Negro, médico, músico, socialista e apaixonado por futebol. Assim começa o relato do jornalista e escritor Zola Xavier da Silveira ao reconstituir a história de Renato Medeiros, descrito por ele como “a maior liderança popular da história do Território de Rondônia”.

Em seu livro Uma Frente Popular no Oeste do Brasil, o autor dedica o primeiro capítulo à memória do deputado federal do Território de Rondônia que teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos pelo Regime Militar em 1964.

Medeiros nunca foi comunista, como destaca Zola Xavier, mas mantinha proximidade e respeito pelos representantes dessa corrente política.

Movido por ideais socialistas, ele construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com os mais pobres, o que o transformou em uma ameaça para as oligarquias locais e para o projeto autoritário que se instalou no país após o Golpe Militar.

Renato Medeiros foi eleito deputado federal em 1962, com ampla vantagem de votos, em uma das campanhas políticas mais conturbadas da história de Rondônia, por conta do comício do dia 26 de setembro daquele ano eleitoral, marcado por um atentado político que ficaria conhecida como Caçambada Cutuba: um caminhão da prefeitura de Porto Velho invadiu propositalmente o comício, deixando mortos e feridos.

O caso nunca foi apurado e não recebeu a devida cobertura da imprensa em uma manobra das oligarquias dominantes para apagar os rastros deste crime que permaneceu esquecido por anos e foi resgatado através da obra de Zola Xavier da Silveira.

De acordo com o autor, as vítimas da Caçambada Cutuba estão enterradas no Cemitério dos Inocentes, em Porto Velho. “Os familiares foram impedidos de verem as vítimas no hospital e suas sepulturas foram construídas com doações populares”, acrescenta.

O episódio é uma pequena demonstração da violência com que as classes dominantes tentavam calar a voz das lideranças populares em Porto Velho.

Mesmo diante da violência, a candidatura de Renato Medeiros resistiu e venceu as eleições daquele ano, evidenciando a força da organização popular do antigo Território de Rondônia, que ganharia status de Unidade Federativa e se tornaria Estado de Rondônia somente em 1982.

Eleito pelo Partido Social Progressista (PSP), Medeiros articulou-se com os deputados federais Leonel Brizola e Almino Affonso e foi para a legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), assumindo uma posição firme em defesa das reformas de base do governo João Goulart.

Muito antes disso, Renato Medeiros já havia ocupado uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1957, quando o deputado Joaquim Rondon, eleito pela Frente Popular em 1954, se licenciou do cargo.

Ele foi o deputado que entregou as chaves do imóvel que se tornaria sede da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas (URES) nas mãos do presidente da entidade. O prédio passou a abrigar o Centro de Cultura Popular (CPC), da UNE (União Nacional dos Estudantes), e se tornou um importante centro de produção cultural, mobilização política e organização popular.

Com o Golpe Militar, a perseguição e repressão política a Renato Medeiros se intensificou. Seus filhos foram alvo de emboscadas e outras pessoas ligadas a ele foram igualmente perseguidas e até presas.

O prédio da sede da URES foi tomado pelos militares e segue ocupado até hoje, com o nome Palacete Rio Madeira, localizado no centro histórico de Porto Velho.

Após ter o mandato cassado e os direitos políticos suspensos pelo Ato Inconstitucional N°1, de 9 de abril de 1964, Renato Medeiros perdeu seu emprego público e ficou sem condições de voltar para Porto Velho.

“Ele ficou praticamente exilado no município de Jacareí, no interior de São Paulo. Eu tive a oportunidade de visitar essa cidade e onde ele trabalhou no Hospital Santa Casa de Misericórdia e chegou a montar um consultório”, conta Zola Xavier.

Em Jacareí, Renato Medeiros permaneceu até falecer em novembro de 1986. Sua memória só começou a ser resgatada institucionalmente dois anos depois de sua morte, durante a Assembleia Constituinte de 1988, quando seu mandato foi simbolicamente devolvido.

*****

Foto: Câmara dos Deputados

*****

Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e familiares e siga os perfis do Rondônia Plural nas redes sociais:

Instagram

Facebook

X

Deixe um comentário