O debate sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável costuma destacar inovação tecnológica, consumo consciente e transição energética. Mas, longe dos centros de decisão global, comunidades negras, indígenas e tradicionais convivem com contaminação, deslocamento forçado e perda de modos de vida. Esse fenômeno tem nome: racismo ambiental.

Quem explica as raízes e os impactos desse processo é Vinicius Miguel, advogado, pesquisador, professor licenciado da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e integrante do Grupo de Pesquisa e Intervenção em Direitos Humanos Mapinguari. Em entrevista ao Rondônia Plural, ele detalha como a lógica do desenvolvimento pode produzir violência ambiental seletiva e o que seria necessário para superá-la.

Rondônia Plural – O que é racismo ambiental, afinal?

Vinicius Miguel: Racismo ambiental não é apenas preconceito explícito. É a distribuição desigual de riscos ambientais segundo hierarquias raciais e históricas. Na prática, significa que comunidades negras, indígenas e tradicionais são mais expostas à poluição, têm menos proteção institucional e recebem menos investimento em prevenção e reparação. O que nos leva a questionar nosso modelo atual de progresso que depende do sacrifício de determinados povos e ecossistemas. A pergunta central é simples e desconfortável: Será que isso é realmente progresso? Será que nossa sociedade está disposta a reconhecer o valor de todas as vidas e territórios — ou continuará aceitando um modelo de desenvolvimento que exige destruição para existir?

Rondônia Plural – Qual o problema com o modelo de progresso da nossa sociedade?

Vinicius Miguel: Ele esconde o custo humano e territorial do progresso. Muitos materiais que sustentam tecnologias consideradas “verdes” vêm de territórios transformados em zonas de sacrifício. O desenvolvimento, nesses contextos, não aparece como promessa de bem-estar, mas como ruptura — ambiental, social e cultural.

Rondônia Plural – Você poderia dar exemplos concretos disso?

Vinicius Miguel: Sim. Em Buenaventura, na Colômbia, grandes obras de infraestrutura alteraram territórios historicamente ocupados por comunidades negras, ampliando conflitos e expulsões. Outro exemplo, dessa vez brasileiro: na Ilha de Maré, na Bahia, a poluição associada à cadeia petrolífera afeta diretamente a saúde e o trabalho das marisqueiras. O mercado coloniza não apenas a terra, mas a própria forma como as pessoas percebem sua existência. Territórios são tratados como vazios ou improdutivos. Com isso, comunidades são deslocadas de modos de vida autônomos para uma dependência econômica baseada no consumo.

Rondônia Plural – O que é “ecogenoetnocídio”?

Vinicius Miguel: O termo, formulado por Santiago Arboleda, mostra que destruir a natureza também destrói cultura, memória e identidade. Quando um rio é contaminado, não se perde apenas água limpa — perdem-se rituais, conhecimentos e relações espirituais associadas a ele. Por isso, reparação ambiental não pode ser só financeira: precisa reconstruir a vida em todas as suas dimensões.

Rondônia Plural – Como o gênero entra nessa discussão?

Vinicius Miguel: O racismo ambiental é profundamente interseccional. Na Ilha de Maré, por exemplo, as marisqueiras passam horas imersas em manguezais contaminados. O contato direto com óleo e metais pesados afeta seus corpos e sua saúde. Além disso, elas também assumem o cuidado dos filhos quando adoecem pela poluição. Como afirma a liderança comunitária Eliete Paraguassu, são os corpos dessas mulheres que estão na linha de frente da contaminação.

Rondônia Plural – Existe uma relação entre racismo ambiental e políticas públicas?

Vinicius Miguel: Sim. O que chamamos de necropolítica ambiental ocorre quando o Estado decide quem pode viver com proteção e quem será exposto ao risco. Um estudo da Universidade Federal da Bahia apontou níveis elevados de metais pesados, como chumbo e cádmio, em 90% das crianças (todas abaixo de 6 anos) examinadas na Ilha de Maré, demonstrando na prática como a desigualdade ambiental afeta uma comunidade. Essa vulnerabilidade específica de crianças menores de 6 anos ocorre porque seus organismos ainda não conseguem metabolizar metais pesados como os adultos, levando ao acúmulo em órgãos e ossos. Ao permitir a contaminação sistêmica e negar saneamento básico ou saúde especializada, o Estado opera uma gestão da morte que rouba o futuro das novas gerações através do medo onipresente do câncer.

Rondônia Plural – Então crise ambiental é uma crise social?

Vinicius Miguel: Mais do que isso: é uma crise civilizatória. Ela revela um modelo de pensamento que reconhece apenas formas específicas de conhecimento e ignora saberes ancestrais. No fundo, é uma crise de alteridade — a incapacidade de reconhecer plenamente a humanidade do outro e o valor de seus territórios.

Rondônia Plural – Há caminhos para superar o racismo ambiental?

Vinicius Miguel: Sim, mas exigem mudança profunda. É preciso construir uma justiça histórico-ecológica que respeite saberes tradicionais e promova convivência equilibrada com o território. Alguns movimentos chamam isso de paz intercultural — um pacto que não busca apenas crescimento econômico, mas dignidade, harmonia e coexistência.

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