Filmado integralmente na Comunidade Quilombola de Santa Cruz, em Pimenteiras do Oeste, o documentário Vozes de Santa Cruz: Histórias de Mulheres Quilombolas de Rondônia, disponibilizado recentemente no YouTube, aposta na força da palavra das próprias mulheres para conduzir a narrativa.
Não há mediações excessivas nem discursos externos: são elas que contam suas histórias, resgatam memórias da infância sem luz elétrica, do trabalho desde cedo, da educação transmitida de geração em geração e da luta constante pelo direito de existir com dignidade. O resultado é um registro sensível, direto e profundamente humano.
O depoimento de Margareth Ramos Leite sintetiza um dos eixos centrais do filme: a educação como instrumento de transformação social. Filha de uma mulher que não sabia ler nem escrever, mas que fez questão de garantir o estudo dos filhos, Margareth se tornou assistente social graças às políticas de acesso à universidade para quilombolas.
Seu relato evidencia como a herança da resistência se reinventa no presente, sem perder o vínculo com a ancestralidade. “Ser uma mulher quilombola é preservar a origem dos descendentes”, afirma, com orgulho.
Já Marinete Ribeiro Brito traz à tona a força da mulher negra quilombola nos espaços de poder. Criada por uma mãe solo que garantia o sustento pescando e tirando lenha, ela construiu uma trajetória no serviço público que a levou a ocupar cargos de gestão no município.

A dimensão cultural também ocupa lugar central no documentário, especialmente no relato de Izabel Mendes. Ao descrever os costumes preservados, como os alimentos tradicionais da Semana Santa, o peixe assado na folha de bananeira e o bolo de arroz feito no pilão, o filme mostra que cultura é prática viva e cotidiana dentro da comunidade quilombola. São hábitos que conectam gerações e funcionam como resistência diante das transformações impostas pelo tempo e pelo racismo estrutural.
Fátima Brito Leite reforça outro tema recorrente: o valor do estudo como sonho coletivo. Mesmo sem ter conseguido cursar uma faculdade, ela destaca o esforço de sua mãe para garantir que os filhos aprendessem a ler e escrever, além de incentivar jovens, netos e alunos a seguirem estudando. Seu olhar para o futuro está ancorado na esperança de que as novas gerações tenham mais oportunidades e consigam “ser alguém”, sem romper com suas raízes.
O documentário também não ignora as feridas abertas pelo preconceito. Zeane Serrath Mendes fala do medo de se mostrar, da violência simbólica que tenta empurrar mulheres quilombolas para a invisibilidade. Sua fala, curta e direta, ecoa como um chamado à coragem coletiva: é preciso se afirmar, se mostrar e ocupar espaços.
Essa ideia se conecta ao relato de Juliana Oliveira, que ao participar de um desfile e vencer, encontrou um caminho de afirmação da identidade negra e quilombola, tornando-se referência para outras jovens que não se sentem apreciadas pelos padrões de beleza.
Sob coordenação da documentarista Andréia Machado, “Vozes de Santa Cruz” é um projeto contemplado pela Lei Paulo Gustavo que cumpre com êxito sua proposta de democratizar o acesso à memória e fortalecer o reconhecimento da identidade quilombola em Rondônia.
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Fotos: Assessoria
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