A cena é conhecida: discurso inflamado sobre Deus, pátria e família; palanque moralista; dedo em riste acusando inimigos imaginários de destruir o país. Nos bastidores, porém, a família que importa é outra — a que cabe inteira na folha de pagamento do gabinete.

A revelação de que o deputado federal Coronel Chrisóstomo (PL) destinou mais de R$ 2,1 milhões em salários a parentes diretos — companheira, cunhada, concunhada e até o namorado da cunhada — não é apenas um escândalo de nepotismo. É um retrato sem filtros da política que se vende como defensora dos “valores”, mas administra o Estado como extensão da sala de jantar.

Dos R$ 2,1 milhões pagos, R$ 1,2 milhão foi parar na conta da companheira do parlamentar, com salário que chegou a R$ 18,7 mil. Cunhadas e concunhado surfaram na mesma onda, com aumentos que chegaram a 574%, segundo a apuração da coluna.

Ao ser questionada, a resposta da assessora — também companheira do deputado — não poderia ser mais simbólica: “Eu tenho o emprego que eu quiser”. E ela teve, todos tiveram — até a reportagem ser publicada.

A justificativa do gabinete, alegando que os familiares “eram capacitados” e que tudo não passa de “retaliação política”, é a cortina de fumaça que já virou script no teatro das desculpas oficiais. Mas a lei, assim como a ética, não exige parentesco técnico nem currículo de DNA: nepotismo não é sobre competência, é sobre abuso de poder.

E aqui reside a ironia mais ruidosa do caso: o mesmo deputado que carrega as bandeiras da moralidade, da família tradicional e da defesa dos “bons costumes” foi incapaz de separar a própria parentela dos cofres públicos. A família, nesse caso, não foi o alicerce da sociedade, mas um contracheque coletivo patrocinado pelo Congresso Nacional.

Rondônia, um estado marcado por desigualdades profundas, onde milhares de famílias lutam diariamente pelo mínimo de dignidade, não merece ter sua representação reduzida a uma dinastia particular com crachá da Câmara. Cada centavo destinado a um parente bem acomodado em gabinete é um centavo arrancado de quem não tem padrinho, sobrenome ou acesso ao poder.

O caso de Chrisóstomo não é ponto fora da curva. Ele é sintoma de um modelo que mistura fé e farda à conveniência patrimonialista, onde a retórica de combate à corrupção serve como blindagem estética, e não como compromisso real.

Não se combate a corrupção distribuindo versículos e bravatas, mas enfrentando a cultura política que trata o público como quintal privado. Não se honra a família empregando-a às custas do Estado. E não se exalta a pátria quando se drena dela o que deveria servir ao povo, não aos parentes.

Rondônia merece representantes que honrem suas palavras com atos. O país merece ver o fim do cinismo que se veste de moralidade para melhor disfarçar seus privilégios.

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