Um estudo recente publicado na Revista Mutirõ – Folhetim de Geografias Agrárias do Sul, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acende o alerta sobre uma nova e perversa forma de violência no campo de Rondônia. Intitulado “Pistolagem Aérea: o novo método de eliminação e expulsão dos povos do campo, das águas e das florestas”, o artigo denuncia que o agronegócio tem utilizado a pulverização aérea de agrotóxicos como instrumento de expulsão de comunidades camponesas, indígenas e ribeirinhas de seus territórios.
Assinado por Alex Sandro Possamai da Silva, Claudinei Lúcio Soares dos Santos (Tijolão do MST), Érica Anne dos Santos Oliveira e Renata da Silva Nóbrega, o estudo aponta que a chamada “pistolagem aérea” representa uma atualização das formas históricas de violência no campo, substituindo o pistoleiro armado pelo avião que despeja veneno. De acordo com os autores, trata-se de uma guerra química silenciosa que ameaça ecossistemas e modos de vida tradicionais.
A pesquisa, apoiada em dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), revela que, apenas em 2024, os conflitos relacionados ao uso de agrotóxicos cresceram 763% em relação ao ano anterior, somando 276 ocorrências e atingindo mais de 17 mil famílias. Em 92% dos casos, os responsáveis identificados são fazendeiros, seguidos por empresários e grileiros.
Entre os episódios relatados estão a contaminação do Assentamento Chico Mendes III, em Ji-Paraná (RO), onde a pulverização aérea feita por uma fazenda vizinha provocou adoecimento e destruição de plantações, e o caso do Povo Indígena Puruborá, em Seringueiras (RO), que sofre com o envenenamento da água e do solo devido às lavouras de soja instaladas ao redor de seu território ainda não demarcado.
O artigo lembra que o Brasil é, desde 2008, o maior consumidor mundial de agrotóxicos — muitos deles proibidos na União Europeia — e que o avanço do agronegócio tem intensificado os impactos ambientais e sociais da pulverização aérea.
“O perigo agora vem do alto”, alertam os autores, que definem o fenômeno como uma reconfiguração da pistolagem no campo: “a substituição da bala pelo veneno e da carabina pelo drone ou avião”.
Além de denunciar as violações, o estudo também questiona a omissão do Estado diante da escalada de contaminações e mortes, e defende políticas de proteção aos povos do campo e da floresta.
“A pistolagem aérea é uma forma moderna e sofisticada de expulsão, que mantém o mesmo objetivo histórico: eliminar os que resistem ao avanço do latifúndio e do agronegócio”, concluem os pesquisadores.
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