A proximidade geográfica entre a Venezuela e os estados de Roraima e Amazonas coloca a Região Norte e o Brasil em uma posição de vulnerabilidade perigosa em uma eventual guerra entre o país vizinho e os Estados Unidos. Nesse contexto, não haveria garantias de que o conflito ficaria restrito ao território venezuelano, podendo transbordar para rotas fluviais, terrestres e áreas de selva compartilhadas pelos dois países. Este cenário representaria um choque direto e profundo, com consequências humanas, militares, econômicas e políticas de grande escala.
A análise é do professor e historiador Euclides Vasconcelos, especialista em história militar e geopolítica, que alerta para um cenário de instabilidade regional sem precedentes em toda a América do Sul.
Segundo o especialista, o impacto mais imediato seria a instalação de uma catástrofe humanitária sem precedentes na fronteira brasileira. O Brasil compartilha cerca de 2.200 quilômetros de fronteira com a Venezuela — uma extensão maior, inclusive, que a fronteira entre Rússia e Ucrânia.
Em caso de conflito armado, cidades de Roraima e do Amazonas teriam de lidar com um fluxo massivo de refugiados, muito superior ao registrado nos últimos anos, quando a migração foi impulsionada sobretudo por sanções econômicas impostas à economia venezuelana. Se o Brasil já acolheu cerca de 700 mil venezuelanos em um contexto de crise econômica, o número poderia crescer de forma exponencial diante de um cenário de guerra aberta.
“Uma guerra introduz o fator do desespero absoluto pela sobrevivência. As pessoas não estariam migrando apenas por falta de emprego ou renda, mas fugindo de bombardeios, bloqueios navais e possíveis combates terrestres”, explica Vasconcelos.

Além da crise humanitária, o professor Euclides ressalta que o cenário de guerra geraria uma militarização instântanea no Norte do Brasil. “O Estado brasileiro seria obrigado a deslocar um contingente militar nada desprezível para garantir a integridade do território, o que alteraria consideravelmente a dinâmica social e econômica das comunidades locais”, enfatiza.
A presença das Forças Armadas, que já é significativa na região, teria de ser ampliada para garantir a integridade territorial e monitorar uma fronteira altamente sensível. Esse movimento alteraria a dinâmica social e econômica das comunidades locais, que passariam a viver sob constante estado de alerta.
“O cenário de guerra transformaria a Região Norte do Brasil em uma ‘zona de tensão máxima’, comparável ao que ocorre hoje na fronteira entre Rússia e Ucrânia”, destaca.

“Um conflito abre mil janelas e, a depender do rumo que a guerra tomar, a Venezuela se transformaria em um vespeiro em combate contra o inimigo invasor, já que lá a população está organizada em armas para defender seu país. No pior dos cenários, o país seria transformado em uma ‘Somália gigante’, nas palavras de Hillary Clinton, facilitando a proliferação de grupos armados, tráfico de armas e pirataria no Caribe e, na parte que nos toca, também na região amazônica”, alerta o professor.
Tutela militar e impactos políticos internos
O analista também chama atenção para um risco menos visível, porém estratégico: o fortalecimento da tutela militar sobre a região Norte e sobre o próprio Estado brasileiro.
“Sob o argumento da segurança nacional, o conflito no país vizinho poderia ser usado politicamente por grupos militares para fortalecer a influência e tutela sobre o governo civil por meio de mecanismos como as já conhecidas Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que nos últimos anos foram normalizadas no Brasil e utilizadas por núcleos conspiracionistas para ascender politicamente de maneira consideravelmente rápida – vide o general e ex-vice-presidente Walter Braga Netto, que foi, entre outras coisas, nomeado por Michel Temer interventor no Rio de Janeiro”, explica.
De acordo com o professor, a guerra no país vizinho pode servir de pretexto para uma presença militar cada vez mais permanente e politicamente influente, o que afeta diretamente o equilíbrio entre poder civil e militar.

Bases militares e alinhamento internacional
Ainda de acordo com Vasconcelos, as bases militares brasileiras na Região Norte – que já vêm sendo reforçadas em meio as tensões das ameaças estadunidenses – deixariam de exercer apenas funções de vigilância para se tornarem centros logísticos de contenção e gestão de crise ou quiçá algo mais grave. “Elas seriam o ponto de apoio para o reforço da fronteira e para a recepção de refugiados, mas também poderiam servir como instrumentos de pressão diplomática”, explica.
No entanto, o professor alerta que não é impossível imaginar que a presença militar brasileira possa também ser utilizada indiretamente em favorecimento dos Estados Unidos, vide o histórico de alinhamento brasileiro com o país. “Além da possibilidade de que a estrutura militar brasileira seja “provocada” a participar do conflito, mesmo que não abertamente, seja cedendo espaço aéreo ou facilitando a logística de um dos lados”, acrescenta.
Economia regional sob pressão
Segundo Vasconcelos, no campo econômico, os efeitos de uma eventual guerra seriam imediatos. O comércio transfronteiriço, vital para as cidades e comunidades da fronteira, seria paralisado ou severamente comprometido.
“Nossa infraestrutura de transporte e energia poderia ser afetada ou sobrecarregada, na medida em que bombardeios a instalações elétricas venezuelanas causariam também um efeito dominó no abastecimento e na logística do país vizinho, o que poderia respingar nas conexões de infraestrutura compartilhadas com o Brasil”, alerta o especialista.
O professor lembra há ainda o risco de que a retórica utilizada pelos Estados Unidos — como a narrativa de “narcoterrorismo” — seja estendida ao Brasil, resultando em sanções indiretas ou barreiras comerciais que afetariam ainda mais a economia da região amazônica.

Solidariedade, memória e soberania regional
Para além dos impactos, o historiador Euclides Vasconcelos destaca também a importância da memória histórica e da solidariedade regional. Ele lembra que, durante a pandemia da Covid-19, quando o governo brasileiro falhou em fornecer oxigênio a Manaus, foi a Venezuela que enviou o insumo para salvar vidas, apesar das tensões políticas, provocações e ataques de Bolsonaro ao nosso país vizinho.
“O grande fluxo de contato dos dois países faz com que a estabilidade da Venezuela seja, na verdade, um componente da segurança e do bem-estar do próprio povo brasileiro.
O ataque à Venezuela é um ataque à soberania de toda a América Latina”, reforça.
Ele lembra que a justificativa do combate ao narcotráfico é uma ferramenta histórica de intervenção que pode, no futuro, ser usada contra qualquer país da região — inclusive o Brasil.
“Defender a paz na Venezuela e a não intervenção estadunidense nos assuntos da nossa região não é sobre Nicolás Maduro ou a revolução bolivariana, mas uma posição de defesa da soberania da América Latina, da soberania nacional e da autonomia do Brasil no cenário global. Essa defesa, se necessário for, precisa manifestar-se em todas as frentes, inclusive na frente de combate”, finaliza.
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