O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos, em conjunto com entidades, divulgou nesta quinta-feira (2) uma nota pública denunciando a escalada de violência contra crianças na Faixa de Gaza e exigindo medidas urgentes para salvaguardar vidas.
O documento também cobra a libertação imediata da advogada rondoniense Ariadne Telles e de outros ativistas sequestrados em águas internacionais durante a missão humanitária Global Sumud Flotilla.
Segundo a nota, os números de vítimas infantis no conflito expõem uma tragédia sem precedentes. A UNICEF estima que mais de 50 mil crianças foram mortas ou feridas desde o início da guerra. Entre 3 mil e 4 mil crianças sofreram amputações, muitas vezes em condições improvisadas, sem anestesia. Desde outubro de 2023, mais de 200 escolas foram atingidas por ataques, 53 delas totalmente destruídas até março de 2024. Relatórios independentes indicam que pelo menos 14,5 mil crianças morreram em Gaza até abril deste ano.
Além da violência direta, as entidades denunciam um processo de silenciamento e perseguição a organizações de direitos humanos. Instituições como Al-Haq e Al Mezan foram classificadas por Israel como “terroristas”, enquanto Médicos Sem Fronteiras e outras organizações internacionais tiveram atividades restringidas devido ao risco extremo de atuação.
Diante desse cenário, o Centro Maria dos Anjos e os demais signatários exigem:
- a libertação imediata de Ariadne Telles e dos demais ativistas sequestrados;
- a suspensão do bloqueio a Gaza para entrada de ajuda humanitária;
- proteção efetiva a hospitais e escolas;
- e a garantia de livre atuação de organizações de direitos humanos.
As entidades também cobram do governo brasileiro ação firme no plano diplomático e jurídico, incluindo pressão no âmbito da ONU e do Tribunal Penal Internacional.
O manifesto é assinado por organizações como o CEDECA Ermínia Circosta (SP), PSB/RO, MST/RO, Rede Sustentabilidade/RO, Associação Kanindé, Interjus, Instituto Banzeiro da Amazônia e o jornal Rondônia Plural.
“O massacre em Gaza exige mais do que indignação: exige ação concreta, solidariedade organizada e responsabilização daqueles que atentam contra a vida de crianças inocentes”, afirma a nota.
Leia a nota na íntegra abaixo:
Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos e demais entidades
NOTA PÚBLICA EM DEFESA DA VIDA INFANTIL E EXIGÊNCIA DE LIBERTAÇÃO DOS SEQUESTRADOS
O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos, instituição comprometida com a proteção dos direitos das crianças e adolescentes em âmbito nacional e internacional, vem a público manifestar sua profunda indignação e repúdio diante da escalada de violência e do cerceamento de direitos que vêm sendo perpetrados na Faixa de Gaza, e exigir medidas urgentes para salvaguardar a vida, a integridade e a dignidade de crianças, adolescentes e demais civis, bem como a libertação imediata da Ariadne Telles e de todos os sequestrados em águas internacionais em missão humanitária pacífica.
- Situação dramática de crianças e adolescentes em Gaza
A proteção à infância está sendo sistematicamente violada no contexto do conflito. Alguns dados públicos e recentes ilustram essa gravidade:
Segundo comunicado da UNICEF, mais de 50.000 crianças foram supostamente mortas ou feridas na Faixa de Gaza desde o início da guerra.
Estimativas apontam que entre 3.000 e 4.000 crianças sofreram amputações no enclave palestino até novembro de 2024, sendo que Gaza já figura como o lugar com a maior proporção per capita de crianças amputadas no mundo.
Dados históricos igualmente registram casos extremos, como quando um médico local precisou amputar a perna de sua própria sobrinha de 18 anos em uma mesa de casa, sem anestesia, pela impossibilidade de acesso hospitalar adequado.
Em ataques a instalações escolares, desde outubro de 2023 já se contam mais de 200 escolas atingidas, com pelo menos 53 delas destruídas totalmente até março de 2024.
Relatórios do “Efeito da Guerra de Gaza nas crianças” indicam que até meados de abril de 2024 foram estimadas 14.500 crianças mortas em Gaza, com muitos outros feridos, desabrigados ou soterrados nos escombros.
Esses números — mesmo com reconhecida dificuldade de verificação plena em zona de conflito — apontam para um desastre humanitário com envolvimento direto de crianças e adolescentes como vítimas principais.
- Silenciamento e perseguição a Organizações de Direitos Humanos
Não bastasse o ataque à vida, observa-se um cerco institucional contra entidades que documentam violações:
ONGs palestinas como Al-Haq e Al Mezan para Direitos Humanos enfrentam designações por parte de Israel como “organizações terroristas”, numa estratégia de deslegitimação e restrição de atuação.
Também foram sancionadas por países externos (como os EUA) organizações que atuam em defesa dos direitos palestinos por solicitarem investigações ao Tribunal Penal Internacional sobre crimes de guerra.
A organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou suspensão de suas atividades em partes da Cidade de Gaza, citando que “o nível de risco é inaceitável” para seus profissionais, o que equivale a um impedimento prático de assistência humanitária de base.
A “Fundação Humanitária de Gaza” (GHF), que operava centros de ajuda, fechou temporariamente seus locais de distribuição após mortes durante operações de distribuição de alimentos.
Esses episódios sugerem um processo de obstrução sistemática da atuação de atores independentes de fiscalização, que agrava o cenário de impunidade.
- Exigências urgentes e compromissos inadiáveis
À luz desse quadro, o Centro Maria dos Anjos exige:
- Libertação imediata e incondicional de Ariadne Telles e de todos os sequestrados em missão humanitária, com garantia de proteção à integridade física, acesso consular e retorno seguro.
- Suspensão imediata e irrestrita do bloqueio à Faixa de Gaza, permitindo o acesso livre e contínuo de insumos médicos, alimentos, água potável, combustível e outros bens essenciais, conforme obrigações humanitárias internacionais.
- Proteção real e efetiva à infância e adolescência no território, com imposição de cessar-fogo imediato, salvaguarda de zonas civis seguras (hospitais, escolas), e responsabilização por ataques deliberados a menores.
- Garantia de livre atuação de organizações de direitos humanos, nacional e internacionalmente, com revogação de designações infundadas, suspensão de sanções e proteção contra perseguição institucional.
- Que o Brasil, por meio de seus órgãos competentes — Ministério das Relações Exteriores, Representações Internacionais e instâncias judiciais — assuma papel ativo na pressão diplomática, institucional e judicial, inclusive no âmbito da ONU, CPI e organismos de direitos humanos.
- Mobilização nacional e internacional, com apoio da sociedade civil, redes acadêmicas, movimentos de infância e juventude, para denunciar e prevenir novos crimes contra crianças, adolescentes e civis em geral.
- Apelo final e posicionamento de compromisso
O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos reafirma seu compromisso inabalável com a proteção da infância, da dignidade humana e dos direitos internacionais.
A tragédia em Gaza exige mais do que condenações verbais: exige ação concreta, solidariedade organizada e responsabilização daqueles que, em nome de um poder militar ou geopolítico, atentam contra a vida de crianças inocentes.
Conclamamos toda a sociedade brasileira — entidades civis, instituições acadêmicas, parlamentares, conselhos de direito, movimentos sociais — a unir-se a essa causa, pressionando governos, organismos internacionais e organismos jurídicos a agirem agora por justiça, por paz e pela libertação de todos os sequestrados.
Porto Velho (RO), 02 de outubro de 2025.
Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos (Rondônia)
CEDECA Ermínia Circosta (São Paulo)
Cidadania23/RO
PSB/RO
MST/RO
Interjus – Instituto Territórios e Justiça
Jornal Rondônia Plural
Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé
Organização dos Seringueiros de Rondônia
Rede Sustentabilidade/Rondônia
Instituto Banzeiro da Amazônia – IBA
Cedeca Interlagos (SP)
Cedeca SC
Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (ANCED)
Movimento dos Atingidos por Barragens/Rondônia
CEDECA Casa Renascer
CEDECA Bahia
CEDECA Glória de Ivone
Centro de Defesa Pe. Marcos Passerini
CEDECA RJ
CEDECA Limeira
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