Por Adrian Jhonnson

Não é incomum ouvirmos, por parte de uma esquerda elitizada, a nomenclatura “pobre de direita”, sempre se referindo à classe mais pobre como se essa fosse composta por pessoas ignorantes, analfabetas e desprovidas de qualquer juízo de valor “intelectual”. A partir de então, é preciso concordar que a serventia dessa esquerda nada agrega, mas efetiva o seu contrário: segrega, separa e corrobora para a manutenção de um discurso no qual os ricos e poderosos são beneficiados em detrimento das humilhações e prejuízos dos trabalhadores de verdade.

A partir da provocação acima, introduzo aqui uma proposta de comunicação acessível (dedicarei um esforço e consultas para ser o mais acessível possível). Dito isto, cito aqui o livro de Jessé Souza, intitulado Pobre de direita: a vingança dos bastardos, que apresenta determinado ressentimento social, germinado no seio da classe trabalhadora entre a decadência dos movimentos de luta e mobilização da classe e o fortalecimento do neoliberalismo (falarei mais sobre ambos adiante). Não por acaso, hoje é comum observar pessoas que ganham até um salário mínimo defendendo bilionários, sem ter a mínima ideia do que isso significa.

Pois bem, o que é a decadência dos movimentos de luta e mobilização social? Aqui falamos da esquerda, ainda na virada dos anos 2000. E quero estabelecer e chamar essa decadência de “esquerda ideológica”, a qual, ao longo dos anos, tornou-se intelectualista, elitista, segregadora e, além disso, pouco produtiva. Após a vitória nas urnas do Partido dos Trabalhadores para a presidência, com Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, todo o trabalho de base foi enfraquecido — a luta cessou. Por trabalho de base, faço entender um trabalho voluntário e preocupado com o bem-estar, a garantia de direitos e a dignidade humana das pessoas que trabalham. Pergunte-me: quem são essas pessoas? Para mim, que escrevo, são todos os meus amigos, familiares e vizinhos, que são: diaristas, costureiras, enfermeiros, educadores, professores, atrizes, músicos, médicas, fisioterapeutas, psicólogas, cuidadores, frentistas, operadores de caixa, auxiliares de administração, babás, balconistas e todos os outros.

O que escrevi acima significa que uma pessoa que precisa trabalhar para não morrer de fome pertence à classe trabalhadora. “Ah, mas eu ganho 100 mil por mês!” Isso é ótimo, eu responderia, mas continua sendo da classe trabalhadora e está mais perto de quem ganha menos de um salário mínimo do que de Elon Musk. Ou seja, na prática, você que ganha 100 mil, 200 mil ou 300 mil deveria defender os mesmos interesses de quem ganha um salário mínimo, e não os interesses do dono do banco. Peço atenção para o que eu quero discutir: não estou debatendo sobre taxação de grandes fortunas; isso é papo para outra hora.

Pois bem, se essa esquerda ideológica não conseguiu mais atender aos interesses e expectativas da classe trabalhadora, a direita, de algum modo, ganhou as graças da população e dos trabalhadores, inserindo narrativas morais, religiosas e baseadas “nos bons costumes”. Quero, mais uma vez, tornar didático o que é direita e esquerda. Para isso, apresento definições na íntegra, disponíveis no primeiro site aberto ao pesquisar no Google, o site Brasil Escola:

“Os termos direita e esquerda surgiram durante a Revolução Francesa, de 1789, quando os membros da Assembleia Nacional se posicionaram fisicamente de acordo com suas opiniões políticas, com a direita defendendo o status quo (permanência da monarquia, reis, nobres e muito privilégio para pouca gente) e a esquerda buscando mudanças radicais (garantia de direitos, bem-estar e dignidade humana para todos na sociedade)” — grifo nosso.

Uma pergunta: de que lado você estaria? Caso você, caro leitor, não seja banqueiro, filho de nobres, fazendeiro (no Brasil, precisa ser proprietário de mais de 40 alqueires de terra, cerca de 97 hectares), milionário, grande empresário e outros mais, você deveria, por prudência, se posicionar — ou melhor, você já está posicionado à esquerda. É nesse momento que lhes apresento o que chamo de “esquerda material”. Essa esquerda encarna materialmente, isto quer dizer, na prática, todos os que precisam trabalhar para viver e que não são herdeiros de grandes fortunas, donos de grandes empresas (no Brasil, quem fatura anualmente em média 300 milhões), donos de bancos, fazendeiros e latifundiários. Logo, eu quero afirmar: não existe pobre de direita.

Todo pobre é materialmente de esquerda. Mesmo que se identifique com narrativas, promessas e discursos de direita, este pode não pertencer à esquerda ideológica — aquela fraca e decadente que mencionei acima —, mas invariavelmente pertence à esquerda material. Atualmente, as discussões são resumidas em Lula e Bolsonaro, mas ninguém discute redução da carga horária de trabalho, melhoria do sistema de educação, saúde e qualidade de vida da população, pois temos um Congresso e um Senado Federal que legislam quase exclusivamente a favor dos “ricos”, latifundiários e grandes empresários,  ou seja, contra a população e a classe trabalhadora, ou você concorda que poucas pessoas vivam na benesse enquanto milhões de pessoas são subjugadas?. Falar da suposta existência de um pobre de direita é escancarar o sucesso de um sistema que sempre vai querer deixar o pobre mais pobre, mais miserável e mais humilhado.

Porque, para a direita, o “pobre de direita” representa uma massa de manobra útil para os interesses da classe dominante de grandes detentores de poder (aqueles que citei acima), para usar seus votos nas urnas a fim de aprovar projetos de lei que beneficiam estupradores na Câmara; já para a esquerda ideológica, o “pobre de direita” é um dejeto descartável — lamento pelas palavras ásperas.

Fato é que, para a classe dominante e para os políticos, o pobre, materialmente de esquerda, não importa, seja ele alinhado aos discursos conservadores ou progressistas. O importante é que nós, da classe trabalhadora, sejamos aniquilados pelo trabalho excessivo e pela perda de saúde. Nada além dos nossos votos para a manutenção do poder dos mais ricos importa de verdade, e, por esta razão, é preciso que nos organizemos enquanto classe para lutar pelos nossos direitos e conquistar mais espaços de poder — mas um poder que emana do povo, o povo que trabalha.

Uma observação antes de finalizar: quando eu digo que existe uma esquerda ideológica, estou ciente de que todos somos orientados por um determinada ideologia, sendo esta, aquela que opera com a finalidade de tornar a nossa vida e dignidade cada dia mais difícil e miserável, ou aquela que pode fazer operar em nós uma certa consciência por mudanças estruturais 

Fato é: Tem pessoas que querem ser de direita, mas nunca serão, assim como muitos querem ser ricos e tornar-se a imagem e semelhança de seu opressor. Mas mesmo entre a classe trabalhadora, muitos já imaginam que se aliar ao opressor os tornarão melhores do que seus pares.

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Adrian Jhonnson é psicólogo, psicanalista em formação, pesquisador e artista multilinguagem, atuando em produções culturais e teatro. Também se destaca como líder comunitário, com projetos para o publico infanto-juvenil e idoso, defendendo direitos da juventude, LGBTQIAPN+ e povos tradicionais

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