Porto Velho, 1979. Em meio ao silêncio imposto pela ditadura militar, nasceu o Barranco, um mensário alternativo que, mesmo sobrevivendo a apenas seis edições, tornou-se símbolo da resistência jornalística em Rondônia. Criado por Montezuma Cruz, então com 26 anos, e Jorcêne Martínez, 36, o tabloide surgiu sem recursos, mas com coragem suficiente para cutucar poderosos e dar voz a quem não tinha espaço.
Hoje reconhecido e premiado como jornalista e escritor, “Monte” — como é chamado pelos amigos — relembra aquele período com uma mistura de tensão e bom humor. Era o governo do general João Batista Figueiredo, quando a censura já dava sinais de desgaste, mas só seria oficialmente suspensa em 1988.
“Foi bom enquanto durou. Se ficamos devendo a alguém? Às gráficas, não. Eu e Jorcêne quitávamos direitinho cada edição suada. Nosso período de circulação foi fértil, uma glória”, recorda Montezuma, que aos 72 anos segue firme em Porto Velho, depois de passagens por alguns dos principais jornais do país. Seu companheiro de jornada morreu em 2017, no Distrito Federal.
Apesar da curta vida, o Barranco circulou muito além das margens do Madeira: via Correios e distribuidores amigos, chegou a bancas de Rio Branco, Manaus, Campo Grande, Cuiabá, Corumbá, São Paulo e até ao Rio de Janeiro.
Um episódio tornou-se lendário. Após a apreensão da terceira edição em Porto Velho, um telegrama do ministro da Justiça determinou que o jornal voltasse à circulação. Montezuma e Martínez transformaram a decisão em protesto: saíram pela Avenida Sete de Setembro distribuindo gratuitamente milhares de exemplares no comércio e na zona boêmia. “Foi o mais genial protesto da história rondoniense”, diverte-se Monte.
O Barranco também se destacou pelo humor ácido estampado em seus dísticos de capa. Na estreia: “Quem não é o maior tem que ser o menor”. Na edição seguinte: “Se bobearis, enrabatus éris” (se bobear, será enrabado). E ainda: “Em terra de sapos, de cócoras com eles”.



Entre reportagens e crônicas, o jornal denunciava ataques de jagunços a colonos, retratava a rota das tacacazeiras [os pontos de comércio de tacacá], dos hotéis e motéis da capital, das crianças pobres e nuas. Também deu espaço ao sertanista Apoena Meireles, que desabafou sobre os Paiter Suruí e a questão indígena.
O superintendente da Polícia Federal, Hélio Máximo Pereira, abriu inquérito contra os editores, tentando vincular o jornal ao deputado Jerônimo Santana (MDB), um crítico do regime militar. Mas o financiamento vinha dos próprios salários de Montezuma e Martínez, então repórteres regionais do Jornal do Brasil e da Folha de S. Paulo.
Para manter o jornal, Montezuma chegou a estourar a poupança que havia aberto para a filha recém-nascida, que é hoje é médica. “Foi uma experiência boa, apesar de curta. A partir do terceiro número conseguimos alguns anúncios, inclusive do Banco do Brasil”, relembra.
O Barranco retratava com ironia a transição entre o Território Federal e o futuro estado de Rondônia. Martínez, cartunista talentoso, criou personagens como Mané Tapiri, que dizia: “Enquanto houver um só desassistido neste cafundó, vamos continuar com o dedo na ferida. Doa a quem doer.” “Sofreu as consequências disso: foi exonerado do emprego que mais lhe remunerava, como repórter da sucursal da Empresa Brasileira de Notícias (EBN), vinculada ao Ministério da Justiça na gestão do mineiro Ibrahim Abi Ackel.
O jornal não poupava críticas à Polícia Federal, acusando-a de perseguir garimpeiros e favorecer multinacionais que dominavam a exploração mineral. A lavra manual de cassiterita estava proibida havia quase uma década, e o Barranco citava uma a uma as empresas que, segundo os editores, “formavam um feudo e odiavam garimpeiros”.
A PF reagiu, abrindo inquéritos e intimando os jornalistas a depor. Mas a pressão não prosperou: notas publicadas em jornais do Norte e do Sul expuseram os abusos de autoridade, obrigando o superintendente Hélio Máximo Pereira a recuar.
Além da polícia, o jornal enfrentou resistência da Igreja. O bispo diocesano de Porto Velho, Dom Antônio Sarto, classificou os editores como “jornalistas pornográficos” – havia entrevistas com prostitutas e desvalidos nus – e pressionou para que o periódico fosse silenciado. Mais tarde, a denúncia chegou a Manaus, quase custando o emprego de Montezuma no jornal Porantim, ligado ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Com irreverência, o jornal estampava dísticos provocativos como “Escorregadio, mas intransigente” e manchetes que misturavam denúncia e ironia: “Justiça de Rondônia, um flagelo”, “Uturumbó, o inferno é aqui mesmo”, “Garimpeiras do Sexo”.
Em 1980, o Barranco deixou de circular. Mas sua curta trajetória registrou com humor e coragem a efervescência de Rondônia às vésperas da transformação em estado. Entre denúncias contra a PF, críticas à Igreja e reportagens sobre garimpeiros, colonos e indígenas, o jornal permanece como memória viva da resistência cultural e política na Amazônia.
*****
Matéria originalmente publicada na Edição 9 do Jornal Cool do Mundo
*****
Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Deixe um comentário