Por Calil Machado

Os Yanomami não contam os anos para definir os estágios de desenvolvimento humano. A ideia de dividi-lo em infância (até 12 anos), adolescência (dos 12 até 18 anos), e juventude (dos 18 até os 24), consolidada em nossa cultura, não encontra paralelo no contexto Yanomami. Para eles, os marcadores de desenvolvimento envolvem a percepção do desempenho na caça, pesca, cuidado com o próximo; no cumprimento (ou não) das expectativas do grupo, e na transformação dos corpos.

O amadurecimento Yanomami está profundamente ligado com a natureza. Ela não é apenas um cenário, mas uma professora, onde toda existência é dotada de intenção, que pode proteger ou ameaçar, ensinar ou punir. Com a natureza, e guiados pelos mais velhos, as crianças e jovens devem aprender a ler o rastro dos animais, a respeitar os ciclos naturais, a manejar os recursos da mata, e a interpretar os sinais dos espíritos. Nos Yanomami, amadurecer não é apenas crescer — é aprender a conviver com a floresta e a viver nela.

Contudo, mesmo a floresta sendo capaz de manter toda a vida nela presente, e de inspirar respeito e temor pelos poderes nela contidos, ela continua vulnerável à ação humana predatória. Os avanços recentes do garimpo sobre a Terra Indígena Yanomami (TIY) resultou na destruição das matas e na contaminação dos rios. 

Com isso, onde antes havia alimento para caçar, pescar, coletar e cultivar, passou a ter escassez e desnutrição. O garimpo também levou doenças como a Covid-19, infecções parasitárias e contaminação por mercúrio devido a poluição das águas. Houve uma explosão nos casos de malária e aumento da violência. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo. O resultado foi uma calamidade sem precedentes, tanto que em 2023, o governo federal decretou Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN). 

Nesse contexto é que foi desenvolvida a maior a maior parte dos estudos que fundamentam o relatório Infância e Juventude Yanomami, uma iniciativa da UNICEF Brasil — o Fundo das Nações Unidas para a Infância. Lançado no dia 15 de outubro, o relatório fornece informações para construção de políticas públicas mais inclusivas no atendimento aos indígenas do TY. Isso não quer dizer que nunca houveram políticas nesse sentido, mas que as futuras precisam ser diferentes.

O avanço do garimpo, e o esfacelamento da sociedade Yanomami

Além da calamidade no território, os Yanomami tiveram de enfrentar novos desafios ao lidar com uma cultura muito diferente da sua. Na coletiva de imprensa para o lançamento do relatório, Gregory Bulit, membro do comitê editorial comentou:

“A diversidade cultural é um desafio. Como a criança vai chegar ao hospital? Os pais vão querer ficar? O hospital não entende. Tem todo esse assunto da interpretação e da tradução, não apenas nos serviços de saúde, mas também na assistência social e educação.”

Os desafios são variados, que vão desde barreiras linguísticas e ausência de intérpretes até a incompreensão das suas concepções de saúde e adoecimento. O ambiente hospitalar é percebido como hostil: mães são separadas de seus filhos, enfrentam procedimentos desconhecidos e sofrem com alimentação e falta de acolhimento.

Apesar de tradicionalmente recorrerem ao xamã e aos saberes da floresta para tratar doenças, o período entre 2019 e 2023 foi marcado por uma crise sanitária profunda, que forçou muitas famílias indígenas a buscarem atendimento hospitalar urbano.

“Na época da declaração da emergência teve mais de 700 a 800 pessoas, claramente era um desafio para atender todas as crianças, por exemplo, com desnutrição […] com essa população que era cinco a seis vezes maior do que previsto.”, continua Gregory, se referindo ao colapso da Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI). “Pacientes que não recebem atendimento imediato, com quadros clínicos agravados, são removidos para a cidade, raramente buscando assistência por conta própria.”, completa.

O Antropólogo Marcelo Moura viveu em comunidades Yanomami, e atuou durante a crise sanitária de 2023. Marcelo foi um dos consultores contratados pela Unicef para a realização do relatório. Na coletiva, Marcelo descreveu o ciclo de adoecimentos e desnutrição na região causados pela invasão garimpeira:

“Como diz um amigo Yanomami, onde tem garimpo, tem malária, e isso leva as famílias a ter uma maior dificuldade em fazer as roças, porque as pessoas adoecidas não têm capacidade de sair pra trabalhar. Isso levou a um agravamento do ciclo de fome e desnutrição que, por outro lado, também se agravou com maior destruição da floresta, além do barulho dos maquinários ter espantado as caças”.

A caça fugia, a malária impedia o trabalho na roça, e a fome aumentava. Neste cenário desolador, as crianças foram as mais impactadas.

“570 crianças morreram por causas evitáveis entre 2019 e 2022. Então, algo importante que esse estudo revela é que também as crianças, em especial aquelas com idade de 0 a 5 anos, são sempre as mais impactadas nesses momentos de grande crise sanitária e desestruturação do serviço de saúde, como foi no período que teve a última grande invasão garimpeira, até o final de 2022 e início de 2023. As doenças que mais acometem as crianças é malária, desnutrição, as doenças respiratórias e verminose.”, completa Ana Maria Machado, antropóloga com quase duas décadas de atuação em campo que, ao lado de Maurício, participou da elaboração do Infância e Juventude Yanomami.

Por outro lado, a combinação de vulnerabilidade social, necessidade material, fechamento de escolas e curiosidade contribuiu para a cooptação de jovens Yanomami para a extração de ouro e exploração sexual. Entre 2021 e 2023, muitos deixaram de estudar após o fechamento de instituições diretamente impactadas pela invasão. Com o espaço escolar sendo substituídos pelos garimpos, os jovens passaram a ser atraídos para atividades ilegais.

“Nas regiões mais isoladas da Terra Indígena Yanomami, as mais impactadas pelo garimpo, há um grande distanciamento do mundo não indígena e uma grande curiosidade em acessar coisas como a língua portuguesa e objetos, além da necessidade de obter itens industrializados essenciais para a vida Yanomami, como ferramentas de trabalho e armas de fogo para caça. Há, portanto, um interesse em se aproximar, motivado pela curiosidade e pelo acesso a esses bens.”, explica Marcelo, que também aponta um viés de gênero:

“Observamos um número maior de homens jovens envolvidos no garimpo […] Os garimpeiros recrutam homens para o trabalho pesado, enquanto as mulheres são, em sua maioria, vítimas de exploração sexual.”.

Esse processo de aliciamento — com os homens jovens recrutados como mão de obra e as mulheres frequentemente vítimas de exploração sexual — desestrutura o papel tradicional da juventude, que deveria estar envolvida na produção comunitária, na formação de alianças e na continuidade dos saberes ancestrais. Em vez disso, muitos jovens passam longos períodos fora das aldeias e retornam com valores e hábitos diferentes, criando um ambiente de tensão ao desafiar a autoridade das lideranças tradicionais, o que fragiliza a coesão do grupo.

Durante a coletiva de imprensa, Marcelo Moura destacou:

“A gente ouviu muitos relatos de como as drogas, a bebida e a entrega de armamentos aos jovens geraram efeitos muito importantes sobre a organização sociopolítica das comunidades. As lideranças mais velhas passaram a ser confrontadas por essa juventude estimulada e armada pelos garimpeiros, justamente para exercer pressão em prol das atividades do garimpo.”

Isso representa o esfacelamento da sociedade Yanomami de dentro para fora, provocado pela desintegração da natureza ao redor. “Como Marcelo diz, é um tecido [social] muito delicado, muito frágil (…) é uma questão complexa que varia também regionalmente”, completa Ana Maria Machado.

Só políticas públicas não basta

Existe a percepção de que só a criação de políticas públicas não resolverá o problema. Durante a coletiva, houve menções à gestão federal entre 2019 e 2022, do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi um período crítico para os povos indígenas, especialmente os Yanomami, quando houve um desmonte da Funai, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas. 

Na época ela foi presidida por Marcelo Xavier, que na semana passada foi condenado a dez anos de prisão por denúncia caluniosa na gestão da fundação. O juiz afirmou que Marcelo fez acusações sem provas para intimidar e pressionar servidores a aprovarem o licenciamento ambiental da Linha de Transmissão de energia do Tucuruí, entre Manaus (AM) e Boa Vista (RR). A defesa afirmou que vai recorrer da decisão.

Além do desmonte, o apoio do governo Bolsonaro a entrada de garimpo colaborou para a expansão do narco-garimpo na Amazônia. Segundo o antropólogo Maurício Moura, “houve uma combinação forte, que foi um governo permissivo mais a expansão do PCC para o norte. Isso na Terra Yanomami foi avassalador em algumas regiões. Mas hoje” continua o antropólogo, “hoje, com a desintrusão de mais de 70% dos garimpeiros, os jovens não estão mais expostos ou ligados ao narco-garimpo como estavam até mais ou menos 2022, 2023.”.

Em janeiro de 2024, o governo federal lançou um plano integrado na Terra Indígena Yanomami para retirar os invasores, enfrentar a crise humanitária, e promover a recuperação do modo de vida ancestral no território. O tom geral na coletiva foi de cautela, mas os especialistas destacaram sinais positivos de recuperação como a redução nos casos de malária, o retorno da caça e da pesca e a reativação das escolas. 

Embora o processo de recuperação esteja em curso, ela depende da continuidade das ações institucionais, da preservação da floresta, e do protagonismo indígena. Como salientou Ana Maria Machado, “A recuperação não é só física, é também simbólica. As comunidades precisam voltar a confiar no Estado, e isso só acontece com presença constante, escuta ativa e respeito aos saberes locais.”.

Além disso, há um esforço institucional para escutar as crianças e os jovens, reconhecendo que suas vozes são fundamentais para pensar o futuro das políticas públicas, pois a juventude não é apenas beneficiária da recuperação — ela é protagonista da reconstrução e proteção das comunidades.

“A formação de jovens Yanomami em audiovisual e uso de drones é uma estratégia potente. Eles estão se tornando agentes de vigilância territorial e de denúncia, o que fortalece a autonomia das comunidades.”, explica Ana Maria Machado. 

“Uma das grandes diferenças que precisamos estabelecer nas futuras políticas públicas é a escuta das crianças e dos jovens. Eles não podem ser apenas beneficiários, mas protagonistas. Precisamos ouvi-los para construir políticas que façam sentido para suas vidas e territórios.”, completa Gregory.

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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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