A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) é protagonista de uma das histórias mais fascinantes e controversas da Amazônia. Celebrada como uma das maiores obras de engenharia do início do século XX e lembrada também pelos desafios humanos que a cercaram, a ferrovia volta ao centro do debate com o livro 1912 – Vitória na Selva, de Ricardo Leite.
Fruto de mais de uma década de pesquisa e vivência direta nos espaços da lendária EFMM, a obra propõe um olhar sensível e rigoroso sobre um dos maiores feitos da engenharia e da diplomacia brasileira.
Em entrevista ao Rondônia Plural, o autor revela bastidores da pesquisa, desmonta mitos e reflete sobre o papel da EFMM na construção da identidade amazônica e da soberania nacional.
Rondônia Plural entrevista Ricardo Leite, autor de 1912 – Vitória na Selva

Rondônia Plural – Como foi o processo de criação do livro?
Ricardo Leite: Foi um processo longo e fascinante. Era o ano de 2009 quando cheguei com a família em Porto Velho. Minha filha, Sofia Violeta é portovelhense. Seu álbum de bebê foi feito no pátio ferroviário. A pesquisa movida por paixão começou muito antes da escrita — no chão da própria ferrovia, entre os galpões, no complexo ferroviário e nas muitas viagens até Guajará-Mirim, trajeto que ainda nos mostra monumentos da EFMM, como pontes, trilhos e estações. Assim, o livro nasceu do meu desejo de registrar que a Madeira-Mamoré não foi apenas uma megaobra, mas também um monumento de fé no impossível e na humanidade. Pesquisei a fundo, fontes primárias inclusive. Caminhei pelos mesmos trilhos que um dia cortaram a selva, ouvindo as vozes do passado. O livro foi escrito em estilo jornalístico, como quem embarca num trem: cada capítulo é uma reportagem repleta de novidades, conectando fatos, pessoas e épocas do universo ferroviário brasileiro e mundial. Contei com o suporte da Temática Editora, do meu confrade da Academia, Abel Sidney, que sabe tudo de livros e de como ajudar autores a realizar sonhos. Durante esse período de reflexão, atuei como Procurador Federal junto ao Iphan, sob a coordenação do cineasta Beto Bertagna, nas duras tratativas de compensação e mitigação dos danos causados à Estrada de Ferro Madeira-Mamoré pelas inundações provocadas pelas usinas de Jirau e Santo Antônio. Anos depois, já na ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), voltei a lidar com processos sobre ferrovias e locomotivas históricas. Tive acesso à integra do vasto processo de tombamento pelo Iphan em Brasília. Essas experiências me deram uma visão mais profunda sobre o valor histórico e jurídico da EFMM — e reforçaram a certeza de que escrever sobre ela era também uma forma de preservá-la, me juntando a inúmeros abnegados de ontem e de hoje que dão a vida pela, repito, Espetacular Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, adjetivo que a meu ver, resume sua incrível história. Meu objetivo é publicar uma trilogia. O próximo livro, lanço em breve: Corações de Aço da Amazônia, a incrível história do titã que renasceu em Rondônia.
Rondônia Plural – A EFMM ficou marcada tanto por conquistas tecnológicas quanto por tragédias humanas, como a alta mortalidade devido às doenças tropicais. Como o livro equilibra essas duas dimensões – a glória da engenharia e o sofrimento humano?
Ricardo Leite: Mostrando a verdade documentada, sem exageros nem heroísmo vazio. A ferrovia foi um feito monumental da engenharia e logística americanas, mas também um campo de desafios extremos. Por incrível que pareça, o mito da “ferrovia do diabo” nasceu de uma distorção editorial e de uma luta política empresarial durante sua construção. Revelo no livro que os principais jornais da época do Rio e São Paulo atacaram a obra e o governo federal. Havia imensos interesses econômicos por trás das mentiras sobre o “inferno verde de sangue”. O próprio jornalista Manoel Rodrigues Ferreira, que escreveu apaixonadamente o clássico Ferrovia do Diabo de 1957, explicou em edições posteriores que o título foi imposto pelo editor, apenas para chamar atenção e vender mais — ele não queria essa expressão e se arrependeu. Pena… porque o apelido virou uma caricatura injusta. No meu livro, resgato essa história e mostro que a Madeira-Mamoré foi, na verdade, a ferrovia da coragem. Os índices de mortalidade foram bem menores que os do Canal do Panamá, construído na mesma época — e ninguém no mundo jamais o chamou de “Canal do Diabo”. Aliás, em Porto Velho foi erguido o primeiro hospital exclusivo para trabalhadores do mundo, aprovado por Oswaldo Cruz, que esteve lá, e exaltou em relatórios a medicina mais moderna disponível, com sistemas de drenagem, isolamento e filtros de água. A verdadeira ferrovia do diabo foi outra: a construída pelos japoneses na Tailândia, durante a Segunda Guerra Mundial, onde centenas de milhares de prisioneiros morreram sob tortura. A Madeira-Mamoré foi o oposto disso: uma epopeia de superação, ciência e cooperação entre povos.
Rondônia Plural – A história da Madeira-Mamoré é também uma peça fundamental da consolidação territorial do Brasil na Amazônia. Na sua avaliação, que lições políticas e estratégicas esse episódio ainda pode trazer para os dias de hoje?
Ricardo Leite: O Barão do Rio Branco foi visionário e firme. É obra dele a maior vitória diplomática do Brasil até hoje – o Tratado de Petrópolis. Ele percebeu que a presença humana vale mais do que a posse no papel. Conto em detalhes as tratativas. Está documentado: a Bolívia queria duzentos quilômetros da margem direita do rio Madeira como compensação pelo Acre. Se o Brasil tivesse cedido, diga-se, faltou pouco, teria perdido o território onde hoje estão as usinas de Santo Antônio e Jirau — um patrimônio energético e econômico incalculável. A ferrovia, portanto, foi um instrumento de soberania nacional. E a segunda lição para todos nós é que a integração territorial começa com infraestrutura e se fortalece com pertencimento. A EFMM levou trilhos, mas também levou gente, cultura, esperança e a certeza de que a Amazônia é parte viva e indissolúvel do Brasil.
Rondônia Plural – O senhor apresenta a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré como uma epopeia de cooperação internacional. O que mais o surpreendeu ao pesquisar sobre o papel dos trabalhadores de cinquenta nacionalidades nessa obra?
Ricardo Leite: A imensa diversidade e o espírito de missão da maioria. Foram mais de cinquenta nacionalidades envolvidas —brasileiros, norte-americanos, caribenhos, gregos, italianos, espanhóis, árabes, indianos, japoneses e tantos outros. O empresário Percival Farquhar, o mais brasileiro dos americanos, pois amava o Brasil e morou no Rio, montou uma operação logística que, para a época, equivalia hoje a uma missão espacial à Lua. Disseram a ele que era impossível construir a estrada. “Será meu cartão de visitas!”, aceitou o desafio, e deixou seu maior legado, a moderníssima cidade de Porto Velho, que tinha fábrica de gelo, jornal impresso e o mais potente rádio telégrafo do mundo. Rondon e sua comissão chegaram depois puxando o tênue fio de cobre de postes na selva, e não acreditaram… A EFMM foi uma ONU sobre trilhos. Por isso, justifica-se que bandeiras de muitos países estejam penduradas no museu do galpão 1. Homens de todas as origens trabalhando em plena floresta tropical, enfrentando doenças, enchentes e solidão, mas deixando um legado de coragem. Porto Velho nasceu cosmopolita — e esse DNA continua na cidade até hoje.
Rondônia Plural – Passados mais de cem anos da inauguração da EFMM, como o senhor enxerga a memória desse feito em Rondônia e no Brasil? O país reconhece a importância histórica e cultural dessa ferrovia?
Ricardo Leite: Com esperança. A ferrovia nunca deixou de ser símbolo de resistência. Estive no centenário em 2012. Foi intenso e envolveu toda a sociedade rondoniense. Deu notícia mundial. Mas o que vimos em outubro de 2025, com a restauração da Locomotiva 18, foi algo comovente. Quando ela voltou a se mover, viva, diante de milhares de pessoas saindo da grande oficina, passando pelo girador, e recebendo o abraço do povo, o tempo pareceu parar. Aquele apito foi o som de um século se reencontrando. O livro “1912 – Vitória na Selva” sempre buscou isso: reconectar o passado com o presente, transformar memória em orgulho. E agora isso aconteceu — o coração da EFMM voltou a pulsar, e a cidade voltou a se reconhecer na sua própria história. Parabéns aos inúmeros heróis da restauração, representados pelo visionário e vibrante prefeito Léo Morais e pelo professor e confrade Alecks Palitot. Meu abraço fraterno a todos, e até a próxima viagem!
Rondônia Plural – Quem se interessar em comprar sua obra, como pode adquirir um exemplar?
Ricardo Leite: Na Amazon em e-book, e na livraria Escariz, livro físico, pelo contato (79) 98101-4357. Para falar comigo pelo e-mail ricardoleiterondonia@gmail.com. Nas redes sociais @ricardoleiteescritor
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Fotos: Acervo Pessoal
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