Lançado em outubro de 2025, o podcast Resistência Jipa vem se consolidando como um espaço de denúncia, acolhimento e orientação para servidores municipais que se sentem abandonados pelo poder público. Criado pelo professor David Francisco de Oliveira, que atua na rede municipal de Ji-Paraná há mais de 20 anos, o podcast combina informação, crítica e orientação com o objetivo de explicar direitos, traduzir termos jurídicos, mostrar caminhos administrativos e, principalmente, mostrar que ninguém está sozinho.
Tudo começou após o educador ver a própria vida atravessada por episódios de perseguição e retaliação ao questionar a gestão municipal, cobrar transparência e defender direitos básicos de professores e demais servidores.
A partir daquele momento, o professor precisou ser resistente para enfrentar a hostilização no ambiente de trabalho e pressões veladas para se calar, além de ser alvo de Processos Administrativos Disciplinares (PADs) com nítido viés punitivo, voltados mais a intimidar do que a apurar irregularidades.
Depois de obter vitória na Justiça, David Oliveira identificou a necessidade de ter um espaço de formação cidadã que levasse informações para outros servidores que estiverem passando pelo o que ele enfrentou.
De acordo com o educador, o caso dele não é único em Ji-Paraná. Outros professores, servidores de apoio, trabalhadores administrativos e outros profissionais relatam passar por situações semelhantes a dele.
“Uns têm medo de perder o emprego. Outros, vivem com salário base de R$ 1.212,00, tentando sobreviver com o mínimo enquanto veem o município destinar valores muito superiores a empresas terceirizadas que assumem funções essenciais dentro das escolas”, relata.
Nesse contraste – servidores concursados ganhando pouco e empresas terceirizadas com lucros milionários – o professor encontrou um símbolo do que chama de “inversão de prioridades” na gestão municipal.
Ao fortalecer sua postura sindical e se tornar uma das vozes mais firmes na defesa dos servidores, o professor escolheu transformar a própria dor em organização, a perseguição em narrativa pública e o medo em resistência. Assim, nasceu o podcast “Resistência Jipa”.

Resistência Jipa: microfone aberto para quem nunca foi ouvido
Segundo David Oliveira, o podcast nasceu com a missão de dar voz a quem não tem espaço nas versões oficiais. No programa, o professor traz relatos de servidores municipais, pais de alunos, profissionais da educação e munícipes em geral que enfrentam atrasos ou falta de estrutura nas escolas; precarização das condições de trabalho; desrespeito à carreira dos servidores efetivos; desigualdade entre o tratamento dado a funcionários concursados e a empresas terceirizadas.
A primeira grande batalha: abrir a “caixa-preta” do FUNDEB
Entre as várias lutas abraçadas pelo professor David, uma ganhou destaque logo no início da “Resistência Jipa”: a cobrança de transparência nos recursos do FUNDEB – o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, principal fonte de financiamento da educação pública no país.
Em nome dos servidores e da comunidade escolar, David protocolou requerimento dirigido ao prefeito municipal e ao Secretário de Educação, pedindo:
- extratos detalhados das contas do FUNDEB, mês a mês, com indicação de valores recebidos pelo município;
- valores efetivamente aplicados na remuneração dos profissionais da educação;
- despesas com terceirizações e contratos temporários e serviços de empresas privadas;
- discriminação por unidade escolar para que a sociedade possa saber quanto chega em cada escola, quanto é investido em salários, estrutura, materiais e formação;
- comparativo entre gasto com servidores de carreira e gasto com empresas terceirizadas.
O professor explica que a ideia é mostrar, com números e documentos, se há coerência entre o discurso de contenção de despesas com pessoal e a prática de contratação de empresas por valores muito mais elevados.
“Em termos simples, estou pedindo transparência total: abrir as contas do FUNDEB para que qualquer cidadão possa entender onde o dinheiro da educação está sendo aplicado e por que tantos servidores continuam recebendo salários tão baixos enquanto contratos terceirizados se multiplicam”, enfatizou.

Resistência Jipa e a luta sindical
Para o professor David, o Resistência Jipa ocupa um papel muito importante na luta sindical que acontece em um cenário de luta de classe em que a desinformação muitas vezes se sobrepõe aos fatos e servem interesses.
“É preciso lembrar que há professores sendo processados porque se posicionam; há servidores recebendo salários incompatíveis com a responsabilidade que carregam; há sindicatos e lideranças que escolhem o caminho da independência, mesmo sob risco pessoal”, denuncia o professor.
Nesse sentido, o podcast presta um serviço indispensável para a luta sindical jiparanaense, o que contribui para que o professor David se torne, para muitos servidores, uma voz disposta a falar em voz alta o que murmuram nos corredores.
De acordo com o professor David, um ponto central de sua atuação – e que o diferencia de outras lideranças que surgem e desaparecem em ciclos eleitorais – é a recusa em se deixar cooptar.
“Dentro dos grupos de professores, não é raro encontrar quem tente desqualificar minha atuação, rotulando minha postura como ‘radical’ ou ‘politizada demais’, especialmente aqueles mais alinhados ao prefeito de plantão”, enfatiza.
Ele explica, que o taxarem como radical se deve pelo fato dele não se vender, não se calar e não negociar direitos como se fossem favores.
“Minha luta não é para obter vantagens individuais, mas para garantir valorização real dos servidores; igualdade de tratamento entre concursados e terceirizados; respeito à dignidade de quem recebe um salário base que mal cobre o custo de vida; reconhecimento da importância da educação pública e de seus profissionais”, acrescenta o educador.
“Quando um servidor decide dizer “basta”, procura os caminhos legais, exige transparência nas contas públicas e transforma sua voz em canal coletivo, algo muda – dentro da escola, dentro da cidade e, pouco a pouco, dentro de cada pessoa que ouve”, finaliza.
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