Em um mundo cada vez mais dominado por redes sociais, métricas de engajamento e notícias descartáveis, o jornal Cool do Mundo segue na contramão. Criado em Vilhena, o projeto aposta na produção artesanal, no texto longo e na valorização da memória como forma de resistência cultural e jornalística.

De acordo com o jornalista e editor Júlio Olivar, a ideia de criar o jornal começou a maturar cerca de três anos atrás, em conversas com amigos, veteranos da imprensa rondoniense, que desejavam resgatar características dos antigos jornais impressos, como editoriais extensos e reportagens dominicais que misturavam jornalismo, opinião e literatura.

“A motivação principal é simples: saciar nossa vontade de escrever e publicar, cultivando uma estética vintage que valoriza a memória, mas sem perder o olhar para o presente”, destaca.

Ele recorda que o grupo de amigos cogitou, inicialmente, em lançar um tabloide semanal impresso. “Mas o mercado editorial mudou tanto que até encontrar uma gráfica disposta a assumir esse desafio se tornou difícil. Poucas bancas de jornal sobrevivem e os leitores perderam o hábito de assinar jornais e revistas”, enfatiza.

Diante desse cenário, o Cool do Mundo surge em formato PDF, distribuído semanalmente via WhatsApp e sem redes sociais oficiais. “A proposta é manter uma atmosfera underground, inspirada nos magazines alternativos de décadas passadas”, explica o jornalista.

Um jornal plural e necessário

Cool do Mundo chega com a proposta de ser um veículo de imprensa independente, não sectário e desvinculado do poder dominante capaz de tratar de temas considerados tabus, sem se preocupar com métricas de engajamento, e que desse espaço para pautas ligadas à cultura, comportamento e sociologia. “É um projeto pequeno, mas ambicioso: ser plural e necessário. Nosso diferencial está em dar visibilidade a temas que raramente aparecem na imprensa convencional”, ressalta Olivar.

Ao longo de suas onze edições, o jornal tem abordado assuntos como memória histórica, biografias, artistas locais fora do circuito digital, literatura regional, abandono de museus e a fragilidade das políticas de preservação do patrimônio.

A linha editorial evita releases institucionais e versões oficiais, priorizando a voz de entidades populares e organizações sociais. Como exemplo, Olivar cita uma reportagem (foto) sobre uma agrovila em Vilhena que transformou a vida de mais de 40 famílias, fortalecendo a produção de alimentos diversificada em meio ao domínio do latifúndio.

“Também abordamos questões ligadas às minorias, às etnias e à diversidade — temas que raramente ganham espaço na mídia tradicional”, acrescenta o editor do jornal.

Os leitores de Cool do Mundo

Atualmente, o Cool do Mundo alcança cerca de 2.500 pessoas por semana, principalmente por meio de um grupo de WhatsApp e dos contatos pessoais do editor. O retorno dos leitores, segundo Olivar, é positivo: há elogios, críticas e complementações às matérias publicadas.

No entanto, o público ainda é majoritariamente formado por leitores saudosistas, ligados à tradição dos jornais impressos. Os jovens, em sua maioria, ainda não conhecem o projeto. O desafio agora é ampliar o alcance sem perder a essência do jornal. “Precisamos dialogar com a juventude, mas sem abrir mão do nosso compromisso com a memória, a cultura e a profundidade”, afirma Olivar.

Imprensa independente, trabalho voluntário

Todo o trabalho do Cool do Mundo é feito de forma voluntária. Colunistas, revisores e colaboradores não recebem remuneração, e o próprio Júlio Olivar é responsável pela edição e diagramação do jornal. O único apoio financeiro vem da empresa Amazônia Livros, criada pelos próprios idealizadores do projeto.

Apesar de já ter recebido propostas de apoio político, Olivar afirma que todas vinham condicionadas a alinhamentos editoriais — algo que o jornal se recusa a aceitar.

Para ele, Rondônia ainda carece de uma cultura de contrapartida social por parte das grandes empresas, especialmente do varejo e do agronegócio. “O apoio não é só financeiro. É também engajamento, participação e compromisso com a memória e a diversidade”, diz.

O fechamento dos museus no estado, segundo ele, é um reflexo da falta de urgência em relação à cultura e à preservação histórica.

Baixe a 11º edição do jornal Cool do Mundo

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Uma resposta a “Cool do Mundo: Jornal de Vilhena resiste à lógica das redes e aposta na estética vintage e no jornalismo independente”

  1. Avatar de LYENE KARYN MENDONCA AMARAL
    LYENE KARYN MENDONCA AMARAL

    O nome do jornal é simplesmente incrível! 🤣❤️👏👏👏

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