Por Fabrícia Lopes*
A pesquisa Latam Pulse, divulgada em novembro de 2025 pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, oferece uma conjuntura que merece reflexão por parte das forças progressistas em Rondônia e brasil. Os dados revelam um movimento acelerado de avanço do conservadorismo entre os jovens, fenômeno que se conecta diretamente à avaliação atual do governo Lula e à dificuldade da esquerda em dialogar com as novas gerações. A análise integrada de ideologia, comportamento eleitoral e dados sociodemográficos compõe um quadro que indica não apenas rejeição pontual a um governo, mas uma mudança profunda no imaginário político das faixas etárias que deveriam ser vanguarda da renovação progressista.

Os números referentes ao posicionamento ideológico mostram que a identificação com a esquerda/centro-esquerda diminui drasticamente entre Millennials e integrantes da Geração Z, justamente os grupos que historicamente impulsionaram agendas de transformação social. Enquanto 57% dos Baby Boomers e 52% da Geração X se colocam à esquerda, apenas 27% dos Millennials e 31% da Geração Z fazem o mesmo. Mais grave ainda, 52% dos jovens da Geração Z se identificam com posições de direita, índice superior inclusive à média nacional. Essa inversão histórica, na qual a juventude deixa de ser motor do pensamento progressista e passa a constituir base fértil para discursos conservadores, acende um alerta que não pode ser ignorado. A direita compreendeu a linguagem, o ritmo e a estética que mobilizam os jovens contemporâneos, enquanto a esquerda, embora reconheça esse desafio, permanece lenta na construção de estratégias eficientes.
Essa guinada ideológica entre os mais jovens se articula diretamente com a avaliação do governo Lula, também registrada na pesquisa. Os dados nos mostram uma sociedade fortemente polarizada, com 50,7% de desaprovação e 48,6% de aprovação ao governo. Esse afastamento compromete a capacidade de renovação política e a sustentação futura de políticas progressistas, uma vez que governos de esquerda dependem, historicamente, do engajamento juvenil para consolidar agendas sociais de longo prazo.

O dado mais alarmante, porém, está na idade: 67,4% dos jovens entre 16 e 24 anos consideram o governo ruim ou péssimo, número que cai gradualmente nas faixas seguintes. A juventude se consolidou como o núcleo duro da rejeição, o que piora o desafio para a esquerda.
Diante desse conjunto de evidências, fica claro que o problema não se limita à polarização ou à atuação da direita. Ele revela também uma fragilidade interna da própria esquerda. Embora reconheça os desafios inclusive nos debates partidários, acadêmicos e nos espaços de militância a prática política não tem acompanhado o discurso. A comunicação segue rígida, formal, pouco adaptada ao universo fluido e hiperconectado da Geração Z. Falta presença, estética, linguagem, velocidade. Quando mudanças acontecem, são lentas, tímidas, “a passos de pipira”.
Se a direita opera com agilidade, emoção e forte presença cultural, a esquerda ainda se apoia excessivamente em narrativas históricas, na retórica de autoridade e na crença de que os resultados concretos da política pública se explicarão por si mesmos. Mas não vivemos mais em um mundo em que a materialidade basta; vivemos em um ambiente em que a disputa simbólica é tão importante quanto a econômica. Falhar nessa compreensão significa entregar as futuras gerações ao conservadorismo. Portanto precisamos mostrar que os direitos de hoje são frutos das lutas de ontem, e para eles se manterem é necessário mais esforço.
Mais do que corrigir erros de comunicação, o campo progressista precisa reformular seu modo de atuar. Deixar o palanque tradicional e disputar a narrativa no TikTok, Instagram e YouTube, com criadores de conteúdo jovens e linguagem autêntica, e não apenas com press releases governamentais.
A guerra inclui a árdua batalha de Reconquista Geracional: Tratar a Geração Z como o principal campo de batalha, entendendo que a juventude não se engajará por nostalgia, mas por um projeto de futuro que resolva o desemprego, a crise climática e a saúde mental, pautas que hoje são disputadas pelo ultraconservadorismo de forma simplificada. E é essencial oferecer à juventude uma narrativa de futuro que trate diretamente de suas angústias: emprego, saúde mental, mudanças climáticas, desigualdades digitais, cultura urbana e autonomia.
Se a esquerda não acelerar o passo, corre o risco de perder não apenas a próxima eleição, mas a próxima geração. E, sem ela, nenhum projeto progressista se sustenta.
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*Fabrícia Lopes é natural de Porto Velho, tem 27 anos, é formada em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pós-graduada em Gestão Escolar pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em História e Antropologia da Amazônia (PPGHAm). Atua como coordenadora estadual do Levante Popular da Juventude. Além disso, é comunicadora social e pesquisadora, dedicando-se especialmente aos temas relacionados à educação, às lutas sociais e às representações étnicas na Amazônia.
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Foto: Ricardo Stuckert/PR
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