São Paulo mostrou que uma jovem inocente de 16 anos foi morta depois de uma abordagem policial. Quase todo dia a mídia mostra um caso parecido. Será mesmo que colocar câmera em policial é beneficiar o crime?
Voltando a palestra, Caiado apelou até para fake news: “Esse pessoal é complacente com a droga. Nunca vocês viram ele enfrentar a droga. Não tem isso. É o que mostra que o PT anda passo a passo com eles.”
Depois de exaltar o agro, criticar o Governo Lula e semear desinformação, dando exatamente o que o eleitorado bolsonarista deseja, o governador de Goiás deixou claro que “se o Bolsonaro sair candidato para presidente todos nós vamos apoiá-lo”.
“Agora e se não acontecer? E aí vamos ficar esperando 15 de julho do ano que vem para disputar a presidência da República? Então, comecem a pensar no futuro do Brasil, nos filhos de vocÊs, o que será do Brasil e de Rondônia com essa nova Reforma Tributária?”, disse Caiado.
“Eu acredito que vamos ganhar as eleições de 2026 e aí sim vamos dar um basta em tudo isso”, finalizou a “palestra”.
Para completar, os deputados estaduais da Assembleia Legislativa de Rondônia homenagearam Ronaldo Caiado com o Título Honorífico de cidadão rondoniense que é dada a pessoas que contribuíram para o estado, coisa que o governador de Goiás nunca fez.
O que chama atenção — e exige reflexão crítica — é que o Rondônia Rural Show foi um evento financiado com dinheiro público com a desculpa de fomentar uma agropecuária sustentável, incentivar na agricultura familiar, fortalecer pesquisas e desenvolver soluções para os desafios da crise climática.
Entretanto, o que vimos na edição de 2025, a maior feira de agronegócios é apenas mais um espaço de propaganda e agitação política da elite ruralista, que está desesperada com o fim de Jair Bolsonaro, e precisa catapultar um novo nome para representar seus interesses econômicos.
A 12° Rondônia Rural Show Internacional não passou de um palanque eleitoral, que não só promoveu Caiado, mas também o governador Marcos Rocha, seu colega de partido, que em 2026, será candidato a senador de Rondônia, e a primeira-dama estadual, Luana Rocha, que tentará uma vaga como deputada federal.
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Foto: SECOM/Governo de Rondônia
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