Em julho do ano passado, o Governo Federal comemorava o sucesso da operação de desintrusão da Terra Indígena Karipuna, localizada entre Porto Velho e o município de Nova Mamoré.
Mais de 20 órgãos federais participaram da operação, que incluiu planejamento e execução de 151 ações, destruição de mais de 20 edificações ilegais dentro da Terra Indígena e apreensão de 54 metros cúbicos de madeira.
Entretanto, um ano depois, invasões voltaram a ser documentadas na região. Entre 12 e 19 de julho de 2025, monitores indígenas flagraram madeireiros atuando dentro do território.
O documento, produzido pela própria comunidade Karipuna com apoio técnico da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, apresenta evidências georreferenciadas de três pontos críticos onde há desmatamento ativo, beneficiamento clandestino de madeira e circulação de caminhões para transporte irregular.
Além dos danos ambientais, o relatório denuncia ameaças à integridade física das lideranças indígenas e o clima crescente de medo na aldeia. O caso escancara a fragilidade do controle territorial e a falência das políticas de proteção indígena no país.
Floresta sob ataque
No relatório, a terra é descrita como um organismo vivo, ferido por um ciclo contínuo de devastação: motosserras em atividade, maquinário pesado operando ilegalmente e igarapés contaminados por resíduos.
Entre os pontos destacados está um “templo profano” de beneficiamento ilegal de madeira, instalado em área sagrada para os Karipuna. “É a morte que se instala onde deveria florescer a vida”, diz um trecho do documento.
A comunidade relata também a presença de homens armados, ameaças diretas às lideranças e um tráfego intenso de veículos desconhecidos em trilhas ancestrais.
Direitos violados, Estado ausente
A análise jurídica do relatório baseia-se em marcos constitucionais e tratados internacionais ratificados pelo Brasil. A Constituição de 1988, a Convenção 169 da OIT e a Lei de Crimes Ambientais são citadas para embasar os pedidos urgentes dirigidos à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Polícia Federal, Ministério Público Federal e Ibama.
Entre os requerimentos estão a instauração de inquérito, ações de expulsão imediata, proteção das lideranças ameaçadas e responsabilização penal dos autores e financiadores da invasão.
Colapso anunciado
Segundo o documento, a reincidência das invasões representa não apenas um crime continuado, mas “um escárnio à soberania nacional e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na agenda climática”.
O prognóstico socioambiental alerta para uma possível “extinção cultural em curso” e o risco de colapso ecossistêmico.
A destruição dos corredores ecológicos, o desaparecimento de espécies e a contaminação das águas são apresentados como evidências de um processo de deterioração que pode se tornar irreversível.
“O tempo não é mais aliado — é adversário implacável. Cada amanhecer que encontra os invasores ainda no território representa não apenas crime, mas sentença de morte para ecossistemas milenares e culturas insubstituíveis”, conclui o relatório.
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