A acusação de “narcoterrorismo” lançada contra a Venezuela para justificar a invasão estadunidense e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, não se sustenta quando confrontada com os fatos. O ataque norte-americano no último sábado (3) escancara não apenas uma escalada gravíssima de violação do direito internacional, mas também a profunda seletividade com que o presidente Donald Trump aplica contra aliados e opositores.
Em novembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos interferiu diretamente na política de Honduras para conceder indulto a seu aliado Juan Orlando Hernández — ex-presidente de direita condenado em março de 2024 por tráfico de drogas. Narcotráfico, nesse caso, não foi levado em consideração.
Não bastasse o perdão presidencial, houve ainda ameaças explícitas: Trump afirmou que cortaria a ajuda ao país caso o candidato que apoiava, Nasry Asfura, fosse derrotado nas urnas. Asfura venceu, com 40,3% dos votos, num processo marcado pela pressão externa.
Contra a Venezuela, onde havia um presidente opositor, o tratamento foi outro. Sem apresentar provas verificáveis, a Casa Branca, sob os mandos e desmandos de Trump, adotou a acusação de narcoterrorismo como pretexto para uma ação militar extrema, violenta e ilegal.
Os próprios dados oficiais desmontam a narrativa. Em outubro de 2025, o The New York Times publicou uma reportagem baseada em informações de agências norte-americanas e organizações internacionais reconhecendo que a Venezuela está fora do eixo central do narcotráfico global.
A análise do jornal norte-americano confirma o que a Organização das Nações Unidas (ONU) e a própria DEA (sigla inglesa para “Administração de Repressão às Drogas dos EUA”) registram há anos: o tráfico de cocaína que abastece o mercado dos EUA não passa pela Venezuela, nem na produção nem no trânsito principal.
A cartografia aponta que as grandes rotas do narcotráfico atravessam o Pacífico, não o Caribe e que a origem da cocaína está concentrada na Colômbia, no Peru e na Bolívia, os três maiores produtores de folha de coca do continente.
Segundo relatórios da ONU, 87% do tráfico global sai pelo Pacífico, enquanto apenas 5% tenta cruzar o território venezuelano — e, mesmo nesse percentual reduzido, a maior parte é interceptada antes de sair do país.
Os números da própria Venezuela reforçam esse dado. Apenas em 2025, a Força Armada Nacional Bolivariana e os órgãos de segurança destruíram centenas de pistas clandestinas, derrubaram mais de 400 aeronaves e apreenderam mais de 56 toneladas de drogas.
Desde a expulsão da DEA, em 2005, o desempenho do país no controle antidrogas não piorou — melhorou de forma consistente. Essa realidade, documentada, contrasta frontalmente com a imagem de “narco-Estado” repetida sem provas por autoridades e amplificada por setores da grande mídia.
A acusação de narcoterrorismo, portanto, não passa de cortina de fumaça. Um discurso falso para legitimar intervenções e agressões contra governos que não se alinham aos interesses de Washington.
Quando os dados contradizem a narrativa, ignora-se os dados. Quando aliados são flagrados em crimes graves, relativiza-se o discurso. Essa é a lógica de Donald Trump. O que se apresenta como combate ao crime organizado revela-se, mais uma vez, como um instrumento de dominação política por parte de uma potência imperialista.
A acusação de narcoterrorismo contra a Venezuela não se sustenta diante dos fatos. O que resta, então, é a dúvida incômoda: se não são as drogas, o que levou os Estados Unidos invadirem a Venezuela?
Em 2023, durante as eleições presidenciais, Donald Trump já tinha respondido essa pergunta: disse que já teria tomado a Venezuela e “pegado todo o petróleo” caso tivesse sido reeleito.
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