Rondônia registrou o aumento mais extremo de letalidade policial do Brasil em 2025. As mortes em ações policiais no estado saltaram de 8 para 47 em um ano, uma alta de 488%, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O estado, governado por Marcos Rocha (PSD), apresenta uma tendência preocupante na Amazônia Legal e na região Norte do país, onde dois estados lideram o rankings com maiores altas de mortes causadas por policiais em 2025.
Depois de Rondônia, vem o Maranhão, governado por Carlos Brandão Júnior (sem partido), onde os registros quase dobraram, com alta de 87%. O estado passou de 76 para 142 mortes em ações policiais. Procurados pela Folha de São Paulo, os dois estados não responderam sobre as causas que explicam esse aumento.
Já o Rio Grande do Norte, que também registrou aumento de 51% e integra a terceira posição entre os estados com as maiores altas, atribuiu o crescimento à migração de criminosos do Sudeste para o Nordeste, intensificando disputas territoriais e confrontos armados com a polícia.
Estados brasileiros com as maiores altas de mortes causadas por policiais em 2025
1 – Rondônia: 488% (de 8 para 47 mortes)
2 – Maranhão: 87% (de 76 para 142 mortes)
3 – Rio Grande do Norte: 51% (de 91 para 137 mortes)
4 – Rio de Janeiro: 14% (798 casos)
5 – São Paulo: 3% (835 mortes)
6 – Bahia: 1% (1.569 mortes – líder em números absolutos)Estados brasileiros com as maiores quedas
1 – Tocantins: -55% (de 49 para 22 casos)
2 – Rio Grande do Sul: -43% (de 141 para 80 casos)
3 – Roraima: -33%
Contexto nacional
Em todo o país, foram 6.519 mortes causadas por policiais em 2025, um aumento de 4,5% em relação às 6.238 registradas no ano anterior. Isso representa 18 casos por dia. O aumento atingiu 17 estados sob o comando de diversos partidos políticos, do PT ao PL, passando por União Brasil, Republicanos, PSD, PSB, Novo e MDB. As regiões Norte e Nordeste concentram as maiores altas do país.
Falta de vontade política
Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, o principal motivo para o crescimento da letalidade policial é a falta de vontade política de governadores e de secretários de segurança.
“Em alguns estados os governadores muitas vezes deixam as coisas correrem soltas, permitindo que a Polícia Militar, responsável pela maioria das mortes, mantenha uma autonomia excessiva sobre punições. Muitos gestores evitam confrontar a corporação para não comprar briga com uma instituição politicamente forte”, explica.
“Também morre quem atira”
Entre os estados com maior aumento de letalidade policial em 2025, São Paulo se destaca dramaticamente tanto pelo aumento de suicídios (65% em 2025) quanto pelo volume absoluto, é o estado que mais perde policiais por suicídio no Brasil.
Rio de Janeiro também apresenta números alarmantes, com aumento de 116,7% entre 2022-2023, embora tenha registrado queda em 2025.
A Bahia, apesar de liderar em letalidade policial (1.569 mortes), tem números de suicídio policial proporcionalmente menores que SP e RJ, mas ainda é o terceiro estado em números absolutos.
Para o pesquisador Vinicius Valentin Raduan Miguel, hoje licenciado da Universidade Federal de Rondônia, há uma sistêmica crise de violência. “Os três estados que lideram em mortes causadas por policiais (Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro) estão entre os que mais perdem agentes policiais por suicídio, revelando uma crise sistêmica que vitimiza tanto a população quanto os próprios policiais”, enfatiza.
Quedas na Amazônia Legal
Dois estados da Amazônia Legal, porém, registraram quedas significativas: Tocantins, que teve a maior redução proporcional do Brasil, com diminuição de 55% nas mortes causadas por intervenção policial (foram 49 casos em 2024 e 22 em 2025). Roraima também apresentou queda de 33% nos casos de letalidade policial.
Risco de perda de recursos federais
Para a assessoria técnica do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos (Cedeca Rondônia), organização que atua com direitos humanos há mais de 30 anos, é preciso reforçar que os governos estaduais podem ser penalizados até mesmo com a perda de recursos financeiros do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional, nos termos da regulamentação federal.
Mortes de crianças e adolescentes por violência policial
PANORAMA NACIONAL (2021-2023)
Violência letal geral:
- Mais de 15 mil crianças e adolescentes (0-19 anos) foram mortos de forma violenta entre 2021 e 2023
- 2023: 5.277 crianças e adolescentes assassinados (média de 14 por dia)
- 2013-2023: 99.003 crianças e adolescentes assassinados (2.124 de 0-4 anos; 6.480 de 5-14 anos; 90.399 de 15-19 anos)
Participação da polícia nas mortes violentas:
As mortes por intervenção policial se tornaram uma parcela cada vez maior do total de mortes violentas de crianças e adolescentes na faixa de 10 a 19 anos. Nos últimos três anos, as mortes provocadas por policiais passaram de 14% do total de mortes violentas em 2021, para 17,1% em 2022 e alcançaram 18,6% em 2023.
Ou seja: quase 1 a cada 5 crianças e adolescentes mortos no Brasil em 2023 foi vítima de intervenção policial.
DADOS DE 2023
Letalidade policial por faixa etária:
- Em 2023, a polícia foi responsável pela morte de 6.393 pessoas em todo o país. Destas, 71,7% eram crianças, adolescentes ou jovens com até 29 anos, sendo 82% negras
Taxa de mortalidade por intervenção policial (2023):
- População geral acima de 19 anos: 2,8 por 100 mil habitantes
- Adolescentes de 15-19 anos: 6 por 100 mil habitantes (mais que o dobro da população adulta)
Facções criminosas e violência na Amazônia
A expansão das facções criminosas na Amazônia Legal explica parte do aumento da violência. Estudo divulgado em novembro de 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que o crime organizado chegou a 45% dos municípios da região — 344 das 772 cidades, um aumento de 32% em relação a 2024.
O Comando Vermelho tem presença em 286 cidades amazônicas (83% das cidades com facções), seja de forma hegemônica ou em disputa. Houve crescimento de 123% da presença da facção na Amazônia desde 2023, quando estava em 128 cidades. O PCC está presente em 90 municípios da região.
Segundo dados da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), após a instalação das UPPs no Rio de Janeiro, líderes do Comando Vermelho migraram para estados como Tocantins, Pará, Rondônia e Santa Catarina. A facção oferece acesso logístico a armas e drogas, com estrutura descentralizada.
Em Rondônia, embora o PCC domine o crime organizado no estado, há presença do Comando Vermelho e de facções locais como o Primeiro Comando do Panda (PCP), Crime Popular (CP) e Amigos Leais (AL), além da Família do Norte (FDN).
Medidas do Governo Federal
Isabel Figueiredo, diretora do Sistema Único de Segurança Pública do Ministério da Justiça, afirmou para a Folha de São Paulo que a pasta atua em múltiplas frentes para conter o aumento da letalidade policial, como a ampliação do uso de câmeras corporais – hoje adotadas por 11 estados – e o Projeto de Qualificação do Uso da Força, com adesão de 21 unidades federativas.
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