Embora não esteja entre os estados com maior taxa de homicídios gerais no Brasil, Rondônia desponta em 2025 como uma das unidades da federação com indicadores críticos em violência de gênero, violência doméstica e letalidade indígena.
É o que revela o Atlas da Violência 2025, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Violência letal contra mulheres: 3ª pior taxa do Brasil
Segundo o levantamento, Rondônia registrou em 2023 uma taxa de 5,9 homicídios de mulheres por 100 mil habitantes — o que coloca o estado como o 3º pior do país, atrás apenas de Roraima (10,4) e empatado com o Amazonas (5,9).
A média nacional ficou em 3,0 por 100 mil mulheres, ou seja, a taxa rondoniense praticamente dobra o índice nacional.
Mesmo com uma redução de 18,1% em relação a 2022, o estado permanece no topo do ranking negativo, evidenciando um padrão estrutural de violência de gênero, com alto percentual de feminicídios ocorrendo em residências, o que indica contexto de violência doméstica.
Crianças e adolescentes em situação de risco doméstico
O Atlas da Violência também expõe a face oculta da violência doméstica e sexual no Brasil — e por extensão em Rondônia — ao detalhar o perfil etário das vítimas.
“Nacionalmente, 15,2% das vítimas de violência doméstica têm entre 0 e 9 anos e 9,2% têm entre 10 e 14 anos. Portanto, um quarto dessas vítimas tem menos de 15 anos”, apontou Vinicius Miguel.
Rondônia, com seus vastos territórios rurais e alta taxa de vulnerabilidade social, tende a replicar ou até agravar esse padrão.
As crianças e adolescentes do estado estão entre as populações mais suscetíveis, tanto pela exposição direta à violência intrafamiliar quanto pelas dificuldades de acesso a serviços especializados de proteção, sobretudo nas regiões interioranas e comunidades indígenas.
Homicídios gerais: ainda acima da média
No indicador de homicídios gerais — que inclui mortes por agressão e intervenção legal — Rondônia registrou 30,0 homicídios por 100 mil habitantes em 2023. Apesar de estar acima da média nacional (21,2), o estado não figura entre os cinco piores nesse ranking geral.
Os estados com piores taxas de homicídios gerais são Amapá (57,4), Roraima (35,9), Amazonas (36,8) e Bahia (43,9), todos com índices bem superiores ao de Rondônia.
Entre 2013 e 2023, porém, Rondônia acumula uma variação de +14,3% no número absoluto de homicídios, o que evidencia oscilações preocupantes ao longo da década.
Rondônia: um dos estados com maior letalidade de indígenas
Outro dado sensível revelado pelo Atlas refere-se aos homicídios envolvendo populações indígenas. Em 2023, Rondônia teve uma taxa de 10,1 homicídios por 100 mil indígenas, posicionando-se entre os cinco estados mais letais do Brasil para povos originários.
As causas, segundo o estudo, estão relacionadas a conflitos fundiários, expansão de garimpos ilegais, grilagem de terras e ação de facções criminosas em territórios indígenas, sobretudo nas terras Karipuna, Uru-Eu-Wau-Wau e Suruí, que enfrentam crescente invasão territorial.
Quadro estrutural de vulnerabilidade
A análise dos dados do Atlas da Violência 2025 indica que Rondônia enfrenta um quadro estrutural de vulnerabilidade cruzada, combinando:
- violência de gênero sistemática;
- exposição precoce de crianças e adolescentes à violência doméstica e sexual;
- pressão crescente sobre os povos indígenas;
- letalidade ainda elevada na taxa geral de homicídios
Embora algumas reduções pontuais tenham ocorrido, o relatório conclui que não há evidências de mudança estrutural consistente nas dinâmicas de violência no estado.
“As políticas públicas seguem majoritariamente reativas, baseadas no policiamento ostensivo, com baixa integração de programas de prevenção multissetoriais”, apontou Vinicius Valentin Raduan Miguel, professor do Programa de Mestrado em Políticas Públicas da Universidade Federal de Rondônia e integrante de uma organização de Direitos Humanos, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos.
Caminho para soluções mais efetivas
Especialistas consultados pelo Atlas apontam que estados que conseguiram reduzir de forma consistente a violência letal no Brasil — como Espírito Santo, Goiás, Distrito Federal, Paraíba e Santa Catarina — implementaram modelos de gestão com planejamento estratégico, uso de inteligência policial, investimento em programas sociais e atuação interinstitucional integrada.
Em Rondônia, a ausência de políticas nessa direção reforça o quadro preocupante revelado pelos rankings nacionais.
*****
Foto: Pexels
*****
Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Deixe um comentário