No último 14 de dezembro, o vereador Pastor Bruno Luciano (PL) usou as redes sociais para comemorar a aprovação unânime, pela Câmara de Porto Velho, do Projeto de Lei 4961/2025, de sua autoria, que institui o “Programa de Combate a Cristofobia” na capital rondoniense. No vídeo publicado, o parlamentar apresenta uma narrativa para sustentar a existência de uma suposta perseguição a cristãos, mas omite informações relevantes, distorce dados e ignora a realidade local sobre intolerância religiosa.

Entre os argumentos utilizados, Pastor Burno Luciano cita um caso que aconteceu na Nigéria, onde um grupo armado teria supostamente invadido um culto evangélico. O vereador, no entanto, não menciona que o episódio não está relacionado a um conflito religioso e sim a disputa local por terra e água, conforme publicado em uma reportagem da BBC News Brasil. Ao desconsiderar este contexto, o parlamentar utiliza um conflito complexo para reforçar uma narrativa de perseguição religiosa que não se sustenta diante dos fatos.

Outro exemplo citado pelo vereador é um tiroteio em massa que aconteceu em uma celebração judaica na Austrália. Ele classifica o ataque como uma “perseguição violenta a cristãos”, o que distorce a realidade e apaga as diferenças históricas, culturais e religiosas entre cristianismo e judaísmo. Além disso, o contexto do caso não se aplica a realidade portovelhense.

Na tentativa de regionalizar o debate, Pastor Bruno Luciano apresenta também supostos dados da “CNN Brasil” que indicam um aumento de 80% nos casos de intolerância religiosa no Brasil em apenas um ano. O que ele não esclarece é que a informação vem de uma matéria publicada no site da CNN Brasil sobre um estudo do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

O levantamento, de fato, aponta um crescimento nas denúncias de intolerância religiosa, mas a maior parte das vítimas são de religiões de matriz africana – dado omitido pelo parlamentar.

Além de omitir informações relevantes e deturpar dados para sustentar a narrativa de “cristofobia”, o vereador-pastor afirma, na mesmo vídeo publicado nas redes sociais, que o objetivo do programa é “promover a fé cristã”, o que contradiz com a legenda da publicação, onde está escrito que “toda fé merece respeito” e “nenhuma forma de discriminação será aceita”.

Procurado pela reportagem de Rondônia Plural, Pastor Bruno Luciano não respondeu as nossas tentativas de contato. Mas seu gabinete afirmou que o vereador entrou em recesso a partir da última segunda-feira (22). O espaço segue aberto caso ele queira se manifestar.

Registros de intolerância religiosa em Porto Velho

Os registros oficiais de intolerância religiosa em Porto Velho não apontam nenhum caso apontado como “cristofobia”. Em contrapartida, há dezenas de casos notórios contra praticantes de religiões de matriz africana.

No ano passado, uma empresa na capital rondoniense foi condenada por intolerância religiosa pela Justiça do Trabalho por afastar uma funcionária que usava colar de miçangas. Além disso, a empresa chegou a negar uma folga na Sexta-feira Santa alegando que ela não era católica.

Em 2023, o Ministério Público do Estado de Rondônia (MP-RO) investigou uma denúncia de intolerância religiosa em uma escola de Porto Velho, onde uma criança de 5 anos foi chamada de “macumbeirinha” por uma professora e uma coordenadora da instituição.

Já em 2021, o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública do Estado de Rondônia e a Ordem de Advogados do Brasil (OAB-RO) passaram a atuar no caso de um terreiro de umbanda de Porto Velho que vinha sofrendo depredações.

Um estado evangélico, uma intolerância seletiva

De acordo com o Censo 2022 do IBGE, Rondônia e Acre estão lado a lado como os estados mais evangélicos do Brasil, ambos com 44,1% da população declarando pertencente a esta religião. Ainda assim, os casos mais recorrentes de intolerância religiosa no estado atingem justamente religiões historicamente marginalizadas.

No mesmo dia em que o Programa de Combate a Cristofobia foi aprovado em Porto Velho, um caso explícito de intolerância religiosa aconteceu a mais de 600km da capital rondoniense. No município de São Francisco do Guaporé, um pastor evangélico invadiu uma Casa de Umbamba e destruiu objetos sagrados do local.

“Em nome do Senhor Jesus, eu creio no meu Deus do céu que opera milagre e, segundo minha palavra, esse centro espírita vai fechar”, disse o religioso segurando uma Bíblia, momentos antes de golpear com o próprio punho as imagens que estavam no altar do terreiro.

“Em nome do Senhor Jesus, eu creio no meu Deus do céu que opera milagre e, segundo minha palavra, esse centro espírita vai fechar”, declarou o religioso, segurando uma Bíblia, momentos antes de quebrar imagens do altar com as próprias mãos.

O episódio expõe, na prática, o contraste entre o discurso político de uma suposta perseguição a cristãos e a realidade vivida pelos praticantes de religiões de matriz africana em Rondônia — frequentemente alvos de violência, silenciamento e omissão do poder público.

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