Por Adrian Jhonnson
“É o que o de cima, sobe e o debaixo, desce!”
O cerne da questão apresentada na frase acima, de As Meninas, reside na compreensão materialista histórica, apresentada por Marx, onde o conceito de mais-valia, o qual, desnuda a engrenagem primordial do capitalismo: a extração sistêmica do valor não remunerado do trabalho humano.
Quando um trabalhador entrega 10 horas de sua vida diária na linha de produção (trabalho), recebendo em troca um salário que mal cobre 2 horas desse labor, os 80% restantes do valor por ele criado são confiscados pelo capital como lucro. Essa expropriação matemática não é um acidente do sistema, mas sua condição de existência, ou seja, a acumulação capitalista se alimenta dessa discrepância entre o valor produzido e o valor pago, criando uma contradição insolúvel: quanto mais eficiente se torna o trabalhador (via tecnologia ou intensificação do esforço), mais ele contribui para sua própria precarização, pois o excedente apropriado pelo patrão aumenta proporcionalmente.
Esse mecanismo perverso explica a dinâmica obscena da concentração de riqueza contemporânea. Enquanto os 10% mais ricos do Brasil detêm 59% da renda nacional (dados do IBGE, 2023), a massa trabalhadora enfrenta uma realidade onde 33 milhões passam fome em meio à maior produção agrícola da história. A contradição não é moral, mas estrutural: o capitalismo necessita simultaneamente de trabalhadores produtivos e consumidores empobrecidos. A riqueza dos bilionários não decorre de mérito ou inovação, mas da propriedade privada dos meios de produção que lhes permite sugar o trabalho alheio. Quando Jeff Bezos acumula US$200 bilhões enquanto trabalhadores da Amazon urinam em garrafas para não perder tempo de produção, temos a mais cristalina expressão da mais-valia em sua forma contemporânea.
Essa realidade material brutal seria insustentável sem um sofisticado aparato ideológico que a naturaliza. Aqui, a contribuição de Althusser se revela fundamental ao demonstrar como a ideologia opera não como discurso explícito, mas como prática material cotidiana reproduzida por Aparelhos Ideológicos de Estado. A escola que ensina a “meritocracia” como dogma, a mídia que transforma patrões em “empreendedores visionários” e trabalhadores em “colaboradores”, a religião que espiritualiza a miséria – todos funcionam como máquinas de produzir consentimento.
Marilena Chauí avança nessa análise ao desvendar o caráter invertido da ideologia: ela transforma relações históricas contingentes em fatos naturais. Quando um trabalhador aceita que “emprego é um favor” ou que “crise exige sacrifícios”, ele internalizou a lógica do opressor, assim, a genialidade do sistema ideológico está em fazer com que os explorados defendam as regras que os exploram, como escravos que elogiam as correntes. A recente reforma trabalhista brasileira (Lei 13.467/2017), que precarizou direitos históricos sob o discurso da “modernização”, só foi possível porque milhões acreditaram na falácia de que flexibilizar proteções geraria empregos – quando na realidade ampliou a rotatividade e reduziu salários.
Nesse teatro macabro, o chamado Centrão parlamentar desempenha o papel de gerente da exploração. Sua suposta “pragmática neutralidade” esconde o mais puro cinismo político: são agentes que transformam o Estado em balcão de negócios, onde direitos sociais são moeda de troca por cargos e emendas parlamentares. A operação é simples: vendem apoio a qualquer governo que garanta seus privilégios, independentemente do projeto em jogo. Enquanto isso:
- Aumento da Conta de Luz (PL 5028/2023)
- Aumento do Número de Parlamentares (PEC 13/2022)
- Aumento do Fundo Partidário (PL 4756/2023)
- Rejeição da Taxação de Grandes Fortunas (PL 2337/2021)
- PL da Devastação 2159/2021
A falsa neutralidade é aqui uma estratégia consciente de manutenção do status quo. Quando deputados do Centrão afirmam “não ter ideologia”, estão, na verdade, defendendo a ideologia dominante – a do capital financeiro que exige austeridade para os pobres e benesses para os bancos. Na política brasileira, essa tibieza calculista tem nome: é o apoio a reformas que retiram direitos dos trabalhadores enquanto se garantem privilégios corporativistas.
O que isso tem a ver com saúde mental? O resultado desse arranjo perverso se materializa na epidemia de sofrimento psíquico que assola a classe trabalhadora. Quando um entregador de aplicativo trabalha 14 horas por dia sob risco constante de acidentes e demissão algorítmica, sua ansiedade não é desequilíbrio químico – é resposta lógica a condições desumanas.
A Ideologia e Exploração: A Fabricação do Consentimento e a Naturalização da Dominação
A exploração do trabalho não se sustenta apenas pela força bruta, mas por um intricado sistema de representações que transforma a dominação em senso comum. Ideologia, longe de ser um mero conjunto de ideias abstratas, opera como um dispositivo material que molda a percepção da realidade, fazendo com que as relações sociais de exploração sejam vividas não como violência, mas como ordem natural das coisas. Nesse sentido, a análise de Louis Althusser sobre os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs) revela como a escola, a mídia, a religião e até mesmo a família, atuam como máquinas de reprodução do status quo, ensinando não apenas habilidades, mas, sobretudo, modos de pensar e de se submeter.
A escola, por exemplo, não se limita a transmitir conhecimento técnico, ela disciplina corpos e mentes, ensinando desde cedo a hierarquia, a obediência aos horários e a aceitação da meritocracia como justificativa para a desigualdade (de acordo com Foucault). Quando um jovem da periferia é levado a acreditar que seu fracasso escolar é resultado exclusivo de seu desinteresse, e não da precariedade material em que vive, a ideologia já cumpriu seu papel: transformou uma contradição social (a falta de acesso à educação de qualidade) em uma falha individual. Da mesma forma, a mídia corporativa, ao narrar greves trabalhistas como “transtornos” e não como lutas por direitos, inverte a lógica da resistência, criminalizando quem ousa desafiar a ordem exploratória.
Marilena Chauí avança nessa crítica ao demonstrar como a ideologia não apenas oculta a realidade, mas a inverte. Ela faz com que os explorados vejam seus próprios interesses como se fossem os interesses dos exploradores, ou seja, o trabalhador que defende cortes de direitos trabalhistas em nome da “competitividade” ou que culpa imigrantes e assistidos sociais pela precarização de seu emprego está agindo contra si mesmo, mas sob a lógica ideológica, essa contradição é apagada. A ideologia, portanto, não é apenas falsa consciência, mas uma consciência falsificada, que transforma a dominação em algo desejável, ou pelo menos inevitável. (comentar sobre os conceitos de Chauí: privilégios e carências)
O exemplo mais perverso dessa operação ideológica é a naturalização da pobreza. Quando a miséria é tratada como um dado da natureza, e não como produto histórico da acumulação capitalista, a responsabilidade pelo sofrimento social é transferida para os próprios pobres, é possível ouvir frases como “são pobres porque não se esforçam” ou “o problema do Brasil é a cultura da dependência” não são apenas preconceitos individuais, mas expressões de um sistema ideológico que justifica a concentração de riqueza e a negligência do Estado. A ideologia, assim, não apenas mascara a exploração, mas a legítima, fazendo com que a ordem social pareça não apenas aceitável, mas justa.
Nesse contexto, a luta de classes não se dá apenas nas fábricas e nos campos, mas no terreno simbólico. Desnaturalizar a exploração exige uma batalha cotidiana contra o discurso hegemônico que nos ensina a aceitar o inaceitável., desse modo, a tomada de consciência de classe não é um momento mágico de iluminação, mas um processo doloroso de desmontagem das mentiras que nos foram incutidas desde o berço. Romper com a ideologia dominante significa perceber que, quando o patrão diz “nós somos uma família”, ele não está oferecendo afeto, mas camuflando exploração; que quando o político prega “paz social”, ele está pedindo submissão; e que quando a mídia fala em “crises inevitáveis”, ela está escondendo as escolhas políticas que beneficiam os donos do capital.
A verdadeira emancipação começa quando os explorados reconhecem que a ideologia não é apenas uma mentira que lhes foi contada, mas uma mentira que lhes foi ensinada a repetir. Desvelar esse mecanismo é o primeiro passo para transformar não apenas as condições materiais de vida, mas a própria maneira como enxergamos o mundo e a nós mesmos.
Centrão e a manutenção do poder e sofrimento
A política brasileira possui um ator fundamental na manutenção da estrutura de exploração: o chamado Centrão. Este bloco parlamentar, composto por partidos sem projeto ideológico definido, especializou-se na arte do fisiologismo, transformando o Estado em moeda de troca para benefícios particulares. Sua suposta “neutralidade” é, na realidade, uma estratégia calculista de sobrevivência no jogo de poder, onde princípios são substituídos por negociatas e o interesse público é sacrificado em prol de vantagens privadas.
O Centrão opera sob uma lógica perversa: não apoia ideologias, apoia orçamentos. Seu modus operandi consiste em vender sua base parlamentar ao governo de plantão em troca de cargos, emendas e benesses. Durante a aprovação da reforma da Previdência, por exemplo, esses parlamentares não debateram o mérito da proposta – que penalizava justamente os mais pobres ao aumentar o tempo de contribuição e reduzir valores de aposentadorias – mas sim quanto receberiam em troca de seus votos. Enquanto milhões de trabalhadores terão que se sacrificar por mais anos de labuta antes de conseguir se aposentar, os políticos do Centrão garantiam suas próprias aposentadorias especiais e verbas milionárias para seus redutos eleitorais.
Essa falsa neutralidade é, na verdade, a mais pura expressão ideológica do capital. Ao alegar que são “apartidários” ou “pragmáticos”, esses agentes políticos mascaram seu verdadeiro alinhamento: o status quo da desigualdade. Quando um deputado do Centrão diz que “não tem lado”, ele está, na prática, dizendo que seu lado é o do poder econômico que dita as regras do jogo, sendo assim, sua neutralidade é seletiva: neutro diante da fome, mas ativo na defesa de bancos; neutro diante da precarização do trabalho, mas ágil na aprovação de leis que beneficiam o agronegócio.
Espiritualmente infrutífero: A Conivência como Pecado Social
A postura do Centrão encontra um paralelo perturbador em uma metáfora bíblica: a condenação aos que ficam “em cima do muro”. No livro do Apocalipse, a advertência é clara: “Conheço as tuas obras, que nem és frio, nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse 3:15-16). Essa passagem, frequentemente espiritualizada, possui um conteúdo político radical: a neutralidade diante da injustiça é cumplicidade.
Na história do cristianismo primitivo, essa mensagem era dirigida aos ricos que, mesmo não perseguindo os cristãos, se beneficiavam do sistema romano que oprimia os pobres. Hoje, aplica-se perfeitamente àqueles que, mesmo não sendo os grandes capitalistas, se beneficiam da estrutura de exploração e se recusam a tomar partido na luta por justiça social. A mensagem é clara: não há virtude na neutralidade quando o chão está em chamas.
Essa espiritualidade do morno – do “não quero me envolver” – é o combustível que mantém a engrenagem da desigualdade, pois, quando religiosos abençoam governos que cortam verba da educação, mas não se levantam contra a injustiça, estão sendo “mornos”. Quando fiéis acham que “política não se discute na igreja”, mas consomem tranquilamente os sermões que naturalizam a pobreza, estão sendo “mornos”. Essa ladainha não é inocente: ela permite que os exploradores ajam sem resistência.
A verdadeira espiritualidade, nesse sentido, seria incompatível com a neutralidade. Se Jesus se colocou do lado dos escravos, dos profetas que denunciavam a corrupção dos reis, expulsou os mercadores do templo, andou com prostitutas, doente e “miseráveis”, então a fé autêntica exige tomar partido, ou seja, ficar em cima do muro não é sabedoria – é covardia moral. E numa sociedade onde a exploração é sistêmica, essa covardia tem endereço certo: o lado dos opressores – quem detém poder e dinheiro.
Quando o Sofrimento Psíquico é Projeto de Dominação
A epidemia de transtornos mentais que assola a classe trabalhadora não é um fenômeno natural, mas o resultado palpável de um sistema que transforma a vida em mercadoria e o humano em recurso descartável. A depressão, a ansiedade generalizada e a síndrome de burnout não são meros desequilíbrios químicos individuais – são sintomas de uma sociedade doente, que adoece as pessoas para manter seu funcionamento (citar a falácea da psicologia baseado em evidências e do fisiologismo).
O capitalismo contemporâneo desenvolveu uma sofisticada maquinaria de produção de sofrimento psíquico. De um lado, a precarização existencial: trabalhadores uberizados vivendo na corda bamba entre a hiperexploração e o desemprego iminente, profissionais assalariados encurralados entre metas impossíveis e o fantasma da demissão, mães solo equilibrando três empregos informais para alimentar os filhos. De outro, a colonização da subjetividade: a exigência de disponibilidade 24/7, a culpa por não ser “produtivo” o suficiente, o imperativo do empreendedorismo de si mesmo como única saída, otimismo social (citar imperativos como: você é capaz! Seja a melhor versão de si! etc.).
Esta não é uma crise de saúde pública – é um projeto político. A medicalização da miséria opera como mecanismo de controle social, convertendo a angústia legítima diante da exploração em “transtornos” a serem tratados com remédios e terapia individual. Enquanto isso, as causas estruturais permanecem intocadas: a) o trabalhador do call center que desenvolve pânico ao som do telefone não está doente – está reagindo normalmente a condições laborais desumanas; b) a mãe com crises de ansiedade não precisa de ansiolíticos – precisa de creche pública, renda digna e jornada de trabalho decente; c) o jovem entregador com ideação suicida não carece de antidepressivos – carece de perspectivas reais em um mundo que o trata como algoritmo descartável.
As próprias empresas descobriram na “saúde mental” um novo nicho de mercado e controle. Oferecem mindfulness para funcionários esgotados (enquanto mantêm metas abusivas), aplicativos de meditação para quem trabalha 60h/semana (mas se negam a reduzir jornadas), palestras motivacionais (enquanto cortam direitos). É o capital se apropriando até mesmo da linguagem do cuidado para aprofundar a exploração.
A verdadeira “terapia coletiva” seria a transformação radical das condições materiais que geram esse sofrimento. Historicamente, cada conquista trabalhista – da jornada de 8 horas ao descanso semanal – representou não apenas melhoria concreta de vida, mas alívio psíquico. O SUS, constantemente ameaçado, é em si um dispositivo de saúde mental: quando um trabalhador sabe que não vai falir por ficar doente, sua ansiedade diminui.
(Vale lembrar do projeto que circula para a redução da escala 6×1)
Romper com a patologização da miséria exige reconhecer que: a) nossa depressão tem endereço – está mapeada nos índices de concentração de renda, nas planilhas de produtividade, nos relatórios de cortes de verbas sociais; b) nossa ansiedade tem cálculo – é proporcional ao grau de precarização de nossas existências; c) nossa cura exige ação coletiva – porque nenhum indivíduo sozinho pode medicar-se contra a exploração sistêmica.
Enquanto o capital continuar a nos adoecer, nossa resistência precisará ser terapêutica e revolucionária ao mesmo tempo. Como ensinava o psiquiatra revolucionário Frantz Fanon: não há saúde mental possível sem libertação social. A verdadeira cura começa quando transformamos o diagnóstico individual em luta coletiva – e compreendemos que nossas dores psíquicas não são falhas pessoais, mas feridas politicamente sustentadas que só cicatrizarão com justiça social.
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Adrian Jhonnson é psicólogo, psicanalista em formação, pesquisador e artista multilinguagem, atuando em produções culturais e teatro. Também se destaca como líder comunitário, com projetos para o publico infanto-juvenil e idoso, defendendo direitos da juventude, LGBTQIAPN+ e povos tradicionais
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