A noite de 26 de setembro de 1962 é uma das mais violentas da história política de Rondônia. Embora esquecida pelos registros oficiais, ficou marcada na memória coletiva como a “Caçambada Cutuba”, expressão que se refere ao maior caso de repressão do então Território Federal.

Naquele período, duas forças disputavam espaço político e eleitoral. De um lado, os “cutubas”, ligados às oligarquias, latifundiários e setores do integralismo. Do outro, os chamados “peles-curtas”, que formavam a Frente Popular, liderada pelo Partido Social Progressista (PSP) e integrada por democratas, socialistas, comunistas e seringalistas.

O clima de tensão se agravou quando Renato Medeiros, apoiado pelo movimento secundarista, começou a despontar como liderança da Frente Popular. Na fatídica noite de 26 de setembro de 1962, ano eleitoral, ele reuniu cerca de 5 mil pessoas, entre idosos, mulheres, crianças e trabalhadores, em um comício que aconteceu no bairro Olaria, em Porto Velho.

Após o encerramento do comício, havia um costume adquirido na campanha de fazer uma passeata acompanhando Renato Medeiros até a porta de casa. Naquela noite, Raimundo, filho de Medeiros, teve um pressentimento e pediu que o pai não fosse na frente da manifestação.

Minutos depois, a mobilização terminou em tragédia: um caminhão-basculante da prefeitura avançou sobre a multidão, deixando dois mortos – a lavadeira Luiza Ribeiro da Silva, moradora do Mocambo, e o seringueiro Custódio José de Azevedio – e dezenas de feridos.

O episódio está registrado no livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil – Do Incêndio na Catedral ao Palacete Rio Madeira e outras histórias do Território Federal de Rondônia”, do jornalista e escritor rondoniense radicado em Maricá (RJ), Zola Xavier da Silveira, que resgata memórias silenciadas em nosso estado.

Mais de seis décadas depois, a Caçambada Cutuba permanece como um símbolo das disputas políticas que moldaram Rondônia, revelando o peso da intolerância contra movimentos populares e de esquerda na formação do estado, que hoje é majoritariamente de direita.

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