Em 9 de agosto de 1995, uma operação policial na Fazenda Santa Elina, em Corumbiara, sul de Rondônia, transformou-se em um dos episódios mais sangrentos e violentos da história agrária brasileira. Trinta anos depois, o “Massacre de Corumbiara” segue como uma ferida aberta e um ponto de interrogação para o estado.
Para evitar que a memória se apague e reacender um debate considerado urgente, a Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e o Instituto Federal de Rondônia (IFRO) promovem o evento “A Atualidade da Questão Agrária na Passagem dos 30 Anos da Resistência Camponesa de Corumbiara”, que acontece no auditório da UNIR Centro, em Porto Velho, nos dias 20 e 21 de novembro.
“O episódio ganhou repercussão mundial em razão dos assassinatos e das atrocidades praticadas por policiais e pistoleiros contra camponeses”, analisa o professor Ricardo Gilson, coordenador do grupo de pesquisa Gestão do Território e Geografia Agrária da Amazônia (GTGA/UNIR).
“Os latifundiários, mandantes da brutal selvageria, buscavam frear a luta pela terra no estado. No entanto, tal intento mostrou-se em vão. Desde então, inúmeras ocupações de terras e sucessivos enfrentamentos transformaram o campo rondoniense em um espaço marcado por conflitos agrários”, acrescenta Gilson.
“Os agricultores foram cercados pela madrugada por pistoleiros vestidos de farda e policiais. Resistiram com o que podiam: espingardas, foices, facões, estilingues e agiram em legítima defesa buscando proteger suas famílias”, ressalta professor Márcio Martins, do Núcleo de Estudos Históricos e Literários (NEHLI/IFRO) e do grupo de pesquisa História, Sociedade e Educação no Brasil (HISTEDBR/UNIR), um dos organizadores do evento.
O comando da PM na época alegou que os camponeses usaram “táticas de guerrilha”. Os pesquisadores, porém, denunciam as atrocidades que foram omitidas. “Na atualidade, se apregoa o mesmo discurso para atacar famílias de posseiros em várias localidades de Rondônia, sejam organizadas por movimentos ou não. O que mudou de lá pra cá?”, questiona o professor Márcio.
A impunidade, segundo os organizadores, é parte fundamental dessa história. A professora Marilsa Miranda de Souza, do HISTEDBR/UNIR, lembra que o julgamento anos depois “inocentou os mandantes e o comando da PM”. Essa conclusão jurídica contrasta com a versão construída por pesquisas e relatos de sobreviventes, que será revisitada durante o evento.
Programação e Lançamentos
A programação começa no dia 20 de novembro com uma homenagem aos mártires de Corumbiara, seguida por duas mesas de debate que abordarão os 30 anos do massacre e a criminalização da luta pela terra no estado. No dia 21, haverá um cine-debate com filmes sobre o caso e uma mesa sobre o avanço do agronegócio e a questão agrária.

Dois livros serão lançados: “Rondônia: Questão Agrária e Memória da Resistência Camponesa de Corumbiara”, uma coletânea com 15 capítulos, e “Nossa Primavera Começa em Agosto”, de Maria Estélia de Araújo.
As inscrições para o evento, que ocorrerá no auditório da UNIR Centro, podem ser feitas até 19 de novembro pelo link: https://abrir.link/WCDSH.
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