Em 30 de abril, o segundo mandato de Donald Trump completou 100 dias, tempo suficiente para o presidente republicano promover uma série de retrocessos nas políticas ambientais e científicas dos Estados Unidos.
As ações da nova gestão incluem cortes agressivos em agências federais, desmonte de programas científicos, abandono de compromissos internacionais e medidas que favorecem combustíveis fósseis.
Para especialistas, o impacto dessas medidas é profundo e pode comprometer o futuro climático global, além de fragilizar a capacidade dos EUA em responder a crises ambientais e científicas.
Segundo Jesse Young, ex-Chefe de Gabinete do Escritório do Enviado Presidencial Especial para o Clima (SPEC) dos EUA, a política externa ambiental de Trump está desmantelando fundamentalmente a capacidade dos EUA de exercer influência global, comprometendo alianças estratégicas e enfraquecendo a credibilidade americana.
“E muito disso vai, na verdade, prejudicar os próprios objetivos da administração Trump, seja na redução dos desequilíbrios comerciais ou no combate à China. Estamos apenas destruindo nossa credibilidade com tantos outros parceiros e aliados importantes”, pontua.
Já Tom Di Liberto, ex-cientista climático da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), alerta para uma série de retaliações políticas e cortes nas agências federais.
“Com os cortes atuais que já ocorreram, e com os cortes que provavelmente ocorrerão, isso vai degradar completamente nossa capacidade de consertar, melhorar ou lidar com qualquer problema que surja em qualquer um desses sistemas”, argumenta.
“Já estamos vendo os impactos, especialmente no nosso serviço nacional de meteorologia, onde já não conseguimos prever o clima 24 horas por dia, 7 dias por semana nos escritórios locais de previsão. Hoje já não conseguimos lançar tantas balões meteorológicos. Hoje já não conseguimos avaliar os danos de tornados”, acrescenta o cientista.
Recentemente, Liberto enfrentou uma demissão, recontratação forçada por ordem judicial e posterior re-demissão de NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), instituição ligada ao governo estadunidense.
“Fui demitido em 27 de fevereiro, 13 dias antes de terminar o meu período de experiência. Fui recontratado em 17 de março, para cumprir a ordem judicial, e depois fui re-demitido em 10 de abril, quando as ordens de restrição temporária do tribunal foram suspensas pelos juízes”, lembra.
A presidente da União dos Cientistas Preocupados, Gretchen Goldman, que atuou na Casa Branca Biden-Harris e no Departamento de Transportes, chama atenção para a destruição estrutural das instituições públicas.
“A Administração Trump está puxando o tapete debaixo de nós. Estão desmantelando a infraestrutura pela qual coletamos dados, promovemos expertise e tomamos decisões baseadas em ciência”, enfatiza.
Para a professora de Harvard e historiadora da ciência Naomi Oreskes, o maior prejuízo causado pelo negacionismo de Trump será a destruição da reputação científica dos Estados Unidos.
Segundo a professora, há um risco real dos Estados Unidos perderem dados irrecuperáveis. “Bilhões de dólares foram gastos em modelos climáticos, conjuntos de dados, núcleos de gelo e outras amostras físicas. Muito disso pode ser perdido, e muito disso pode não ser facilmente, se é que pode, substituído”, alertou.
Petróleo e poluição climática
De acordo com Aru Shiney-Ajay, diretora executiva do Sunrise Movement, organização que defende ações políticas sobre as mudanças climáticas e pautas progressistas, as medidas de Donald Trump escancaram para quem o presidente republicano está a serviço.
“Em apenas 100 dias, ele já mostrou que não se importa com os trabalhadores, nem com o planeta. Ele trabalha para os bilionários do petróleo”, observa.
Ela destaca que, em 100 dias, o presidente republicano destruiu proteções ambientais que salvam vidas, reduziu investimentos em empregos de energia limpa e trabalhou para desmontar as ferramentas legais para combater a poluição climática.
“Tudo isso faz parte de uma agenda impiedosa para apoiar grandes empresas de petróleo e recompensar os bilionários que financiam suas campanhas. Trump não se importa com os trabalhadores; tudo o que ele se importa é em ajudar os bilionários do petróleo e gás que financiaram sua campanha. Eles sabem que sua indústria está morrendo. A energia eólica e solar são mais baratas e mais seguras do que os combustíveis fósseis. Então, estão tentando comprar seu caminho até a rentabilidade manipulando as regras a seu favor”, pontua.
Como o mundo vê Trump?
Fora dos Estados Unidos, a preocupação não é menor. A Ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, afirmou que a postura negacionista de Trump coloca em risco o multilateralismo climático.
“O contexto geopolítico cada vez mais complexo de turbulências comerciais e tarifas pode atrapalhar o progresso no combate às mudanças climáticas. Pode drenar recursos e colocar em risco o ambiente de confiança entre os países. Mas não devemos esquecer que desde o Protocolo de Kyoto, os Estados Unidos oscilaram, às vezes participando, às vezes não, do processo multilateral de clima e, ainda assim, os países avançaram”, explicou.
“A própria população americana vai sofrer pesadamente com essa visão retrógrada”, alertou a ministra.
Já Joyce Banda, ex-presidenta de Malawi, criticou duramente os efeitos das ações americanas sobre os países em desenvolvimento. “Essas medidas terão consequências severas para milhões de pessoas que já sofrem com secas, enchentes e crises humanitárias induzidas pelo clima”, ressaltou.
“Os impactos climáticos continuam a devastar países africanos em proporções sem precedentes, e o financiamento climático disponível não é suficiente para lidar com esses desastres crescentes. Dado o papel histórico dos Estados Unidos como um grande emissor, é profundamente preocupante que os EUA continuem a adotar medidas para minar a ação climática para os países mais vulneráveis do mundo”, complementou a ex-presidenta.
Oposição e resistência
Em uma coletiva de imprensa, realizada pelo movimento America is All In, uma coalizão de lideranças norte-americanas em apoio a medidas de combate as mudanças climáticas, o Governador de Illinois e co-presidente do America is All In, JB Pritzker, disse que a Casa Branca adotou uma estratégia de governança radical, cruel e incoerente.
“As tarifas estão aumentando os preços dos bens essenciais, causando perdas históricas no mercado de ações. Trump, mais uma vez, retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. Elon Musk e seus amigos do DOGE estão dando às corporações um passe livre para poluir o nosso ar e nossa água, enquanto destroem o financiamento para a energia limpa. Está claro que não há pensamento de curto ou longo prazo. E talvez nem haja pensamento algum acontecendo na Casa Branca. Isso é especialmente preocupante para uma questão tão urgente e extensa quanto a mudança climática”, enfatizou.
“Eu fui governador durante a última administração Trump, então posso falar com experiência. Quanto mais Donald Trump e JD Vance resistem, mais as pessoas ficam motivadas, e estamos motivados aqui e prontos para a luta”, acrescentou Pritzker.
Durante a coletiva de imprensa, Gina McCarthy, ex-administradora da EPA (sigla em inglês para “Agência de Proteção Ambiental”) e co-presidente do movimento America is All In, destacou que, apesar do cenário preocupante, há resistência.
“O que está acontecendo em nosso país não é o fim da nossa história. Longe disso. Nosso país continua cheio de esperança e oportunidades. Veja o que está acontecendo no nível subnacional. Empresas, cidades, estados, tribos, instituições religiosas e tantos outros estão trabalhando incansavelmente para garantir que a energia limpa continue a crescer e enriquecer a vida das pessoas em toda a América. Isso é fácil? Não. Esta administração está fazendo tudo o que pode para desacelerar isso? Absolutamente”, ressaltou.
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