Uma pichação registrada na noite de réveillon deu o que falar em Porto Velho. Feita na faixada de uma loja de departamento localizada na capital rondoniense, a pichação trazia a frase “Viva a LCP!”, em referência à Liga dos Camponeses Pobres (LCP), movimento social criado em Rondônia em resposta ao “Massacre de Corumbiara”, trágico acontecimento que mancha a história do estado com sangue camponês.

Fotos que circularam nas redes sociais mostram uma pessoa realizando a pichação no local, aparentemente sem qualquer abordagem por parte da polícia ou de seguranças da loja no momento da ação. A situação chamou atenção pela tranquilidade com que o ato foi executado em um estabelecimento de grande porte e visibilidade.

A pichação foi notada nas primeiras horas do dia 1º de janeiro e rapidamente repercutiu nas plataformas digitais, tanto pela ousadia do ato quanto pelo local escolhido.

Até o momento, não foram divulgadas informações sobre a abertura de investigação ou identificação do responsável pela pichação. A empresa também não se manifestou publicamente sobre o ocorrido até a última atualização desta matéria.

Imprensa local repercute pichação e atribui ocorrência a polarização política

O site Eu Ideal, um dos mais acessados em Rondônia, publicou sobre a pichação na loja de departamento e sugeriu que a ocorrência teria sido motivada pela polarização política, uma vez que o empreendimento pertence a rede de loja de um famoso empresário alinhado ao bolsonarismo, enquanto a LCP é publicamente contrária a esse campo político.

Além disso, o site insinuou que a Liga dos Camponeses Pobres seria uma “organização criminosa”, citando narrativas já desmentidas pelo movimento, como o caso do vereador do Partido Liberal (PL), Jair da 29, do município de Nova Mamoré, curiosamente apontado como integrante da LCP e um dos 20 presos da Operação Godos, deflagrada pelo Ministério Público do Estado de Rondônia (MP-RO), em novembro de 2025.

Em nota, a Liga dos Camponeses Pobres negou qualquer vínculo com o parlamentar e ressaltou que a LCP é conhecida por boicotar a política institucional, orientando seus membros a não votarem nas eleições burguesas. Além disso, a liga ressaltou que nenhum dos 20 presos pela Operação Godos seja membro do movimento social.

Operação Godos termina com camponês da LCP assassinado

De acordo com o MPRO, a Operação Godos visava desarticular uma “complexa organização criminosa” – sem falar nomes, mas citando a área Tiago Campin dos Santos – pela prática dos crimes de extorsão, esbulho possessório violento, crimes ambientais, tortura, furtos, roubos, homicídios, posse e porte ilegal de arma de fogo e ameaça contra proprietários ou posseiros de terras e outras pessoas na região do distrito de Nova Mutum Paraná, comarca de Porto Velho.

Anunciada como a maior operação já deflagrada no âmbito estadual, a “Godos” mobilizou 500 policiais civis e militares, além de promotores de justiça, peritos criminais e servidores de diferentes instituições, com o objetivo dar cumprimento a 50 mandados de prisão temporária e 120 mandados de busca e apreensão, expedidos pela 2ª Vara de Garantias da Comarca de Porto Velho.

A LCP enfatiza que durante a operação casas de camponeses foram arrombadas, bens roubados, homens e mulheres presos e um morador do acampamento, o Elias, foi executado pelo BOPE e sua esposa baleada chegando a ficar hospitalizada em estado grave.

O caso foi abordado pela reportagem do G1 Rondônia, que apontou Elias como líder da LCP e ressaltou que sua esposa precisou ser socorrida de helicóptero. A matéria enfatiza que, segundo o MP-RO, o camponês teria reagido contra a prisão empunhando uma arma de fogo, fazendo os policiais revidarem.

Ainda segundo a matéria, o MP ressalta que, apesar de Elias ser integrante da Liga dos Camponeses Pobres, é errado afirmar que todos os investigados pela Operação Godos são camponeses. Na reportagem, o procurador e coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), Anderson Batista de Oliveira, afirmou: “as pessoas associam tudo o que acontece lá [área Tiago Campin dos Santos] à LCP, quando, na verdade, nem sempre tudo foi praticado pela LCP”.

“Há casos, inclusive, que integrantes da LCP podem até ser utilizados como massa de manobra para um grupo que realmente quer ganhar dinheiro, muito dinheiro, utilizando a bandeira do movimento social”, acrescentou o procurador.

LCP se manifesta sobre Operação Godos: “Busca confundir opinião pública”

Para a Liga dos Camponeses Pobres, a Operação Godos busca confundir a opinião pública, demonizar a atuação do movimento e destruir o fruto do trabalho que as famílias do acampamento Tiago Campin dos Santos conquistaram com anos de esforço, além de servir como instrumento para favorecer o latifúndio na disputa contra os camponeses que lutam pela terra.

A LCP lembra que a operação aconteceu dentro do acampamento Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum Paraná, que está localizado em uma área que faz parte da Fazenda Nor-Brasil e Gleba Arco-Íris. Segundo os camponeses, a área pertence a União, mas foi adquirida em processo de grilagem pelo latifundiário Antônio Martins, o “Galo Velho”.

De acordo com as investigações da Operação Amicus Regem, do Ministério Público Federal (MPF), que aconteceu em 2020, Galo Velho é líder de uma organização criminosa que conseguiu lucrar mais de R$ 330 milhões por meio grilagem de terras e fraudes no estado de Rondônia ocorridas entre 2011 e 2015.

Segundo o MPF, o esquema da organização criminosa liderada por Antônio Martins consistia em invasão e legalização de terras públicas (grilagem), com posterior ajuizamento de ações judiciais fraudulentas e recebimentos de indenizações com valores superestimados concedidas em processos que tramitavam sempre na 5ª Vara Federal em Porto Velho, e julgadas pelo juiz federal Herculano Martins Nacif, já falecido.

Além do juiz, havia a participação do servidor da Justiça Federal Everton Gomes Teixeira e do perito judicial nomeado Paulo César de Oliveira, os quais praticariam atos para favorecer o grupo de Antônio Martins em processos de desapropriação.

As investigações também comprovam o envolvimento de outros membros da família de Antônio Martins na organização criminosa, como o irmão dele, o advogado Sebastião Martins, e seu filho José Carlos Gouveia Alves, além do sócio Dorival Baggio.

A milícia rural do latifundiário e grileiro Antônio Martins

Em 2022, a Operação Lamassu, da Polícia Federal (PF) em conjunto com a Polícia Civil e o Ministério Público do Estado de Rondônia (MP-RO), desarticulou uma milícia rural composta por policiais civis e militares envolvida no assassinato de lideranças sem-terra no estado.

Conforme reportagem do site Brasil de Fato, a milícia em questão pertence a Galo Velho. As investigações tiveram início em 2021, após a Operação Amicus Regem, do MPF, quando a PF instaurou um inquérito policial para apurar a organização da milícia, patrocinada por Antônio Martins, para proteger a posse da família.

Uma reportagem recente, publicada no jornal A Nova Democracia, revelou que a prática se mantém pela família do latifundiário e grileiro Antônio Martins até os dias de hoje. João Martins, sobrinho de Galo Velho, admitiu que contrata policiais para “proteger” o patrimônio da família. “Se tiver alguma coisa ilegal, é problema dos policiais na Corregedoria deles, né? Não é problema meu, eu tô protegendo o meu patrimônio”, afirmou em entrevista ao veículo de imprensa.

Há anos a Liga dos Camponeses Pobres denuncia que vem sendo atacada por pistoleiros e policiais patrocinados por Galo Velho para intimidar, torturar e até assassinar os camponeses com o objetivo de expulsá-los da terra, mas a LCP – que defende a resistência armada – vem resistindo corajosamente.

Advogada da LCP está entre presos da Operação Godos

Entre os presos da operação está a advogada popular Lenir Correia Coelho, que representa os camponeses. De acordo com a LCP, ela teria sido presa por “avisar seus clientes de mandados de reintegração de posse” em condições muito delicadas.

Diabética e em situação de pós-operatório, com parte do pé amputado e fazendo procedimentos cirúrgicos para não gangrenar, Lenir foi presa em cela em comum sem condições de higienizar as feridas. Além disso, a LCP denuncia que a advogada popular foi impedida de levar insulina e outros medicamentos que utiliza para o tratamento da doença.

Na época, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) publicou uma nota de repúdio em reação a prisão. Para a entidade, a prisão de Lenir representa uma escalada de criminalização da advocacia popular e dos movimentos sociais que lutam pelo direito à terra em Rondônia.

“Trata-se de uma inaceitável tentativa de silenciar uma voz corajosa que se dedica historicamente à defesa jurídica de dezenas de famílias de camponeses e trabalhadores rurais, cuja única luta é por um pedaço de chão para viver e produzir com dignidade”, enfatizou a CPT.

Em nota publicada no Instagram, a Associação Brasileira de Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (ABRAPO) classificou a detenção como inconstitucional, arbitrária e de motivação política e reforçou que “o ato de comunicar aos clientes a iminência de uma reintegração de posse, ou seja, alertá-los sobre um risco jurídico grave para que pudessem se preparar, está sendo interpretado pelas autoridades como uma atividade ilícita”.

A ABRAPO também recordou que Lenir atuou em processos de grande repercussão nacional, como as denúncias de execuções de camponeses em Rondônia e Pará, e reiterou que sua prisão se insere em um contexto mais amplo de perseguição a defensores dos direitos do povo. “É a demonstração de que, em Rondônia, não há garantia do Devido Processo Legal aos Camponeses Pobres”, diz o comunicado.

A Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP) também divulgou uma nota de repúdio enfatizando que a prisão de Lenir é inconstitucional, injusta e politicamente orientada.

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