Lançada nesta quarta-feira (26), a pesquisa “Retratos do Progressismo no Brasil” apresenta um panorama atual do campo das esquerdas no país. O estudo, baseado em um levantamento qualitativo com eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022, traz análises inéditas sobre percepções, valores e tendências do comportamento político desse segmento em 2025.

Realizado por meio de grupos focais presenciais em nove capitais — Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo — o estudo analisou percepções, valores e expectativas sobre a esquerda, o governo Lula e o cenário político nacional.

O levantamento foi realizado pelo Núcleo Ypykuéra em parceria com o Observatório Político e Eleitoral (Opel), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

O Ypykuéra é um grupo fundado em 2021 com participantes da academia e da sociedade civil, que tem o objetivo de travar diálogos sobre os desafios do campo progressista brasileiro. A organização está focada em facilitar conexões, propor agendas coletivas e apontar caminhos para o “novo progressismo” e para a “próxima esquerda”, em uma oposição às estratégias políticas da extrema direita.

Artur Sampaio, secretário-executivo do Ypykuéra, afirma que a pesquisa busca entender o perfil e como pensa o eleitor progressista sobre valores e pautas que mobilizam a população atualmente. “Com esse trabalho, o Ypykuéra quer estimular o debate público qualificado, às vésperas de um ano eleitoral em que a extrema direita deve voltar a utilizar táticas que ainda não foram bem compreendidas pelas esquerdas”, enfatiza.

A pesquisa qualitativa, com grupos focais, foi escolhida de acordo com o objetivo da pesquisa, que é entender a fundo as percepções do eleitor progressista. Com esse método, é possível descobrir o que as pessoas percebem sobre temas complexos e sobre quais soluções elas pensam, qualificando e desenvolvendo mais suas opiniões. O método não tem pretensão de ter relevância estatística.

“Pesquisas quantitativas têm perguntas que só podem aferir respostas muito objetivas. Na pesquisa qualitativa podemos desenvolver melhor os temas, pois as pessoas têm a oportunidade de mostrar suas percepções e experiências sobre o tema e as soluções que propõem para os problemas apresentados”, explica Josué Medeiros, cientista político e coordenador do Opel.

A pesquisa demonstrou, por exemplo, a importância da pauta da educação como promotora da prosperidade para os eleitores progressistas. O assunto apareceu em todos os grupos focais, ainda que não houvesse uma pergunta sobre educação no questionário aplicado.

Por meio dos grupos focais, também foi possível captar diferenças regionais. A pauta da segurança pública apareceu com uma avaliação negativa em todos os grupos, mas teve ênfase especial nos estados governados pela esquerda.

Campo progressista segue sem liderança destacada para o período pós-Lula

A pesquisa realizou grupos focais distintos com dois perfis entre os eleitores de Lula em 2022: os efetivos, que votaram no petista em ambos os turnos, mantêm relação afetiva com sua figura como líder ou percebem melhorias concretas em suas vidas, e os pragmáticos, que votaram principalmente por rejeição ao bolsonarismo e se reconhecem mais nos valores progressistas do que na figura de Lula.

Apesar das diferenças, ambos os grupos demonstram desejo de renovação das lideranças progressistas, aliada à compreensão de que governar o país é complexo diante de um Congresso majoritariamente adverso.

Entre as lideranças de esquerda apontadas pela pesquisa, Lula e Fernando Haddad (PT) aparecem como os mais conhecidos: 100% responderam que conhecem o presidente e seu ministro da economia. 

Guilherme Boulos (Psol) aparece em seguida, com 95% de conhecimento. Érika Hilton (Psol) é conhecida por 90% dos eleitores, enquanto Tabata Amaral aparece com 80% e João Campos com 51%.

Já quando perguntados com qual liderança se identificam, 45% dos eleitores ouvidos responderam Lula (33%) ou PT (12%). O segundo nome mais citado, com 6% das menções, foi Érika Hilton (Psol), seguido por Guilherme Boulos (Psol) e Jones Manoel, influencer e militante de esquerda do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), ambos com 4%.

Os resultados não têm relevância estatística, mas sugerem que o campo das esquerdas ainda não tem uma liderança delineada para o período pós-Lula.

A pesquisa

A pesquisa “Retratos do Progressismo no Brasil” expôs os participantes a um roteiro de perguntas previamente definido, a partir de debate realizado pelas equipes do Opel e do Núcleo Ypykuéra, com o objetivo de entender melhor suas percepções, preferências, valores e demandas sobre a política em geral e sobre a esquerda em particular.

A escolha dos participantes levou em conta microdados da Pnad Contínua e do Censo 2022, considerando o peso demográfico de cada um dos setores da população brasileira. Ainda que a pesquisa seja baseada em metodologia qualitativa, que não busca uma amostra representativa em termos estatísticos, o desenho dos grupos focais levou em conta a proporcionalidade do universo estudado em termos de gênero, raça e religião.

Integraram os grupos focais mulheres e homens moradores de 9 capitais (Belém, Belo Horizonte, Distrito Federal, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo) entre os dias 1º de agosto e 30 de setembro.

O recrutamento aleatório foi feito entre pessoas com renda familiar de 3 a 10 salários-mínimos, escolaridade entre ensino médio completo e ensino superior completo, paridade de raça e gênero, proporcionalidade religiosa conforme o Censo 2022, recorte etário de 18 a 50 anos e distribuição entre as várias regiões de cada uma das cidades.

Confira os principais achados da pesquisa:

Sentimento antissistema também aparece na esquerda

O estudo mostra que o sentimento antissistema — frequentemente associado ao bolsonarismo — também está presente entre eleitores que tendem a votar na esquerda. Nesse grupo, porém, o fenômeno não se expressa como rejeição à democracia, mas como crítica à corrupção, aos privilégios percebidos na política e à baixa representatividade. Ainda assim, os participantes reconhecem “bons políticos”, sobretudo aqueles ligados às pautas das minorias.

Esquerda é associada à defesa do povo e à promoção da prosperidade

A pesquisa confirma que a esquerda ainda carrega forte identificação com a defesa do povo e com políticas sociais. Um dos achados mais relevantes é a associação espontânea entre esquerda e prosperidade, entendida de forma ampliada: não só renda, mas acesso à educação, oportunidades e desenvolvimento. A pauta educacional, em especial, surge como núcleo central da visão progressista e como motor de ascensão social.

Economia e empreendedorismo ganham avaliação positiva

O debate recente sobre justiça tributária fortaleceu a percepção de que a esquerda atua positivamente na economia. Outro destaque foi a presença de avaliações favoráveis sobre empreendedorismo — especialmente entre os eleitores mais ligados ao lulismo histórico — impulsionadas por iniciativas como o MEI e programas de crédito para pequenos negócios. Entre os mais críticos ao atual governo, porém, persiste a visão de que a esquerda privilegia vínculos formais e não estimula suficientemente quem empreende.

Centrão é altamente rejeitado

Os eleitores de Lula entendem que uma parte das dificuldades em governar o país está no Congresso Nacional, identificado como uma força de oposição política declarada ao governo petista. Dentro desse cenário, o Centrão — conjunto de partidos de direita que é visto como adesista a qualquer governos que lhes ofereça cargos e, mais recentemente, emendas parlamentares — recebe as maiores críticas, descrito como “oportunista” e “em cima do muro”.

Segurança pública e meio ambiente: avanços e cobranças

Embora reconheçam melhorias em relação ao governo anterior, os participantes demonstram expectativas mais ambiciosas na área ambiental. Já a segurança pública aparece como principal fragilidade da esquerda, com avaliações negativas em praticamente todos os grupos — inclusive nos estados governados por partidos progressistas.

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Fotos: Tânia Rego/Agência Brasil

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