A ginga, os toques dos instrumentos e os corpos em movimento compõem o tecido poético de Ecos de Aú, curta-metragem filmado em Ji-Paraná e realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, que se propõe a transpor para o cinema a atmosfera única de uma roda de capoeira.
Com direção de Otavio de Sousa e produção de Adrian Jhonnson, o projeto recusa qualquer olhar de encenação artificial: o que o espectador vê na tela é a roda do grupo Abadá Capoeira como ela de fato acontece — com sua energia coletiva, seus ritos, suas pausas e suas explosões de movimento.
A narrativa, construída por meio de um formato que trabalha entre a fronteira do documental e o ficcional, é composta por imagens que buscam um registro da conexão que se manifesta tanto no jogo físico quanto nas simbologias que atravessam a roda de capoeira.
Essa abordagem foi fruto de uma pesquisa que envolveu diálogos constantes entre a equipe de produção e o grupo Abadá Capoeira de Ji-Paraná. “Foram eles que conduziram e construíram a história desse filme. É mérito completo deles a construção do enredo desse filme”, enfatiza Sousa.
“Queríamos interferir o mínimo possível na dinâmica da roda. Trabalhamos com duas câmeras: uma mais geral, em take único, e outra que captava detalhes e recortes. Os diretores de fotografia, Lucas Costa e Ana V. Araújo, fizeram uma verdadeira dança com os capoeiristas, acompanhando os movimentos de forma contínua. Esse foi nosso maior desafio para fazer o filme”, relata o diretor.
“Também foi um desafio a edição do filme, porque ficou um material bem grande e muito bonito e a gente tinha que reduzir tudo para menos de 20 minutos. A primeira saída que a gente fez ficou com 37 minutos e aí a gente foi fazendo os cortes, reduzindo até ficar com essa duração que o filme tem”, acrescenta.

Abadá Capoeira
Ecos de Aú apresenta a estrutura e metodologia aplicada semanalmente nas rodas de capoeira do grupo Abadá Capoeira, que atua desde 1990 em Ji-Paraná, ensinando a prática – em sua maioria – para crianças e promovendo ações voltadas à população periférica.
De acordo com Adrian, capoeirista do grupo, o Abadá Capoeira tem um estilo muito específico, com sua própria filosofia e metodologia de ensino, abrangendo aspectos esportivos, marciais, artísticos e culturais. “Vemos a capoeira como uma arte integrativa”, complementa.
“Embora seja uma organização nacional, com grupos em outros estados, o Abadá Capoeira de Ji-Paraná traz a identidade dos capoeiristas daqui que acredito ter uma ligação maior com a natureza por crescerem em uma cidade amazônica”, explica Otavio.
“Penso que um grupo de São Paulo, por exemplo, não tem essa mesma ligação com a natureza. É nítido que quem cresce aqui em Ji-Paraná tem uma relação mais próxima com o meio ambiente”, acrescenta.
Terra, Água, Fogo, Ar e Espaço
Em Ecos de Aú, os elementos Terra, Água, Fogo, Ar e Espaço tornam-se eixos estruturantes, não como alegorias distantes, mas como presenças vivas no corpo de quem faz parte da roda.
A trilha sonora reforça essa busca por sensorialidade e imersão. Além da musicalidade tradicional da capoeira, o filme incorpora composições da saxofonista italiana Isabella Fabbri, com faixas do álbum Elementa, criando um encontro sonoro entre ancestralidade e contemporaneidade.
“Sempre fui muito ligado à natureza, por conta de ter crescido em Rondônia. Quando ouvi o álbum da Isabella Fabbri, que é minha amiga e parceira em outros projetos, já tinha vontade de criar algo com essa temática. Conversando com o Adrian, ele destacou que a capoeira também tem conexões com os elementos da natureza. A partir disso, começamos uma pesquisa sobre como os instrumentos e outros elementos da capoeira poderiam se relacionar com o tema”, conta Otavio.


Ecos de Aú: Referências e significados
O título Ecos de Aú faz alusão direta a um dos movimentos mais versáteis da capoeira, o “aú”, e à ideia de reverberações – físicas, simbólicas e afetivas – que ultrapassam os limites da roda e atingem quem assiste.
“Ecos tem a ver com o próprio significado da palavra Ecos, mas também com a mitologia e a história de Eco, que morreu e seu som ecoou pela caverna, e Aú é um movimento da capoeira que serve como ataque, defesa, esquiva, saída e exibição, ou seja, Aú é um movimento muito versátil”, explica Adrian.
Segundo Otavio, o título resume bem a proposta do filme: “a ideia de que há um jogo físico, mas que também há outras reverberações e possibilidades tanto da capoeira quanto dos capoeiristas, de quem faz e quem pratica”, destaca o diretor.
Identidade regional
Ecos de Aú dialoga com o cinema nacional ao buscar referências principalmente em Besouro (2009), filme que também trata da capoeira como elemento de resistência e poesia. Contudo, Ecos de Aú é uma produção audiovisual ji-paranaense: desde os idealizadores e aos capoeiristas, passando pelos cenários naturais mostrados no filme, tudo no projeto carrega a marca da cidade.
“Ji-Paraná representa uma história para a gente e para os capoeiristas que participaram do filme. Eu sou fruto da terra, Otavio também é daqui. E acho que isso é importante para que nossa cidade seja referência em produção cultural para outras regiões do Brasil, de Rondônia e do mundo”, destaca Adrian.
O filme terá uma exibição de teste gratuita no próximo sábado (28/06), às 14h, no Cine Laser, do IG Shopping, no segundo distrito de Ji-Paraná. “Escolhemos esse lugar porque oferece acessibilidade para pessoas com deficiência e também para que a população do segundo distrito, onde mora a maioria dos praticantes da capoeira e seus familiares, pudessem prestigiar a pré-estreia”, enfatiza o capoeirista.
Em breve, será realizada uma segunda sessão, que será transmitida no canal do Youtube da Auá Coletivo Artístico, antes de o curta iniciar sua fase de distribuição para circulação em festivais de cinema.
*****
Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Deixe um comentário