Por Claudio Sandos

Conheci e morei na Venezuela entre 2006 e 2007, um período de descobertas e contradições. Era um país em transformação, buscando desenvolver setores como educação e agricultura, mas ainda enfrentando a ausência de tecnologias básicas — como a simples matraca manual usada para o plantio de grãos, ferramenta já considerada ultrapassada no Brasil, mas que não estava disponível para muitos camponeses venezuelanos.

Mesmo assim, a Venezuela é um país de beleza e diversidade singulares: culturalmente vibrante, musicalmente rico, de paisagens que vão do calor costeiro às montanhas frias, e de um povo acolhedor e resistente. Mas, para compreender por que esse “paraíso” segue sendo alvo de ataques e sanções dos Estados Unidos, é preciso olhar para o que realmente move o interesse norte-americano — o petróleo.

Durante décadas, o ouro negro venezuelano foi explorado por empresas estrangeiras, sobretudo norte-americanas, que deixavam uma fatia para a elite local enquanto a maioria da população permanecia sem acesso a saúde, educação e tecnologia. Essa lógica começou a mudar em 1998, com a eleição de Hugo Chávez. Ao nacionalizar parte da exploração do petróleo e investir os recursos em políticas sociais, o governo venezuelano contrariou os interesses da elite global.

Chávez apostou na educação, na reforma agrária e na soberania alimentar. Criou cooperativas, programas de alfabetização, habitação popular e acesso massivo às universidades. Também firmou parcerias estratégicas com países como China, Rússia, Cuba e nações árabes, garantindo médicos em cada canto da Venezuela e fortalecendo o sistema público.

Acompanhei de perto esse processo. Vi um país tentando se reinventar e um povo acreditando que poderia construir um futuro mais justo. Por isso, é equivocado afirmar que a Venezuela “entrou em crise” por causa de seu modelo político. As crises que o país enfrenta são alimentadas de fora — pelos bloqueios econômicos, sanções e ataques ideológicos impostos pelos que desejam se apropriar de suas riquezas naturais.

Críticas são legítimas a qualquer nação, mas no caso venezuelano é impossível ignorar o cerco internacional que sufoca seu desenvolvimento. Nós, latino-americanos, precisamos entender que o ataque à Venezuela é também um ataque à soberania de toda a América do Sul.

Os países que hoje apontam o dedo talvez não resistissem uma semana sob o bloqueio que a Venezuela enfrenta há mais de 15 anos — e que Cuba enfrenta há mais de 40. Ainda assim, ambos seguem de pé.

Pelo fim do bloqueio norte-americano. Pelo direito de um povo decidir seu próprio destino. Yo soy Venezuela.

*****

SOBRE CLAUDIO SANDOS – Formado em Pedagogia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e especializado em Agroecologia e Educação do Campo (UFP), Claudio Sandos é dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e militante da luta camponesa.

*****

O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Rondônia Plural

*****

Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Instagram

Facebook

X

Deixe um comentário

PLURALIDADES

Assine a nossa newsletter! Todo sábado você receberá no seu e-mail as principais notícias da semana