Um debate começa a ganhar força nos bastidores dos movimentos sociais de Rondônia: a possibilidade de A Via Campesina lançar candidaturas próprias nas eleições de 2026. A proposta, que reúne organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e Instituto Padre Ezequiel Ramin (IPER), busca representar trabalhadores rurais e urbanos que não se veem refletidos nas atuais lideranças políticas do estado.

Um dos nomes mais cotados para encabeçar esse projeto é o advogado popular Claudinei Lúcio Soares dos Santos, o Tijolão, militante histórico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) com mais de três décadas de atuação no estado. Em entrevista ao Rondônia Plural, ele fala sobre o desafio de transformar a experiência das lutas sociais em uma nova força política para Rondônia.

Rondônia Plural: A Via Campesina discute a possibilidade de lançar candidaturas próprias em 2026. O que motivou esse debate?

Tijolão: Primeiramente, é importante fazermos uma contextualização da quadra política histórica que estamos vivendo. Rondônia sem sombra de dúvida se transformou em uma espécie de laboratório das ideias “bolsonaristas”, principalmente no que se refere as formas organizativas e sociais de se relacionar com a terra e a biodiversidade. Aqui, temos a expressão mais fina e atrasada da hegemonia do agronegócio, que não tolera o avanço da reforma agraria, da pauta indígena, da preservação ambiental e da presença do campesinato. Essas são as únicas estruturas e dinâmicas de sociabilidade capaz de produz alimentos saldáveis rumo a uma transição agroecológica. Nesse sentido, as disputas eleitorais têm um papel relevante mais não o principal nessa conjuntura. Porque por meio dessas podemos eleger pessoas comprometidas com as nossas pautas históricas. Segundo, porque temos o dever moral e ideológico de conter o avança na extrema direita no senado. E segundo porque precisamos garantir a reeleição do presidente Lula. Mas há de fato uma percepção nossa militância de que os trabalhadores e trabalhadoras tanto do campo quanto da cidade, não estão sendo representados e representadas nos espações de defesa, produção e promoção das políticas públicas. A política institucional em Rondônia tem sido dominada por interesses econômicos que pouco dialogam com quem produz alimento, com quem vive do trabalho ou defende o meio ambiente, ou por interesses eminentemente personalismo. A lógica eleitoral partidária que rege as disputas eleitorais, mesmo nos partidos de esquerda, é a lógica da individualização e não cooperação.  Isso significa que a lógica partidária não concorre para a acumulação de forças e compromissos coletivos em tornos de pautas comuns, mas sim para o individualismo e para o estrelismo imbecil.  Nesse sentido a Via Campesina entende que sim que podemos discutir a construção de uma alternativa política comprometida com pautas previamente acordadas de interesse do campo e da cidade, como já fizemos em eleições passadas. 

Rondônia Plural: O senhor é citado como um dos nomes mais fortes para representar essa iniciativa. Está disposto a entrar na disputa eleitoral?

Tijolão: Eu sempre fiz política, se empregarmos a essa a devida relevância e conteúdo político. A descrença do nosso povo na macro política, é porque essa foi reduzida a menor fração, e se resume a ideia de que que disputa eleição é fazer política. Grosso modo, fazer política, é lutar e fazer a defesa de interesses de determinados grupos. Então, os meus quase trinta anos em defesa da reforma agraria, é fazer política com P maiúsculo. O que temos discutido é qual o papel dessas eleições para os movimentos sociais, e o que essa pode acumular para as nossas pautas. Nesse sentido, temos um conjunto de militantes dos quais eu me insiro, que estão a disposição e fazendo o debate, mas qualquer decisão, assim como foi até agora, será coletiva. Porque diferentemente da logica partidária individualista que mencionei a pouco, a lógica dos movimentos sociais é de coletividade. A Via Campesina tem uma prática democrática: nada é decidido individualmente ou com base no personalismo. Nosso foco agora é fortalecer as lutas e preparar nossa participação na COP 30, onde levaremos um ônibus com militantes para discutir o futuro da Amazônia. Mas é claro que, se houver consenso de que minha candidatura possa contribuir, eu estarei pronto para essa tarefa assim como sempre estive para todas as que me deram, mesmo essa sendo a mais difícil e inglória. 

Rondônia Plural: Como o senhor enxerga o papel dos movimentos sociais dentro da política institucional?

Tijolão: Nós não queremos substituir a política, queremos ressignificá-la. Quando um trabalhador do campo ocupa um espaço de decisão, ele leva consigo a experiência concreta da vida real. Isso muda o debate. É diferente de quem só enxerga a Natureza como território de exploração. Nosso papel é dar voz a quem é silenciado e silenciada, sem abandonar nossos princípios e formas de lutas que visam a alteração da forma capitalista de sociabilidade humana. Eleitoralmente falando, vejo que só teria sentido nos metermos nisso se alterarmos a nossa relação com as demais candidaturas, isso significa alterar a qualidade da nossa participação. Nossas participações nas eleições passadas, sempre foram de, mobiliza os votos, elegemos alguém de fora do campo da Via Campesina e depois nossos pleitos são encarados como favor. Para entrarmos nessas eleições com gente nossa disputante, devemos colocar todas as candidaturas na roda e pergunta! Qual vai ser nossa fatia no mandato? Não estou dizendo de assessoria, estou dizendo de estrutura e emenda para potencializar a construção de um centro de formação por exemplo para fortalecer nossa organicidade interna, a Festa Camponesa entre outras demandas que temos.  

Rondônia Plural: O senhor tem uma trajetória de diálogo com diferentes forças políticas. Isso se refletiria em uma eventual candidatura?

Tijolão: Tenho bom trânsito em diversos setores. Não fiquei flexível mais o bolsonarismo nos mostrou que para transformar a realidade, é preciso conversar até com quem pensa diferente da gente. Coisa inimaginável do jovem Tijolão dos anos 90. Tenho dique que qualquer pessoa não queria me pesar por arroba, que não seja intolerante seja nas pautas das diversidades ou religiosa, que não defensa o agronegócio como modelo absolto para a agricultura e que defensa a vida, com essa pessoa não tenho nenhuma dificuldade de me relacionar. Tenho boas relações com partidos, sindicatos, instituições de ensino superior, movimentos e urbanos. A sua pergunta aplicada a ciência política me dá uma hipótese que precisa ser confrontada com a realidade. Ou seja, esse Tijolão talhado no movimento social, tem viabilidade eleitoral? E se tem, acumula para alterar a qualidade da participação da Via? A meu ver superado e consensuado internamente nossa análise de contexto e tendo essas perguntas respondida, nos ajudara a decidir em momento oportuno como deverá ser nosso comportamento. Uma coisa que aprendi nas relações públicas que faço por tarefa do MST, não se faz política de trincheira ou com os nossos dogmas, se faz política com pontes e se permitindo a conhecer as perspectivas de mundo do outro, que estão ali do nosso lado, e que muitas vezes tratamos como nosso inimigo. Inimigo no caso do MST é o agronegócio e tudo que dele deriva. Rondônia precisa de pontes, e não de muros.

Rondônia Plural: O que o senhor considera prioridade para Rondônia hoje?

Tijolão: Precisamos recolocar a reforma agraria, agricultura camponesa e familiar, a preservação ambiental e a defesa dos territórios tradicionais no centro do debate. Não é possível falar de desenvolvimento destruindo rios, envenenando solos e expulsando comunidades. Não é possível interromper a lógica predatória do agronegócio, que já nos encostou no ponto de não retorno e que a ameaço a nossa espécie, se não enxergarmos essas formas de sociabilidade como as únicas capaz de nos tirar do buraco em que estamos. A nossa Festa Camponesa mostra isso. Rondônia é o segundo estado da federação que mais mata ou coloca em risco lutadores e lutadoras de Direitos Humanos, e por ser um militante com atuação na área, coloco também a importância de pautarmos a construção do programa estadual de proteção de defensoras e defensoras de Direitos Humanos. Rondônia pode ser referência em produção sustentável e soberania alimentar, mas para isso é preciso ter coragem política e compromisso com quem vive aqui.

Rondônia Plural: Que mensagem o senhor deixaria para quem acompanha esse movimento?

Tijolão: Que sigamos firmes, com os pés na terra e o olhar no futuro. O que estamos discutindo não é apenas uma candidatura, é a possibilidade de reconstruir a esperança. Queremos construir uma candidatura que fale a língua do povo, que seja coletiva, popular e comprometida com a vida. Esse é o verdadeiro sentido da política.

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Foto: Acervo Pessoal

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