A cultura ganhou espaço central na agenda climática brasileira — e tem se mostrado capaz de traduzir, sensibilizar e mobilizar onde discursos técnicos frequentemente falham. É o que aponta o estudo lançado na COP30 “Cultura e Clima: Percepções e Práticas no Brasil”, realizado pelo C de Cultura e pela Outra Onda Conteúdo, com parceria técnica da PUC-RS. Segundo o levantamento, 83,5% dos brasileiros afirmam que atividades e bens culturais os ajudam a entender melhor as mudanças climáticas.
A pesquisa ouviu 2.074 pessoas em todas as regiões do país e revela uma crescente consciência ambiental: 82% dizem estar preocupados com as mudanças do clima, e 80% enxergam o fenômeno como um grande risco para a sociedade.
Apesar disso, a percepção de ameaça é mais intensa no coletivo do que no individual — 66% veem riscos para a comunidade, enquanto apenas 59% sentem o impacto diretamente sobre si.
Cultura como tradutora da crise climática
Mais da metade dos brasileiros (54,6%) já busca informações sobre o clima em fontes culturais, como livros, filmes, museus e exposições. E 62,6% afirmam que alguma obra cultural já os inspirou a mudar hábitos ligados à sustentabilidade.
“A cultura é uma ponte entre o saber científico e o popular. Ela emociona, traduz e mobiliza”, afirma Mariana Resegue, diretora executiva do C de Cultura. Para Eduardo Carvalho, diretor-fundador da Outra Onda Conteúdo, os resultados servem de guia para políticas públicas e estratégias de comunicação que desejam aproximar a pauta ambiental da vida cotidiana.
O estudo também evidencia a valorização dos saberes de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais: 77,5% dos entrevistados reconhecem sua importância tanto para a adaptação climática quanto para a conservação ambiental.
Obstáculos: comunicação elitizada e polarização
Mesmo com o protagonismo crescente, a cultura ainda enfrenta barreiras para mobilizar a sociedade. A pesquisa aponta que a linguagem usada para falar de clima é percebida como elitizada, e a polarização política gera desconfiança. Parcela significativa do público deseja uma comunicação mais neutra, acessível e baseada em informações confiáveis.
Outro ponto crítico é a sensação de impotência: 52,4% dos brasileiros se dizem paralisados diante da crise climática, e 25,6% não sabem quais ações podem adotar para contribuir. Para os autores, isso reforça a importância da cultura como ferramenta prática de engajamento, capaz de transformar preocupação em ação coletiva.
Pauta climática avança no comportamento político
O clima também começa a influenciar o voto. Quase 90% dos entrevistados consideram importante eleger políticos comprometidos com sustentabilidade e justiça social, e 43,1% levaram em conta propostas climáticas nas últimas eleições.
Entre as mulheres, esse engajamento é ainda maior: 94,2% consideram o tema essencial, contra 84,4% dos homens.
A pesquisa revela ainda desigualdades profundas na percepção dos impactos climáticos: 53,8% acreditam que populações de baixa renda são as mais afetadas, seguidas por 34,3% das comunidades tradicionais.
Apenas 9,2% reconhecem a vulnerabilidade específica de mulheres e meninas, apontando a necessidade de incorporar recortes de gênero e justiça social nas políticas ambientais.
Responsáveis e ausentes
Os brasileiros identificam as empresas e indústrias (72,5%) como as principais responsáveis pela crise, seguidas pelos governos (45%). No entanto, quando o assunto é quem mais atua para enfrentar o problema, a comunidade científica (34,9%) e as ONGs (33,7%) aparecem à frente. Apenas 10,4% acreditam que os próprios cidadãos estão fazendo sua parte.
Para os realizadores do estudo, a falta de coerência entre responsabilidade e prática evidencia a urgência de políticas públicas e empresariais mais consistentes.
Três caminhos para fortalecer o elo entre cultura e clima
Com base na análise dos dados, o estudo propõe três grandes eixos de ação para ampliar o impacto da cultura na mobilização socioambiental:
- Traduzir a ciência em emoção, incorporando a pauta climática em produtos culturais populares, como novelas, músicas e séries.
- Ampliar o acesso cultural, com políticas de circulação, gratuidades e acessibilidade física e digital, especialmente em regiões periféricas.
- Reconstruir pontes de confiança, valorizando lideranças comunitárias, artistas locais e instituições culturais capazes de dialogar com públicos diversos e reduzir a polarização.
Clique aqui para acessar o estudo Cultura e Clima: Percepções e Práticas no Brasil
*****
Foto: Ana V. Araújo/Mormaço
*****
Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Deixe um comentário