Lançado no final de 2024, o documentário “Viver para a Terra: o caso de Rondônia”, dirigido por Ian Cheibub e produzido pelos professores Fabiano Santos (IESP-UERJ), Ivan Silva (UNIFAP) e João Paulo Viana (UNIR), buscou retratar o complexo processo de colonização e governança territorial do estado.
Com vinte minutos de duração, a obra aborda desde o histórico de projetos governamentais como o Programa de Desenvolvimento Integrado para o Noroeste do Brasil (POLONOROESTE) e o Projeto Agropecuário e Florestal de Rondônia (PLANAFLORO) até os conflitos mais recentes em áreas como a Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Pardo, palco de múltiplas disputas por regularização fundiária.
No entanto, de acordo com Claudinei dos Santos, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Rondônia e integrante do Instituto Territórios e Justiça (INTERJUS) e da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), a abordagem escolhida pelo filme apresenta narrativas equivocadas e tendenciosas sobre a reforma agrária.
Santos questiona a ausência de vozes históricas da luta camponesa no estado, a fragilidade da construção narrativa e o protagonismo dado a figuras que não representam o acúmulo de décadas de enfrentamento pela terra. Ele também rebate discurso que visa criminalizar a luta pela terra, distorcendo o papel e os objetos da Reforma Agrária.
Em entrevista exclusiva ao Rondônia Plural, Claudinei dos Santos, conhecido como Tijolão, aprofunda suas críticas e reflexões sobre o filme, a política agrária em Rondônia e os caminhos para que a luta pela terra não seja cooptada ou deslegitimada.
Rondônia Plural: O que motiva sua crítica ao documentário “Viver para a Terra”?
Claudinei dos Santos: Minha crítica parte de um compromisso com a verdade histórica e com os sujeitos que constroem cotidianamente a luta pela terra em Rondônia. O documentário tem méritos, mas omite personagens centrais dessa trajetória, como o MST, que está no estado desde 1989. Não se pode falar de reforma agrária ou governança territorial ignorando quem efetivamente produziu enfrentamento político, social e jurídico ao latifúndio e à grilagem. Além disso, o filme reproduz uma lógica narrativa que despolitiza essas lutas, como se fossem episódios isolados de conflito.
Rondônia Plural: Na sua resenha, você critica duramente a participação do deputado estadual Lucas Torres no documentário. O que mais te incomodou na fala dele?
Claudinei dos Santos: O incômodo vem do fato de que o deputado Lucas Torres representa uma visão completamente distorcida e desinformada sobre a questão agrária. Ele trata a luta pela terra como caso de polícia, reduzindo um tema profundamente ligado à política econômica, à justiça social e à função social da propriedade a um problema de segurança pública. Suas falas estão carregadas de um positivismo jurídico que serve apenas para reforçar a criminalização dos movimentos sociais. Ele confunde os conceitos de invasão e ocupação, como se fossem a mesma coisa, o que revela sua falta de conhecimento com a sociologia rural e o direito agrário. A presença dele no documentário não contribui com o debate — ao contrário, desinforma e reforça narrativas conservadoras que têm impedido a reforma agrária no Brasil.
Rondônia Plural: Você menciona que o deputado faz uma confusão proposital entre os conceitos de invasão e ocupação. Pode explicar melhor?
Claudinei dos Santos: Sim. Essa confusão é estratégica para criminalizar os movimentos sociais. No direito brasileiro, a ocupação de terras improdutivas pode ser uma forma legítima de reivindicação, sobretudo quando feita por movimentos organizados, como o MST. Já a invasão implica violência, apropriação indevida, o que normalmente ocorre em grilagens patrocinadas por interesses privados. Quando um deputado, que também é delegado, confunde esses conceitos, ele reforça uma visão repressiva e ignora o papel constitucional da reforma agrária como instrumento de justiça social.
Rondônia Plural: Qual a sua opinião sobre a participação de outras figuras que aparecem no documentário e cuja participação é, no mínimo, controversa. Pode comentar mais sobre isso?
Claudinei dos Santos: Sim. O documentário dá voz a personagens que, embora tenham algum histórico político ou institucional, não representam de fato as lutas pela terra em Rondônia. É o caso do João do Vale, por exemplo, um pecuarista e presidente da ASPRO (Associação dos Produtores Rurais de Porto Velho), que defende abertamente o agronegócio. Ou ainda do ex-governador Daniel Pereira, que mesmo tendo uma trajetória no campo da esquerda institucional, sempre teve uma postura distante e fria em relação aos movimentos sociais do campo. Essas escolhas de entrevistados reforçam a crítica central que faço à obra: ela se propõe a retratar a genealogia da questão agrária no estado, mas ignora sujeitos históricos essenciais, como o próprio INCRA e os movimentos sociais organizados. Isso compromete a intenção de oferecer um retrato fiel e aprofundado da disputa por terra em Rondônia.
Rondônia Plural: Na resenha você destacou o caso da região de Rio Pardo. Qual é a importância desse território no debate sobre a questão agrária em Rondônia?
Claudinei dos Santos: A região de Rio Pardo é um território emblemático porque concentra uma série de conflitos históricos ligados à terra, à regularização fundiária e ao desmatamento. O documentário trata da Área de Proteção Ambiental (APA) Rio Pardo, criada e depois revogada por leis estaduais, e atualmente questionada judicialmente. O problema ali é que esses territórios foram alvos de uma verdadeira ciranda jurídica, onde a falta de clareza sobre a destinação das terras abriu espaço para grilagem, invasões e embargos judiciais. Mas o mais grave é como a narrativa sobre essa área tenta normalizar a invasão ilegal, muitas vezes pautada pelo espírito do “desbravador”, ignorando a função social da terra e a necessidade de políticas públicas de reforma agrária. A região deveria ser um símbolo da urgência da governança territorial e não um campo aberto para a especulação fundiária.
Rondônia Plural: O documentário apresenta a ASPRUNIV como uma representação legítima dos “sem-terra”. Qual sua avaliação sobre isso?
Claudinei dos Santos: Essa é uma das partes mais preocupantes do documentário. A ASPRUNIV (Associação dos Produtores Unidos Venceremos de Rio Pardo e Região) é uma associação recente, fundada em 2021 e já considerada inapta pela Receita Federal em 2024. Não há problema em ouvir diferentes vozes, mas apresentar esse grupo como se fosse o principal representante dos sem-terra é um apagamento histórico. Essa associação não tem acúmulo de luta, de formação ou de proposta política. E pior: pode representar o que chamamos de “sem-terra de ocasião”, grupos que utilizam a retórica da reforma agrária apenas como justificativa para ocupações com fins privados, distantes da pauta popular e coletiva.
Rondônia Plural: O que está por trás da ausência do INCRA no documentário, na sua opinião?
Claudinei dos Santos: A ausência do INCRA é sintomática. Trata-se do órgão responsável por conduzir a política de reforma agrária no Brasil, especialmente no que tange à regularização fundiária. Ignorá-lo é ignorar o debate institucional sobre a função social da terra. A sensação é de que o documentário tenta evitar um debate mais técnico e político sobre a responsabilidade do Estado nesse processo. Isso enfraquece o diagnóstico e alimenta soluções simplistas ou privatistas para uma questão profundamente complexa.
Rondônia Plural: Na sua avaliação, qual seria uma abordagem mais adequada para tratar a questão agrária em Rondônia?
Claudinei dos Santos: Uma abordagem séria sobre a questão agrária precisa combinar escuta ativa dos sujeitos históricos — os camponeses, assentados, indígenas e movimentos populares — com um rigor técnico que compreenda a função social da terra. É preciso incluir o INCRA, universidades, organizações como o MST e movimentos quilombolas. Também é fundamental discutir o modelo de desenvolvimento rural em disputa: o agronegócio totalitário ou a agroecologia, a agricultura familiar e a soberania alimentar. Isso não apareceu no documentário, e é por isso que ele acaba sendo, apesar das boas intenções, um retrato incompleto e enviesado.
Rondônia Plural: Como você enxerga o papel do documentário nesse momento político do país?
Claudinei dos Santos: Em um contexto em que o governo federal retoma o debate sobre a reforma agrária, é preocupante que uma produção com esse alcance contribua para narrativas que reforçam a criminalização dos movimentos e a despolitização do conflito agrário. O documentário acaba ecoando versões convenientes para setores conservadores, mesmo quando pretende criticá-los. É preciso ter muito cuidado para não cair em armadilhas discursivas que legitimam a concentração fundiária em nome de uma suposta paz no campo.
Rondônia Plural: Por fim, qual mensagem você gostaria de deixar?
Claudinei dos Santos: Se for assistir o documentário, assista com senso crítico. A realidade da luta pela terra em Rondônia é profunda, complexa e histórica. Nenhum documentário dá conta de tudo, mas é preciso saber o que se escolhe mostrar — e, principalmente, o que se escolhe esconder. A reforma agrária continua sendo uma tarefa histórica inacabada. E enquanto ela não se concretizar, seguiremos ocupando, resistindo e produzindo. Porque, como dizemos no MST, é na terra que se constrói a dignidade.
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