Um livro de poesia pode nascer de muitas formas: de um lampejo, de um rigor técnico ou de uma urgência emocional. No caso de Tremendo Pranto: A Alegre Tristeza, de Adrian Jhonnson, o nascimento se deu como um gesto de sobrevivência. Escrito ao longo de mais de uma década, entre os 9 e os 21 anos do autor, o livro não é apenas uma coletânea de poemas, mas um manifesto contra o silêncio e a indiferença, uma tentativa de transformar dor em arte e resistência.
“Tremendo Pranto” surgiu ainda na adolescência do autor, como uma brincadeira irônica, mas ganhou densidade ao longo dos anos, tornando-se o emblema de uma dor intensa e persistente.
O complemento do título, “A alegre tristeza”, nasceu de uma provocação feita pelo autor a amigos: a ideia de que sua alegria era justamente ser triste — não no sentido de resignação, mas de resistência. “É o riso do palhaço que, mesmo com o coração em pedaços, continua no palco”, explica Jhonnson.
Estrutura em sinfonia e tragédia
Dividido em quatro blocos — O Caminho: antes do fim; A Angústia: do começo ao fim; A Paixão: sem fim ou começo; e O Mecenato: depois do começo —, o livro não se organiza linearmente.
A proposta é mais próxima a uma sinfonia em movimentos ou a uma tragédia grega encenada em versos, em que o leitor é levado por uma jornada psíquica e existencial, em vez de por uma narrativa convencional.
Esse caráter dramatúrgico não é casual: Jhonnson é também artista cênico e contador de histórias. “O leitor não lê apenas poemas — vive uma encenação histórica do eu-lírico”, resume. A obra, nesse sentido, convida mais à experiência do que à simples leitura: os versos soam, ecoam, exigem corpo e voz.
Entre o filosófico e o visceral
Outro diferencial é a oscilação de registros linguísticos. Há momentos de erudição filosófica — como no poema DA IRONIA: Uma dívida conflituosa, que evoca Ariano Suassuna para refletir sobre o sentido da vida — e passagens de crítica social direta, como em MERCADO DO AMOR: Cardápio, que transforma as relações afetivas em um menu amargo:
“Regado a repressão e insegurança
Imbuído do molho medo e desespero
Mas nada aqui agrada
Porque todo item é incompleto”
Essa oscilação não é dispersa, mas intencional. Reflete a fragmentação da subjetividade contemporânea, conceito que o autor relaciona a Zygmunt Bauman e sua “modernidade líquida”. Em seus versos, o “eu” se desdobra entre desejo, dor, ironia e resistência, como se cada poema fosse uma tentativa de reorganizar as ruínas da experiência emocional.

O ritmo da rua
Além da palavra escrita, há um forte componente performático e sonoro. Muitos poemas repetem estruturas rítmicas e refrões quase musicais, como em Hoje eu lembrei de você:
“Hoje eu lembrei de você
Lembrei dos seus olhos
E não consigo prever
Se os dias serão luminosos”
Essa cadência aproxima a poesia de gêneros populares como o rap e o funk, revelando a influência da oralidade periférica amazônica. “Minha poesia não nasce apenas na página, mas na voz, no corpo, na rua”, afirma Jhonnson. É nesse hibridismo — entre o acadêmico e o coloquial, o palco e o papel — que a obra se singulariza.
Dor como matéria de criação
Mas talvez o aspecto mais marcante de Tremendo Pranto seja sua ética estética. O sofrimento, presente em quase todos os versos, não é romantizado. Ele aparece como matéria-prima, mas também como antídoto. Em Imunizante Poema, o autor propõe a poesia como vacina contra o desespero:
“Tem-se o imunizante
Se faz em forma de poema
Para todo ser perseverante”
Essa dimensão terapêutica não é coincidência. Psicólogo de formação e estudioso da psicanálise, Jhonnson reconhece em seus poemas registros do inconsciente: “Eu escrevia o que não podia falar. Só anos depois, com a teoria, percebi que muitos versos revelavam recalque, pulsão de morte, desejo interditado. A escrita funcionava como uma associação livre antes mesmo de eu saber o que era isso.”
Uma biografia em versos
Mais que literatura, o livro é também testemunho de uma geração. Crescido em um ambiente religioso rígido, o autor encontrou na poesia uma forma de lidar com a culpa, o desejo e a solidão. “Escrevi para não enlouquecer”, confessa o autor.
Entre paixões não correspondidas, noites de insônia e descobertas dolorosas sobre o corpo e a sexualidade, seus poemas misturam confissão íntima e crítica social.
Não por acaso, a obra dialoga com múltiplos públicos. Jovens da periferia, leitores LGBTQIAPN+, apreciadores de poesia performática e até estudiosos de filosofia podem se reconhecer nos versos.
O alcance é universal justamente porque parte do particular: “O leitor se reconhece não porque viveu a mesma história, mas porque sentiu aquela mesma emoção”, resume.
O coração do livro
Se tivesse de escolher, Jhonnson aponta alguns poemas como centrais: Hoje eu lembrei de você, Nicho peculiar e O Choro do recomeço. Mas um em especial, escrito de uma só vez e jamais revisado, talvez seja o mais representativo: “(des)Conhecer (in)desejado”.
“Ele nasceu de uma madrugada angustiada e continua intocado, como se tivesse sido ditado. É a prova de que, às vezes, a poesia não pede polimento, apenas coragem de ser dita”, destaca o autor.
Poesia como ato político
Em tempos de crise afetiva e isolamento social, Tremendo Pranto se levanta como manifesto. Sua proposta não é suavizar a dor, mas encará-la e transformá-la em linguagem, ritmo e comunidade. “Minhas poesias não salvam o mundo, mas podem salvar alguns do mundo. E isso, por ora, já é suficiente”, diz o autor.
Mais que uma estreia literária, o livro é um gesto existencial: um pranto tremendo que insiste em se alegrar, uma tristeza que se recusa a calar.
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Fotos: Maycon Moura
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